Um brinde aos presentes e ausentes

Há pouco mais de uma semana recebi a ligação de um amigo, há muito tempo afastado. Não que a amizade tivesse se perdido, apenas deixamos que os caminhos da vida nos levassem a lugares diferentes.

A ligação do Eder Sandoli trazia uma notícia devastadora: um amigo nosso – parceiro dele no “Duo Quase Acúsico” – o músico Renato Santoro, estava no hospital e a situação não era boa. Um câncer extremamente agressivo estava levando nosso amigo embora, cedo demais, como a morte costuma fazer com as pessoas que brilham demais.

Eu fui ver o Renato no dia seguinte, e pudemos conversar, lembrar de estórias antigas, ele me mostrou as fotos das filhas no celular, rimos um pouco, mas a gente sabia, no olhar, o que aquele encontro significava.

Hoje o telefone tocou cedo, e pela primeira vez eu queria que fosse uma operadora de telemarketing, vendendo alguma coisa, cobrando qualquer coisa, que fosse um trote ou engano, mas não era.

O “alô” do Eder, naquela hora, já era uma notícia.

Elvis has just left the building.

 

A minha amizade com o Eder tem quase 20 anos, e com o Renato quase 30, e não nos víamos há alguns anos. Tempo precioso desperdiçado com “coisas importantes”, obrigações, tarefas, trabalhos, compromissos, tudo tão sério, tão inadiável.

Aquela cerveja prometida com o Renato não vai mais ser brindada, e junto com ela, momentos preciosos nunca mais serão vividos.

Eu me pergunto hoje se havia mesmo tanta coisa importante a se fazer nos últimos 7 ou 8 anos, a ponto de não sobrar um único fim de tarde para sentar num boteco fuleiro e passar uma ou duas horas falando besteira, rindo das coisas boas e ruins, contando o que aconteceu e deixou de acontecer, e celebrar a vida que se tem, enquanto a temos.

E fico pensando quantas vezes a gente se deixa levar pelas “coisas importantes” e insuportavelmente chatas da vida como filas de banco, repartições públicas, trabalho e outras tantas obrigações que naquele momento eram prioritárias, e que agora parecem ridículas e insignificantes quando comparadas aos momentos preciosos que acontecem na companhia das pessoas que nos fazem sentir realmente vivos.

O Renato sempre foi uma destas pessoas que beberam a vida em grandes goles, com um senso de humor único, ácido, rápido e inteligente, sempre acompanhado de uma risada explosiva, contagiosa.

O espaço emocional que o Renato ocupava na vida de todos que tiveram o privilégio e a alegria de conviver com ele era muito intenso, ninguém esquecia dele, ninguém conseguiria, ele era de uma presença muito marcante e sua falta será profundamente sentida. Já está sendo.

Eu sempre me lembro dele brindando, numa expressão séria por uma fração de segundo, dizendo: “Aos presentes e ausentes” em meio a horas de gargalhadas, daquelas de fazer os músculos da cara e do estômago doer.

Como vai ser doloroso pensar nele, ao fazer o mesmo gesto.

Este foi o e-mail que enviei ao Eder, naquele mesmo dia .

Eder,

Foi um choque saber do estado de saúde do Renato, e tenho a impressão que este choque não vai passar. A gente vai acabar se acostumando com a cicatriz emocional, mas ela nunca vai fechar totalmente.

Hoje soube do falecimento de um ilustrador que eu admirei a vida inteira, Kazuhiko Sano, um gênio, um mágico.

A morte está rondando, sempre esteve.

Um amigo deste artista, outro Mestre das imagens, escreveu no final do post em seu blog:

“Hello students of Kazu
I have to pass on the sad news to you that your beloved teacher Kazu passed away this morning. He was at home, at peace and did not experience any pain.
As you go forwards in your art career, remember that the most valuable thing you have is time. Please use it well.”

E é verdade, o que temos de mais precioso é o tempo.

Tempo que eu lamento ter perdido nestes últimos anos, e não ter insistido em tomar aquela cerveja prometida, em forçar aquele encontro que ficou para outro dia, que nunca vai chegar.

Estou triste e com medo de enfrentar o inevitável, ver o Renato uma última vez, sabendo o que vem depois.

Vai ser doloroso rever os amigos, depois de tanto tempo, neste contexto.

A gente conviveu por muitos anos, foram tempos bons, engraçados, que fazem parte das minhas melhores lembranças.

Sinto muito pela família dele, das filhas que vão crescer sem a sua companhia, apenas vivendo as memórias do que ele foi, e por sua mãe, que vai sofrer a terrível inversão da ordem natural das coisas, vendo um filho partir antes dela. Esta é provavelmente a pior das perdas.

Fico no aguardo do seu contato, e do local onde está internado o nosso amigo.

Abraço,

Montalvo

 

Eu fiz a ilustração da capa do Duo Quase Acústico, um dos meus primeiros trabalhos em tela, e que foi o laboratório para muita coisa que produzo hoje. O original não está mais emoldurado, está montado em partes, em dois dos meus sketchbooks, e hoje eles ganham um novo significado, mais memórias, estórias e lembranças.

1 Comment

  1. bruno gato pedroso
    Posted 16 de abril de 2012 at 22:13 | Permalink

    nossa vc conviveu com ele 30 anos e eu apenas 1ano e 7 meses, depois de uma ligação da Ana a secretaria da academia de música que o renato dava aula de violão e guitarra dava para mim também sentei e chorei fiquei muito triste até agora faz uns 1 ano e meio q n faço aula com ele , tb com qualqr outro professor pois ainda a ficha não caiu e n o vejo, sonhei e supostamente vi a alma dele partindo uma alma linda, pura , brilhante com sua áurea dourada, era deus o levando mas eu tenho ser tesa q ele ira voutar e talvez em outra vida eu possa falar denovo com ele vou guardar sempre lembranças q sempre eram boas (hiper boas)rezar para ele e q deus o tenha amem

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