Papo de músico III – Círculo das Quintas com um relógio de ponteiros

ZONA DE SPOILER:
Esta série de posts sobre música é um resumo dos papos sobre estudos musicais que tenho de vez em quando com alguns amigos, e daquela promessa que fica no ar: “Passa lá em casa, eu te mostro este material…”.
O convite continua valendo, mas o que eu queria mostrar já está na mão, e quem sabe de quebra ajuda mais alguns colegas a encaixar as peças quadradas nos buracos quadrados.

O Círculo das Quintas é o GPS do mundo musical. É uma espécie de bússola marombada com poderosos esteróides que pode te orientar (musicalmente ao menos) na velha questão: “Quem somos, de onde viemos e para onde vamos?”

O fundamento está em memorizar em uma sequência lógica as 12 notas entre uma oitava e outra, de forma que você possa acessar mentalmente as relações entre elas, seja em intervalos, armaduras de clave, relativas menores, campo harmônico, substituição e progressão de acordes, etc, resolvendo muitas das questões essenciais para um músico.

Tudo isto poderia ser entuchado miolos adentro pelos métodos mais convencionais da boa e velha decoreba, que são um passeio no bosque para um ou outro privilegiado que tem memória fotográfica e poderia ser um espião da CIA ao invés de tentar a sorte como músico. Para as pessoas normais, tudo isto pode ser compreendido aos poucos, mas com uma lógica muito clara, até que se consiga visualisar todas as notas em seus lugares em um processo simples e muito parecido com aprender a ler as horas em um relógio de ponteiros.

Supondo que você já conheça a nomenclatura convencional das notas C, D, E, F, G, A, B, decorar o Círculo das Quintas não vai ser uma tarefa insana, e acredite, se você tem um interesse sério no universo musical, vai valer muito a pena.

Como as informações no Círculo das Quintas são sobrepostas, como layers em Photoshop, este seria o Background:

A associação direta das posições das notas com os ponteiros do relógio vai facilitar muito as coisas:

A ordem das notas neste diagrama obedece a um princípio muito simples: toda nota no sentido horário é a quinta da anterior. No sentido contrário é uma quarta da anterior. Partindo de C, a quinta é G e a quarta é F.

Quando eu tive esta aula, o professor terminou a aula desenhando o Círculo das Quintas no caderno, me explicou esta regra e me disse: “semana que vem eu quero isto aqui decorado”.

Eu passei a semana tentando decorar tudo de uma vez, e é claro, quebrei a cara. Ele me perguntou qual era a quinta de G, eu gaguejei e errei.

Usando outra metodologia, eu consegui ensinar a mesma coisa para meu filho, em uma semana, e ele nunca mais errou. Primeiro que eu não passei uma tarefa na pressão, nem despejei tudo numa tacada só. No primeiro dia ensinei apenas duas notas (C e A), suas posições no relógio e seus nomes (Do e Lá). No dia seguinte eu ensinei mais duas ou três notas, algumas brincadeiras no caminho para ajudar a memorização e matamos esta charada, rápido e fácil.

Dá pra começar direto com os quatro pontos cardeais da nossa super-bússola, e decorar isto de um dia para outro:

Um outro macete que eu acabei ensinando pra ele foi associar as teclas pretas, que tem dois nomes, com alguma pessoa ou objeto real, para que ele lembrasse de “algo” e não de letras aleatórias. Neste caso, FIGA para a posição das 6:00hs e Denise, uma amiga da família na posição das 9:00hs. Como eu sabia que ele esqueceria a nomenclatura, como todo ser humano normal, eu dava um empurrãozinho, lembrando das figuras, e ele respondia no ato.

Assim que estas notas estiverem claras na memória, o passo seguinte é decorar as outras por quadrantes, sem pressa, e tendo a certeza de fixar totalmente cada fase antes de encarar a próxima.

É claro que vai ficar mais fácil usar a mesma associação de ideias com as outras notas sustenidas e bemóis, como memorizar um CD todo colorido na posição de C#/Db, Gabriel na posição do G#/Ab, etc.

Eu acabei inventando uma brincadeira com o filhote: “Que notas são?”
Arredondando os horários para encaixar no diagrama, 11:05 são F:G, 15:30 são A:F#, e assim por diante. É um ótimo truque pra memorizar as posições com precisão e rapidez.

Muito bem, neste ponto você já conhece o Círculo das Quintas de cabo a rabo, já sabe reconhecer também as quartas, e daí?

Daí que ele serve também para se associar outros intervalos importantes, marcados em bold. Ter estes intervalos tatuados na memória pode ser um recurso muito útil para a construção, substituição e progressão de acordes, inversões ou escrita musical, acelerando o processo e evitando a “contagem” de semitons, uma tarefa tediosa, demorada e nem sempre certeira.

Por exemplo, a sexta de C é A e o trítono é F#.
Girando o diagrama para colocar a tônica (T) na posição de 3:00hs calculando a sexta de A, você encontra F# e o trítono será D#.


Outra mandracaria está nas Relativas Menores, uma espécie de irmã gêmea das escalas maiores, porque suas notas se sobrepõem exatamente quando tocadas em tom menor. A diferença está em sua tônica, ou seja, onde cada uma delas começa. Encontrar de imediato quem é a Relativa Menor de quem, na raça, pode ser um saco.

Mas se você girar o Círculo para a esquerda (maiúsculas para tons maiores, minúsculas para tons menores), tudo se encaixa: A Relativa Menor de C é a, e a Relativa Maior de c é D#.

Até este ponto deu pra brincar enquanto ensinava meu filho, mas eu parei por aqui pra não deixar a coisa se tornar muito chata. O resto ele vai aprender em uma escola de música, com um professor de verdade.

Há vários outros macetes, mas já que estamos falando dos principais, achar a Armadura de Clave, também chamada de Ordem dos Sustenidos e Bemóis ou Key Signatures, me parece ser um dos grandes recursos deste diagrama.

Esta é a escala de Si maior com seus sustenidos, ou acidentes:

E aqui a mesma escala, com os acidentes “embutidos” na armadura:

O conceito pode ser encontrado em mais detalhes aqui.

Por exemplo, você pode usar o Círculo das quintas definir rapidamente, de cabeça, as armaduras de qualquer pauta.

Basta associar os sustenidos de 1 a 7 em ordem crescente no sentido horário, e os bemóis no sentido oposto:

Note que C não tem sustenidos ou bemóis em sua escala maior, e aparece no topo com uma armadura sem acidentes.

No lado direito, G aparece com um sustenido, D com dois, A com 3, etc.

À esquerda F tem um bemol, A# tem dois, D# tem 3, e assim sucessivamente.

Outra curiosidade é a ordem em que estes acidentes aparecem grafados na pauta: F C G D A E B na ordem dos sustenidos, e o reverso na ordem dos bemóis: B E A D G C F. Esta é a mesma sequência das notas no Círculo das Quintas.

Se você tem um instrumento MIDI conectado com seu computador, clique na imagem para baixar um brinquedinho interessante no seu PC ou Mac. Um Círculo das Quintas interativo, com reconhecimento de acordes e alguns outros recursos bacanas que eu não citei aqui, como o Campo Harmônico e sua ligação com os Modos Gregorianos.
Para que tudo isto serve, e como fazer música com toda esta informação continua sendo um mistério insondável para mim. Por mais que eu ame a música e queira me aproximar dela subindo e descendo escalas, com cãibras ao inverter acordes e cometendo todos os erros possíveis com grande regularidade e perfeição, eu não toco nada de fato, mas eu adoro estudar as relações entre as complexas peças que formam o quebra-cabeças musical.

O ser humano é um bicho esquisito, tem gente que estuda idiomas mortos, outros colecionam escaravelhos, e eu estudo música.

Quem sabe na próxima encarnação eu possa usar tudo isto intuitivamente, e tocar algo decente.

3 Comments

  1. Posted 17 de dezembro de 2011 at 12:59 | Permalink

    olá, Montalvo, tudo bem?

    achei este post seu sobre música por acaso… estava procurando teclas de piano (vou desenhar um Beethoven tocando a quinta, achei a posição exata dos dedos, e agora estava procurando uns teclados e caí aqui).
    provavelmente sou um musico muito mais frustrado que você, pois o máximo que avancei foi decorar 36 acordes para violão (12 acordes, menor e com 7a).
    Isso faz mais de 20 anos. Também fiz um círculo para calcular mudanças de tons.

    Mas meu modelo também saiu da astrologia, que eu praticava.
    E não deve ser muita coincidencia termos 7 notas, desdobradas em 12 tons e semitons.
    Entao eu descobri uma coisa: nos acordes maiores (do-mi-sol por exemplo), a distancia do-mi equivale, graficamente, a um trígono, aspecto ou distãncia entre dois planetas considerada benéfica (favorável, facilitador etc).
    E no acorde menor (do-re#-sol), a distãncia do-re# no círculo é uma quadratura (aspecto considerado difícil, “de azar”, atrasador etc). A simples mudança de uma nota em meio tom deixa um acorde maior (alegre, completo, redondo e meio óbvio) em menor (triste, mais intrigante, interrogativo), e esse alegre/triste não são subjetivos, a gente constata isso.

    Como sou muito café com leite em música não prossegui isso, e a astrologia foi pra gaveta de qq forma.
    Mas acho que são campos correlatos, e podemos até arriscar um terceiro, com os círculos de cores, já que as cores primárias e complementares também se espalham num diagrama com regras lógicas parecidas.

    é isso, abraço do spacca

  2. Posted 19 de dezembro de 2011 at 12:26 | Permalink

    Oi Spacca, tudo bem?

    Muito legal o seu comentário, as relações entre diversas vibrações devem ter mesmo alguma ressonância e o estudo destas manifestações é realmente fascinante.

    Se colocar metafísica no rolo, isto se desdobra em cores de chakras, exercícios de meditação, respiração e estados alterados de consciência.

    Me gusta mucho!

    Abração pra você também.

  3. Bruna Lopes
    Posted 6 de janeiro de 2012 at 8:55 | Permalink

    Muito bom! Parabéns!

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