Papo de músico I – Causos de um músico frustrado

Faz tempo que eu não posto aqui na Sketcheria, tenho colaborado em outros dois blogs – SketchJazz e Notan – então vou mandar um off-topic, na verdade uma série deles, sobre música.

Como todo adolescente, eu também já quis ter uma banda de rock um dia, mas entre vários amigos pilhados, só eu entrei numa escola de música e levei a brincadeira adiante.

A minha surpresa foi encontrar um professor que tocava muito melhor que a maioria dos meus ídolos da época, e acabou abrindo a minha cabeça para outros estilos musicais a golpes de guitarra, ao melhor estilo El Kabong!

O Aldo nunca foi um cara bonzinho, muita gente tinha medo dele até, mas eu curtia a metodologia dele, suas estórias bizarras com um lado místico, enfim, eu aprendi muito com ele, em uma época de formação de personalidade, e acho que absorvi um pouco do tempero dele na minha maneira de resolver certos problemas. O meu lado Mr. Hyde, ou Montalvo-online, tem muito sotaque do Aldo, principalmente quando o modo “puto” está ON.

Foram dois anos de muito estudo, descobertas, entusiasmo e frustração. Reconheci que eu nunca seria músico, não tinha jeito pra coisa mesmo, e o melhor que eu poderia fazer era ser um bom ouvinte.

Mas eu sempre gostei da teoria musical, dos exercícios e da lógica por trás daquela linguagem, era um quebra-cabeça de gente grande, terrivelmente difícil pra mim, mas era exatamente por isto que me fascinava.

Passados 20 anos sem chegar perto de uma guitarra, eu acabei comprando um piano em um daqueles “Família Vende Tudo”, por uma pechincha. E me motivei a voltar a estudar música, aos poucos, no meu tempo, e mesmo tendo perdido a maioria do material de estudo daqueles anos, não foi difícil recuperar os assuntos na internet. O que eu não esperava, e foi um choque mesmo, era a quantidade imensa de conteúdo, websites, fóruns, softwares e literatura especializada.

Tem gente que chega pra mim e diz que não consegue desenhar nem uma casinha. Pois é, eu sou assim com a música, mas eu continuo tocando meus garranchos, teimosamente. Sorte dos vizinhos que eu não comprei um saxofone.

Comecei a recuperar e colecionar todo o material que eu eventualmente poderia estudar, e cataloguei por assunto: Modos Gregorianos, Acordes, Círculo das Quintas, Leitura e Escrita, Harmonização, etc. É muita coisa pra uma vida só, eu jamais vou conseguir consumir tudo o que eu adquiri em tão pouco tempo, mas vou comendo pelas bordas, transcrevendo para o piano o que eu consigo fazer.

Eu sou ilustrador, penso visualmente, e isto é uma muleta bem pesada para quem quer estudar música, eu não entendo os conceitos se não tiver uma lógica visual para eu me apoiar.

Como aprender escalas, visualmente? Aquele papo de “tom, tom, semitom, tom, tom, tom, semitom” era fácil, mas aquela era só a primeira coisa a ser aprendida, escala maior, modo Jônico, beleza… Mas haviam outros 6 modos, depois tinha harmônica menor, melódica menor, escala cigana, hindustam, paquistanesa e o caramba a quatro, pra fazer em 12 tons cada uma! E cada nota tem uma atribuição tonal: Tônica, Super-tônica, Mediante, Dominante, Sub-dominante, Aaaah!

Na guitarra até que ia, era decorar o desenho das notas e transpor pra frente e para baixo, dava pra encarar. Mesmo sem entender lhufas do que eu estava fazendo e com uma dificuldade enorme em achar as notas no meio do braço pra frente, eu conseguia cumprir com os exercícios.

Mas aí entra o piano na estória, e nas teclas haviam boas e más notícias. Todas as escalas, intervalos, acordes e principalmente as notas eram reconhecíveis logo de cara, claras como o dia, que beleeeeza! Mas isto tinha um custo alto, não adiantava mudar o desenho das escalas pra frente e pra trás, cada nota tem um formato diferente para a mesma escala, e o mesmo acontece para os acordes, ou seja, o problema que beirava o insuperável ficou 12 vezes mais complexo!

Parecia uma insanidade, nenhum ser humano normal consegue decorar tudo aquilo vezes 12! Tava na cara que um pianista tem que ser um maldito gênio pra conseguir se virar naquele universo em branco e preto… deu vontade de vender o piano, juro.

Mas eu sou teimoso, e um dia tropecei em um fórum muito interessante, de Jazz, com PDFs, tablaturas, midis, e muito material legal.

Ali eu encontrei uma chave que destrancaria as portas que me pareciam intransponíveis: Os Tetracordes (oooooohhh – musiquinha de anjos). É claro! todos os Modos Gregorianos tem 8 notas, os tetracordes tem 4, e todo aquele enigma dos infernos se resume a umas poucas combinações de tetracordes! O lance não é decorar as escalas inteiras em 12 tons diferentes, e sim entender como se encaixam os 4 padrões principais de intervalos. É igual montar uma ponte com lego!

Entendi, caramba! 20 anos depois, mas entendi! Por quê ninguém me falou isto antes, pô!

Se tudo ficou lógico, claro e quase óbvio para mim, que sou um jumento musical, tenho certeza que para os amigos mais inteligentes, que estudam música e tem algum talento ou aptidão para a coisa, vai parecer ridículo.

Grande coisa, eu descobri que as peças quadradas entram nos buracos quadrados, e as cilíndricas entram nos buracos redondos… dããã.

Mas para os seres humanos normais e limitados como eu, vai ser um passeio divertido, estudar os Modos Gregorianos com peças de dominó e o Círculo das Quintas usando um relógio de ponteiros.

Assunto para os próximos dois posts na Sketcheria.

2 Comments

  1. Posted 20 de agosto de 2011 at 11:09 | Permalink

    Eu sou um zero à esquerda no quesito “instrumentos musicais” e alguns esportes como o futebol, mas ao menos ninguém me bate no Peteleco.
    Bem que você podia preparar uma apresentação em algum futuro próximo com o pessoal te desenhando. Seria uma boa cara!
    Flávio Y.

  2. Márcio de Souza
    Posted 15 de março de 2012 at 14:26 | Permalink

    Pôxa, que legal, cara.
    Não conhecia essa maneira de representar os tons e semitons, desse modo visual!

Post a Comment

Your email is never published nor shared. Required fields are marked *

*
*