Meus heróis não morreram de overdose.

De tempos em tempos amargamos a perda de alguns grandes heróis, é o ciclo da vida, e não há nada que possamos fazer a este respeito, a não ser prestar nossas homenagens e jamais esquecer quem eles foram e o que fizeram.

Entre os ilustradores se foram recentemente estão Bernie Fuchs, Frank Frazetta, Kazuhiko Sano, Jeffrey Catherine Jones e Moebius, artistas que sempre admirei profundamente desde a minha infância, verdadeiros super-heróis de carne e osso, que me inspiraram e motivaram por uma vida inteira.

Até hoje me pego pensando, ao ver suas imagens, como eu gostaria de poder desenhar ou pintar como eles, coisa de fã, quem é artista conhece a sensação.

Como eu não os conheci pessoalmente, a minha dor é pela perda dos símbolos, os mitos que eles representam, e me sinto órfão de alguma forma, confrontado com a realidade que jamais os encontrarei, e que nenhuma nova arte será produzida por eles.

Outras perdas monumentais, irrecuperáveis, são aqueles que de alguma forma colaboraram na construção das minhas referências intelectuais, morais, artísticas, ou que me fizeram rir, chorar, pensar, sonhar e me emocionar profundamente.

Estas pessoas iluminadas se tornam parte da vida de cada um que os segue, e o que somos hoje se deve, em parte, ao que eles representaram – ou ainda representam – muito para nós.

Eu jamais vou esquecer o dia em que Ayrton Senna se foi, assim como Frank Zappa, Stevie Ray Vaughan, Henfil, Raphael Rabello, Carl Sagan e Christopher Hitchens.

Em 2003 o mundo perdeu Sérgio Vieira de Mello, e eu pude assistir a um documentário produzido pela HBO em sua memória. Naquela época eu já sabia quem ele era, e saber da sua morte foi devastador para mim.

O documentário, premiado no Sundance Film Festival, infelizmente não foi apresentado em rede aberta, no horário nobre, em seu próprio país, e também não está disponível na íntegra na web.

Este é um relato impressionante de um diplomata que fez a diferença no mundo. Respeitado e reconhecido como um grande humanista, corajoso pacifista e habilidoso negociador em países em conflito, Sérgio trabalhava em campo, pisando em campos minados, em contato direto com os povos mais surrados do mundo, no Cambodja, Timor Leste, diversos países da África, e por fim no Iraque, onde foi morto num atentado terrorista, em 2003.

Ele foi um herói para o mundo, e inacreditavelmente esquecido pela maioria dos brasileiros.

Sérgio era Representante Especial do Secretário Geral pelos Direitos Humanos da ONU, Kofi Annan, que foi convidado para inaugurar o Memorial Sérgio Vieira de Mello.

Aqui em São Paulo um túnel recebeu seu nome, mas pouco ou nada se diz a respeito de quem ele foi, ou o que ele fez. É uma homenagem, tem seu valor, sua simbologia, mas é muito menor do que seria justo, comparativamente aos seus feitos pelo mundo inteiro.

Podemos no entanto, nos sentir gratos pela HBO ter o interesse e a dedicação que não tivemos para preservar a memória, os atos e a história deste homem memorável, porque ele foi com todos os méritos, um cidadão do mundo. O orgulho de haver uma pessoa assim não é dos brasileiros, é da espécie humana, porque ele atuava muito além das fronteiras. O fato dele ter nascido no Brasil foi apenas uma contingência, sua família viajava o mundo inteiro devido ao cargo de seu pai, também diplomata.

Falar sobre diplomatas, músicos, escritores e cientistas falecidos não é exatamente o assunto deste blog, mas eu me sinto na obrigação de preservar e celebrar os feitos dos meus heróis pessoais. Eu sou a soma de fragmentos do que cada um deles deixou como legado, e a minha gratidão por tudo que eles fizeram é imensamente maior que um post na Sketcheria.

Quando é que conseguiremos, como Nação, aprender a dar valor a quem tem valor?

Até quando o povo brasileiro permitirá ser induzido a glorificar celebridades instantâneas, caras, bocas e bundas, cujas biografias não valem um parágrafo?

É preciso saber escolher os heróis, porque eles se tornam os ideais que perseguimos, os padrões – ainda que inatingíveis – para os quais apontamos nossas metas, ou ao menos nossos valores e ideais.

E não se deve esquecer quem foram, nem o que fizeram, porque devemos o que somos às pessoas que admiramos.

“My message is very simple: Never forget the real challenges and the real rewards are out there in the fields. Where there’s people suffering, where people need you.” – Sérgio Vieira de Mello

3 Comments

  1. Alvaro
    Posted 21 de março de 2012 at 22:28 | Permalink

    Nada mais verdadeiro. CELEBRIDADE por aqui, na maioria das vezes, nada mais é que alguém que surge, lançado como um foguete arrastando rios de publicidade e oportunismo. Alguns chegam ao ponto de considerar alguém que simplesmente foi citada por viajar para o canadá, como uma pessoa célebre e influente. As vezes, a pobreza cultural desse país, também me assusta.

  2. Marcelo Ortolani
    Posted 25 de março de 2012 at 3:02 | Permalink

    Excelente post. É tão inspirador encontrar um desenhista que não seja um cabeça-oca.

  3. Elina
    Posted 5 de julho de 2012 at 23:54 | Permalink

    É tão verdade isso tudo. É a sensação de respirar um pouquinho no meio de tanta poluição, um pequeno suspiro para poder refletir no que realmente importa quando vivemos inundados em tanta futilidades dia após dia.

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