Chegamos à beira do abismo. E tem gente dando um passinho à frente.

O meu pior pesadelo já se tornou uma realidade: Muitos profissionais de ilustração, animação e fotografia já trabalham para grandes clientes a custo ZERO aqui no Brasil.

De trabalhos “no risco” a projetos que dão “projeção”, “divulgação” e “portfolio”, a revoltantes concursos picaretas de toda espécie, trabalhos voluntários e projetos colaborativos, passando por imagens publicadas sem a autorização ou o conhecimento do artista, o valor ZERO não é mais uma figura de expressão ou um exagero, já podemos ouvir o barulho de colegas nossos se estabacando no fundo do poço.

Com esta realidade devastando o mercado como um tornado, e à beira do abismo da concorrência a custo ZERO, só nos resta imaginar quem será o louco de dar um passinho adiante, e pagar para trabalhar.

Nah, impossível. Quem seria louco a ponto de pagar grandes quantias para trabalhar?

O plano já está feito, pronto para ser executado. Estudantes pagarão 105 mil dólares para fazer parte da equipe de produção da Digital Domain.

Curiosamente a Digital Domain é a mesma empresa criada por James Cameron, que recebeu uma carta aberta dos artistas de efeitos visuais (semanas antes de receber diversas premiações na Academia, em Hollywood, por Avatar) para que citasse em seu discurso alguma palavra que valorizasse os artistas, que tem sua parcela de contribuição em diversos Oscar, ano após ano, enquanto veem seus salários serem diluídos e enxugados a cada novo filme produzido.

James Cameron, com a estatueta dourada nas mãos, ignorou completamente o pedido de seus colegas, e agradeceu somente aos que interessavam diretamente à ele.

Leia o texto abaixo, traduzido do site Cartoon Brew, que também foi reproduzido pelo CG Hub, num alerta enviado pelo colega Eduardo Schaal.

O CEO da Digital Domain, John Textor tem grandes planos para o seu novo estúdio de animação em Port St. Lucie, na Flórida, chamado Tradition Studios. Já escrevemos sobre os ambiciosos planos de grandes produções deste estúdio, ainda não eram conhecidas eram as formas pelas quais Textor pretende realizar seus filmes. Seu plano é convencer estudantes a pagar para a Digital Domain, e trabalhar sem salário.

O blog VFX Soldier obteve um discurso no qual Textor fala aos investidores, em Novembro passado, revelando como a nova escola de animação da companhia, a Digital Domain Institute será integrada com o Tradition Studio. Textor disse à sua audiência:

“Com as aulas começando no espaço educacional, o que é interessante é a relação entre o estúdio digital e a faculdade. Não é apenas o primeiro de uma variedade de opções que já conversamos anteriormente, mas 30% da força de trabalho no nosso estúdio digital na Flórida não será apenas gratuito, com trabalho estudantil, mas será um trabalho que na realidade nos pagará pelo privilégio de fazerem parte de nossos filmes.

Este foi o elemento controverso desta questão e as primeiras discussões com o Departamento de Educação, porque soa como se estivéssemos tirando vantagem dos estudantes. Mas nós fomos capazes de persuadir até mesmo a comunidade acadêmica, se não fizermos algo para reduzir dramaticamente os custos na nossa indústria, não somente os nossos, mas de diversos outros setores neste país, nós perderemos estas indústrias, perderemos estes empregos. E nossa indústria estava indo muito rapidamente para a India e a China.”

Em outras palavras, os estudantes pagarão até U$ 105,000.00 pelo “privilégio” de trabalhar nas produções da Digital Domain, sendo a primeira delas The Legend of Tembo.

Conforme a VFX Soldier destaca: Uma coisa é trabalhar por baixos valores, outra coisa é trabalhar de graça, mas é inimaginável esperar que se pague para trabalhar de graça“.

Se tudo isto soa um tanto suspeito, é porque é mesmo. A Animation Guild de Los Angeles investiga se a Digital Domain pode estar em violação das leis de trabalho federais e estaduais. Eles tentaram a comunicação com diversas agências governamentais, inclusive o Departamento de Estado da Educação, mas sem sucesso até o momento. Leis de trabalho federais, no entanto, estariam a favor dos artistas, uma vez que são claramente estipuladas as cláusulas que dizem que estagiários não podem “realizar trabalho produtivo” (ou seja, trabalho na linha de produção de um filme) sem ser compensados pelo valor mínimo e horas extras (O valor mínimo, vale dizer, é de U$ 7.67 por hora na Flórida).

Como os programas de educação em animação proliferam nos Estados Unidos e a competição se intensifica por um número restrito de postos de trabalho, os estúdios se encontram numa posição de explorar jovens artistas mais agressivamente do que nunca.

Se é o caso da Titmouse realocar seu estúdio para 3.000 milhas de distância para evitar o pagamento aos seus funcionários de valores estabelecidos pelo sindicato ou da Digital Domain fazer as pessoas pagarem para trabalhar em seus filmes, há muitas brechas legais que os estúdios podem explorar para salvar um trocadinho aqui e ali, nas costas de suas equipes de produção.

E alguns CEOs de grandes estúdios estão tão orgulhosos deles mesmos, que se gabam publicamente sobre como estão se safando desta situação.

(Fotografia de Debbie and John Trextor via TCPalm.com)

8 Comments

  1. Posted 2 de abril de 2012 at 13:26 | Permalink

    Pois é… Não demora muito para esta idéia chegar aqui em terras tupiniquins. Façamos um bolão de quanto tempo isso vai levar!

  2. Posted 2 de abril de 2012 at 13:43 | Permalink

    Oi Flávio,

    Você sabe que parte da produção de Asterix foi feita no Brasil, certo?
    Você sabe que boa parte da produção foi feita por estudantes?

    E tantas outras produções, inclusive uma que foi candidata ao Oscar, que foi feita em quase sua totalidade por estudantes e professores de animação?

    E vale lembrar que estudante não é estagiário, ele paga para estar na linha de produção.

    O esquema de custo zero já está implementado e consolidado há muitos anos, mas como tudo evolui, os produtores já acham o trabalho gratuito muito pouco, eles querem mais.

    A nova moda é pagar para trabalhar.

  3. Cristiano
    Posted 2 de abril de 2012 at 15:27 | Permalink

    Por que não dar nomes aos bois? As escolas de animação que usaram mão de obra de alunos para a produção do filme “Asterix e os Vikings” foram: Academia de Animação e Artes Digitais (São Paulo – SP – atualmente ArtAcademia) e HGN Cursos (São Paulo – SP).

  4. Miguel
    Posted 13 de abril de 2012 at 13:28 | Permalink

    Putz, e eu pensando (apenas pensando, bem entendido) em trabalhar nessa área! Claro que eu teria que antes fazer cursos (sou ZERO na matéria). Como gosto muito de arte (desenho principalmente) não vou desistir dos cursos, mas quanto a possibilidade de trabalhar nessa área, sei não, não gostei nenhum pouco da notícia. Mas uma sugestão a esse pessoal aí: por que não legalizam de uma vez a escravidão?

  5. Danniel
    Posted 18 de abril de 2012 at 21:36 | Permalink

    Eu costumava brincar que o melhor negócio do mundo seria algo parecido com o que fez o sr. Myiagi, de “caratê kid”. Ser professor de caratê, e dono de um negócio de pintura de cercas e outro de lava-rápido. Lucra-se com os serviços prestados E com a mão-de-obra, que são os alunos de caratê, que pagam pelas aulas.

    Parece que eu não fui o único a ter essa idéia.

  6. Posted 25 de abril de 2012 at 16:21 | Permalink

    Olá Montalvo,

    Mas não há como mudar esse cenário ?

    Não há como se organizar, e organizar os profissionais e futuros profissionais, para que se conscientizem que práticas como essas somente acabam com o mercado de trabalho ?

    Precisamos ter um sindicato ou uma entidade que nos represente, pois como foi dito no texto, daqui a pouco estaremos pagando para trabalhar.

  7. Posted 5 de maio de 2012 at 14:40 | Permalink

    Caro Montalvo. Gostaria de sua permição para publicae este artigo na revista digital BWNEWS. Grato pela atenção.

    Att Weberty Gonçalves

  8. Davi
    Posted 15 de agosto de 2012 at 18:03 | Permalink

    E são esses os caras que depois vem chorar por direitos autorais, argumentando que temos que valorizar a formação e o trabalho do artista. Sim, claro!

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