Depois de alardear um auto-elogio corporativo lambendo o próprio ego e apregoando virtudes questionáveis, o Grupo Abril recebeu da SIB - Sociedade dos Ilustradores do Brasil - uma carta levantando uma outra opinião sobre estas posturas.
Não é novidade para ninguém que as mega-editoras pagam valores cada vez menores, rompendo há muitos anos a linha do “preço baixo”, chegando ao nível da chacota.
A vertiginosa linha decadente de valores pagos nos últimos anos se tornou irrisória, risível, muito abaixo do que valeria um trabalho amador, até mesmo para os veteranos, extraindo deles o máximo possível, tanto em questões técnicas, como em prazos de pagamento extremamente “flexíveis” para dizer o mínimo, e também nas letras miúdas dos contratos socados goela abaixo dos seus colaboradores, arrancando o máximo de seus direitos patrimoniais.
O expediente de várias revistas do grupo anuncia, como faria um quitandeiro, a venda de fotos, ilustrações e textos publicados na revista, como se fossem frutas passadas de fim-de-feira.
Difícil imaginar um gesto de desprezo e escárnio maior do que este, em relação ao trabalho - mal pago - de seus colaboradores.
Isto não é uma conduta da qual uma empresa deveria se orgulhar, na verdade é uma questão vergonhosa, uma mancha na imagem corporativa que está se encardindo cada vez mais, por conta da própria atitude do Grupo Abril em ignorar e desrespeitar a opinião de seus colaboradores.
Neste post você pode acompanhar a carta da SIB enviada ao Grupo Abril no final de 2009, à qual foi respondida com o texto indiferente, quase automático, no final deste post.
Ninguém precisa - nem consegue - denegrir a imagem de uma empresa mais do que ela mesma, com um texto destes, dirigido aos que fornecem conteúdo para suas centenas de publicações.
No dia em que os ilustradores, redatores, fotógrafos e colaboradores em geral se cansarem disto tudo respondendo com um sonoro “NÃO” para toda esta relação comercial desequilibrada e humilhante, não haverá o que publicar, o que vender, e o que lucrar.
As mega-editoras ainda não se deram conta de que não se vende papel em branco encadernado nas estantes das templárias mega-stores.
Tudo que se vende é o conteúdo, produzido por autores (de texto e imagem) que se deixam vender por migalhas.
A culpa, afinal de contas, não é da editora, que está muito confortável em seu castelo de vidro.
A culpa é de quem aceita o estupro financeiro com um sorriso ridículo pregado na boca, trocando trabalho (outrora valioso e lucrativo) pela “vitrine” que a editora oferece, na esperança infantil que um dia será visto por alguém importante, generoso e paternalista, que pagará finalmente o que vale ao coitadinho do mendigo colaborador.
Esta mentalidade subserviente, implantada ao longo de séculos de exploração escravagista, colonialista, militarista, totalitarista e populista nos amputou a capacidade de reação.
Séculos de pelourinho perduram até hoje na memória coletiva da nossa sociedade, e nos fazem chorar calados, para dentro, sem demonstrar reação, sem verter uma lágrima, com medo de apanhar ainda mais.
Por “apanhar ainda mais”, entenda-se: perder o emprego, perder o cliente, perder o patrão que nos trata feito cães.
Isto acontece na política, na cadeia produtiva, nas hierarquias das empresas, e nas relações entre CONTRATANTES e CONTRATADOS, conforme consta nas letras miúdas dos contratos de cessão de direitos autorais.
Eu demiti esta editora da minha carteira de clientes há muitos anos.
Não preciso de clientes assim.
Há muitas editoras pequenas que tratam, pagam e negociam com seus colaboradores de maneira respeitosa, igualitária e digna.
O bom cliente é aquele que sabe reconhecer FINANCEIRAMENTE o seu parceiro de trabalho, remunerando bem, licenciando direitos justos, partilhando os lucros de forma que todos ganhem proporcionalmente bem, dentro do que cada um se propõe a fazer.
Certamente a Editora Abril está agindo dentro da legalidade, como afirma no seu texto de resposta.
É muito confortável se escorar na Lei, quando se é o elo mais forte da corrente.
O que se questiona é outra coisa: Será que a corrente é capaz de se sustentar quando se romperem todos os elos mais fracos?
Até quando haverão outros elos fracos na agenda, para substituição imediata e barata?
Leia o texto enviado pelo Grupo Abril à SIB, em resposta ao questionamento de sua postura comercial em relação aos seus colaboradores, e tire suas próprias conclusões.
From: Codigo de Conduta <CodigodeConduta@…>
Date: Tue, 12 Jan 2010 16:02:00 -0200
To: sib@…
Subject: RES: Sobre o Código de Conduta do Grupo AbrilCaros Senhores da SIB - Sociedade dos Ilustradores do Brasil
Agradecemos seu contato com o Canal de Comunicação do Código de Conduta do Grupo Abril. Como a correspondência enviada não foi considerada uma questão de conduta, ela foi encaminhada à Auditoria Interna.
Em conjunto com a área de Compliance e com o Departamento Jurídico, avaliamos os pontos levantados com os departamentos competentes. Nossas conclusões foram as seguintes:
- A documentação analisada está em total acordo com a legislação vigente e de forma alguma contêm qualquer violação ao Código de Conduta;
- Não existe abuso legal em nossas práticas, que acompanham as do mercado em que atuamos;
- As condições contratuais são as mesmas normalmente utilizadas em trabalhos semelhantes.
- Caso haja um ou mais casos concretos que desejem trazer ao Canal de Comunicação, permanecemos à disposição para atendê-los e fazer os encaminhamentos necessários ao devido tratamento.
Atenciosamente,


32 Comments
É eles parecem estar nem aí pra SIB…
Mas Montalvo, a SIB representa poucos artistas no mercado, geralmente aqueles com arte excelente ou acima da média que aí está.
O leque de artistas que podem procurar a Editora citada é muito amplo!
O que eu me questiono é se essas estruturas hierarquicas de produção se justificam ainda hoje. Não sei se você acompanhou alguma das discussões que aconteceram na Campus Party (tem no YouTube). O concenso que se chega é que quando a relação entre as partes fica igual a essa dos ilustradores e a Abril, o processo não se sustenta, sendo assim a opção é eliminar a parte que prejudica o processo, no caso a Abril. Pra isso é preciso união entre os ilustradores. Não estou falando de simplesmente todos dizerem não á Abril, e sim de se organizarem para assumir as atividades que ela fazia.
É o que tenho observado em atividades audiovisuais onde as pessoas se organizam em coletivos, acho que o processo se aplica á atividades editoriais.
É cedo ou tarde demais pra dizer adeus á Abril?
- Carlos, eles não estão nem aí pra ninguém. É uma mega-corporação que gira em torno de números e curvas de faturamento. Está desumanizada há décadas. Por ela os fornecedores poderiam morar debaixo da ponte, contanto que continuassem fornecendo conteúdo. Talvez por um prato de comida. Talvez por meio prato, se aceitarem.
A editora promoveu análises de portfolio de norte a sul do país. Aumentou sua carteira de fornecedores para garantir centenas de opções para cada trabalho recusado pelos profissionais. Eles estalam os dedos e forma-se uma fila de dobrar o quarteirão para fazer qualquer trabalho em troca de uns trocados amassados.
Eles derrubaram a concorrência em um ataque massivo, e oferecem a “vitrine” como pagamento.
Trouxa de quem cai nesta balela.
E trouxa neste país é o que não falta.
Montalvo,
mesmo não sendo uma ilustradora super low-profile em relação a muita gente, eu digo “não” sem titubear para qualquer pseudo-cliente que tente reduzir meu preço em mais de 5%. Dane-se. Quer, quer, não quer, não quer. Tem quem queira. Tem quem valorize, e portanto, pague. Mas não basta só a ilustradora-desconhecida negar propostas abusivas. Todo mundo tem que crescer um par de bolas e começar a recusar abusos. Vejo muitos clientes (de design e de ilustração) buscando substitutos mais baratos e, depois de se queimarem horrores no mercado com peças e ilustrações ruins, voltando a me procurar, sem chorar preço. Ainda não é em larga escala, mas acredito que venha a ser um dia. Eventualmente, livros e revistas terão ilustrações tão sofríveis, tão pouco profissionais, que começarão a incomodar os leitores. Já deixei de comprar revista porque mudaram os fotógrafos (mas não o preço de capa). Aí a coisa se reverterá. Ou pelo menos preciso acreditar nisso.
Excelente texto, aliás.
Parabéns como sempre.
Abraços,
Ana.
- Edde, veja como são as coisas. Há 15 anos a editora Abril era um símbolo de excelência, o topo da carreira para fotógrafos, ilustradores e jornalistas.
Só os melhores chegavam lá, e eram muito bem pagos para isto.
Hoje a pirâmide se inverteu, e qualquer zé-ruela publica na Abril. Tem muito iniciante que se recusa a apresentar o portfolio lá, porque sabe que vai virar bucha de canhão, trabalhando feito uma besta pra ganhar muito pouco, sem a menor chance de melhorar depois disto.
Hoje ao invés de representar o auge da carreira, representa uma porta de entrada escancarada para qualquer um se arriscar na carreira, contanto que aceite pagamento em valores simbólicos.
Para qualquer artista profissional passou a representar o crepúsculo da carreira.
Triste, e dolorosamente real.
- Leonardo, não adianta esperar que “todos” digam não.
Isto jamais vai acontecer, porque um sempre vai esperar o outro tomar a atitude, e enquanto isto a massa fica paralisada.
Acredito somente na atitude individual, desvinculada e direta.
E a atitude só acontece em primeira pessoa. Não dá pra esperar atitude dos outros, porque o coletivo não existe.
O coletivo é um monte de indivíduos.
Enquanto o monte de indivíduos estiver dividido, desorientado e sem metas, não existe o que faça ele se agregar e ficar coeso para se tornar coletivo.
Eu varri a Abril para fora do meu estúdio.
E fiz isto sozinho, assumindo todos os riscos.
Eu disse não. Falei por mim e por ninguém mais.
E não conto com o coletivo para nada. Nada mesmo.
Eu apenas proponho, se o coletivo tiver os mesmos objetivos, ele se forma e vamos juntos para algum lugar.
Se o coletivo se dispersar, cada um que se vire, eu vou sozinho.
Caro Montalvo, eu ouvia falar que a Abril estava detonando com o mercado, mas a imagem que eu ainda tinha era que só a nata dos ilustradores trabalhavam pra ela - como estou desatualizado! E é triste ver esse movimento predatório da parte deles, pois se quisessem, poderiam ser os grandes aliados dos ilustradores, desenhistas e afins. Potencial eles têm. Tradição e história, também. Falta apenas alguém na alta cúpula com uma visão mais artística e menos capitalista ou industrial. Mas talvez, quando mudarem essa ótica, não seja tarde demais pra minimizar os estragos. Enquanto isso, muitos talentos estão descobrindo o potencial e as boas e honestas oportunidades no mercado externo, e ficando cada vez mais distantes dessas ameaças em forma de “parceria” ou coisa do gênero. Uma pena!
- Carlos, quanto tempo, tudo bem?
Pois é, a coisa tá feia. Ainda há alguns bigshots ilustrando para esta editora, mas as negociações são verdadeiras quedas de braço, e adivinha quem ganha, sempre?
Inteligência gráfica para eles é um resquício remoto, coisa do século passado, da era pré-Bin Laden.
Basta olhar para o festival de tosqueira semanal na capa da Veja, e nem me fale do interior, a maioria das páginas são de passar mal.
Posso estar enganado, mas eu não acho que mudará para melhor.
Hoje em dia se comenta muito sobre como a mídia impressa está perdendo a força. É natural, pois temos novas mídias para concorrer com as revistas. Porém eles não percebem que jogando a qualidade pra baixo só estarão acelerando a extinção da mídia impressa.
Existe um público que gostaria de comprar e ler mais revistas, mas não encontra publicações de alto nível. As revistas hoje são, em grande parte, escritas por jornalistas inexperientes e mal pagos, ilustradas por artistas iniciantes e fotógrafos idem. Nada contra os jovens, mas isso acaba afastando quem realmente compra as revistas, os leitores mais amadurecidos intelectualmente e com mais cultura, que possuem um grau de exigência e de crítica maiores.
Coitadas. As editoras como a Abril acham que estão economizando dinheiro, pagando mal e contratando profissionais baratos, mas na verdade estão é perdendo. Acham que estão bem porque o número de exemplares vendidos aumenta, mas não se dão conta que poderiam vender muito mais, se tivessem publicações com um nível realmente alto.
Eu entendi o que quis dizer, Montalvo.E concordo com você e com a SIB.
Eu já trabalhei com A Abril nos anos 80 e começo dos 90. Fui funcionário!Era muito bom trabalhar lá. Mas pelo que tenho presenciado, mudou bastante.
O que quero dizer é que a SIB representa uma parcela bem pequena do mercado. Poderia ser diferente, mas não é, infelizmente.
A SIB deve ter uns 100 associados, acho. Só de ilustradores, Curitiba deve ter este número!
- Ana Elisa, há certas coisas que não se aprende nos livros. Dignidade e auto-estima se cultiva desde a infância, e sempre haverá os que se deixam torturar, por não se julgarem capazes de reagir.
São como elefantes de circo, chicoteados por um ser menor, sem se dar conta que teriam a força de esmagá-lo com a bunda, se tivessem noção da sua força e tamanho.
Você aprendeu, provavelmente no berço, a saber quantificar o seu próprio valor, e se recusar a aceitar imposições absurdas.
Talvez seja muito mais difícil para alguns ilustradores dizer “não”, do que fazer uma bela arte final.
Ruim para eles, pior para nós.
Obrigado pelo comentário.
Newton - Muito boas suas colocações, sensatas como sempre.
Outro dia eu twittei uma reportagem no TED sobre um designer da Europa oriental, Jacek Utko, que revolucionou o design dos jornais locais por determinação própria, ele queria ver algo melhor publicado.
O resultado do novo design dos jornais pode ser traduzido em números, imediatamente.
As vendas cresciam em números nunca antes vistos, e ele passou a ser requisitado em diversos países, recriando uma linguagem de design que era revertida imediatamente em lucro, em faturamento, em recordes de vendas.
Ainda vou postar este video ( http://is.gd/7ED2i ) aqui no blog.
Quem sabe um dia o Brasil possa evoluir no design de suas publicações, como fizeram na Romênia, Polônia, Bulgária, Látvia ou Estônia.
NÃO HA NADA DE BOM DE ESPERAR POR PARTE DE EDITORAS , ALIAS A MAIORIA TIRANDO EXCEÇÕES QUE SÃO O MINIMO SEMPRE DESRESPEITARAM OS ILUSTRADORES INFELIZMENTE
PROBLEMA CULTURAL DE NASCENÇA
É TRISTE
Montalvo
Sempre admirei e admiro muito sua maneira de pensar e agir perante a casos como esse e com “o Profissional”.
Realmente acredito como você que as mudanças e comportamento devem ser feitas pela pessoa “o indivíduo”.
Ainda não estou trabalhando nesta área e com frequência me questiono justamente sobre esses aspectos.
Também acredito no pensamento moral, a valorização de profissionais e não no preço do papel, tinta ou qualquer material que será utilizado.
Até o profissional se inserir no mercado quanto tempo e dinheiro ele investiu nisso?
Parabéns pelas críticas, te vejo no próximo Bistecão.
Abraço
- Fábio, obrigado pelo comentário.
Eu estou fazendo a minha obrigação, denunciando o crime no único veículo que tenho.
Se cada ilustrador tivesse a coragem de fazer um único post sobre este assunto, que interessa a todos, a Abril estaria sendo exposta aos seus fornecedores de conteúdo, e talvez alguma mudança acontecesse.
Mas enquanto os ilustradores ficarem paralisados, esperando que eu ou outro qualquer fale por eles, nada vai mudar.
Para haver alguma esperança de mudança, cada um precisaria botar a boca no seu próprio trombone.
É o que eu faço aqui no blog, como o maluco que sobe no caixote, no meio da praça e grita seu protesto, esperando que alguém o escute.
Obrigado por escutar.
Olá Montalvo.
Também sou da opinião de que já ouveram dias melhores para colaborar com a Abril, e que eventos como a exposição itinerante “Ilustrando em Revista” abriram um vasto manancial de colaboradores para a editora com uma vasta economia de custos pra mesma, ou seja, pagam cada vez menos pra muitos que querem ilustrar.
Não desconsidero a exposição em si, no ponto de vista da divulgação da atividade “Ilustração”. Mas venhamos e convenhamos que o interesse final era sem dúvida pra eles.
Acho que essa resposta da Abril para a SIB já parte da mesma e esfarrapada desculpa em que eles dizem estar dentro da lei, que por sua vez troca 6 por meia dúzia com palavras metidas a técnicas e burocráticas.
Acho que a, até então, melhor arma para ilustradores ou quaisquer outros profissionais é o estudo aplicado e contínuo a tudo que se diz respeito à atividade, desde o melhor pincel até o melhor contrato a assinar.
Independente da triste situação em que o mercado de arte em geral vive, trocam-se muito mais idéias entre colegas do que a muitos, e aureos, anos atrás.
Abraço
Marco São Pedro
Pois é, Montalvo. É estranho que editoras com a Abril estejam cortando gastos, pagando pior seus funcionários e colaboradores, quando eles deveriam fazer o contrário - investir em profissionais melhores para garantir a existência dessa mídia.
O cinema é um bom exemplo disso. Ao invés de reduzir seus custos, com a chegada de novos concorrentes, como a internet, games, TVs a cabo, TVs HD, etc. eles têm investido mais na tecnologia e na produção dos filmes. Nunca no cinema se gastou tanto com as produções, incluso aí bons atores e melhores técnicos, todos muito bem pagos.
- Marco São Pedro, o “Ilustrando em Revista” foi o melhor e o pior evento de ilustração que já houve no Brasil.
Eles elevaram a ilustração ao patamar de Arte de Galeria, a expo foi grandiosa, tudo muito lindo. Os debates eram inteligentes, construtivos e os workshops idem.
Agora, eles jogaram uma rede de arrasto de norte a sul do país, catalogando jovens talentos como quem pesca na época da reprodução.
Mão de obra barata, a granel.
Para quê pagar bem um profissional, se tem centenas de quebra-galhos querendo trabalhar de graça?
E é uma mentalidade mesquinha, porque não estamos falando de grandes valores, se tratando de uma mega-corporação como a Abril. Não se trata de milhões ou bilhões de reais, como eles estão acostumados a negociar.
Estamos falando de centenas de reais.
Será que a editora Abril desmoronaria no meio da Marginal Pinheiros se pagasse algumas centenas de reais a mais para os ilustradores?
Será que o faturamento bruto e o lucro líquido da editora Abril se conta em centenas de reais? É óbvio que não.
Isto é sintoma da despersonalização das empresas. Eles não tratam com pessoas, eles tratam com números, e é só isto que importa. Que morram as pessoas, contanto que a curva de faturamento seja alta.
Como a pesca predatória, esta ação foi devastadora para ilustradores, e os novatos, enganados pela isca da “vitrine”, também não ganharam nada com isto. O futuro deles será pior que o nosso presente, porque não haverá o que negociar.
É uma vergonha que uma editora que poderia ser o referencial de qualidade e promoção de uma geração de ilustradores tenha se tornado o nosso pior carrasco.
Newton - Novamente você acertou em cheio, se eles cuidassem da qualidade pagando melhor, teriam melhores produtos e recordes de venda. Não haveria o que temer em relação às novas mídias.
Mas agora é tarde, a mídia impressa gerou o próprio descrédito, pela queda de qualidade decorrente de uma economia burra.
Como acreditar em um meio que se deteriora a cada dia que passa?
Com jornalistas, fotógrafos e ilustradores mal pagos, a qualidade vai para o ralo, e sem qualidade não há como crescer.
Que as mega-editoras afundem na própria lama.
Com os dinossauros extintos, restarão as editoras menores, mais honestas e mais adaptadas a uma realidade auto-sustentável, onde todos ganham.
totalmente off topic, mas apenas pra agradecer por ter falado da Visual Literacy Academy … =) está sendo um dos melhores investimentos que já fiz na vida! (acho q o melhor)
=)
Montalvo,
brigadão pelo comentário. Eu percebo muito essa lentidão e ela me incomoda… esse foi um trabalho criado para a faculdade de forma muito corrida, praticamente em 8 horas sem contar render e quando chegou a hora de animar eu nem timei nada, foi meio triste, mas é melhor ser assumido. Eu estava no meio do meu projeto final, uma animação que ainda não posso mostrar por ae porque pretendo mandar pra festivais (não custa tentar hehe)
como havia um tempo específico que ela tinha durar, eu acabei espaçando muito os frames na correria e ficou essa verdadeira camera lenta. Acho ducaralho que você se deu o trabalho de me dar os toques e agradeço, farei coisas melhores daqui pra frente com certeza.
no entanto senti orgulho da modelagem e do rigging, as texturas foram, infelizmente, meio no esquema qualquer coisa também. Não concluí o normal map e se o vídeo estivesse grande, você veria que esqueci as divisões do uvwmap do olho aparecendo!! (horrível, eu sei) e esqueci de botar 2 sided na textura do bicho - a boca virou um buraco sem fundo! haha, muitos errinhos mesmo, mas foi o jeito, e o professor conseguiu ficar do meu lado, deu tudo certo.
abraço!
Apesar de concordar completamente com seu ponto de vista Montalvo, não acredito que o indivíduo tenha força contra o que tem sido um reflexo de uma política neo liberal, que se dissemina em todos as mídias possíveis.
Não tenho acreditado muito nesta revolução digital. Sobretudo porque tenho percebido que os grandes conglomerados financeiros, a mídia corporativa, tem conseguido viciar as massas em padrões de atitudes previsíveis.
A qualidade tão prezada por artistas, e pela intelectualidade nada preguiçosa - pessoas como você e tantos desta era dourada das mídias aqui no Brasil- tem sido pouca prezada pela grande massa atuante e economicamente viável deste país; Esta classe média cada vez mais burra e influente.
Eu tenho creditado cada vez mais na teoria de aldous huxley no seu “admirável mundo novo”
O que vejo são políticas economico-sociais de condicionamento das classes, que nos colocam no nosso devido lugar. Porque o ‘capital’ que está por trás de tudo, se encontra como o maior regulador de nossas decisões de sustento pessoal.
Acedito sim, que a união faria a força neste caso. Mas esta união fica difícil, quando o que pode prover nossas necessidades mais imediatas, está no poder de quem define o quanto nos é “devido” ganhar.
Renoir - Note que eu não estou propondo um movimento de massa, não espero nem quero um clamor social de grandes proporções.
Estou falando do indivíduo, de você que dedicou seu tempo a ler o post, dos poucos colegas sérios que atuam profissionalmente no mercado editorial, como disse antes, bastaria um micro-onibus com 30 ilustradores agindo de forma coesa para chacoalhar as estruturas enferrujadas dessa máquina torta e suja, que enriquece apenas os que não criam nada, apenas revendem a criação dos outros.
Ainda assim, acho que é sonhar demais.
Nós conseguimos juntar 80 ilustradores no Bistecão, mas não é possível fazer com que 10 deles recusem trabalhos aviltantemente mal pagos.
Por isto eu volto a afirmar, o poder está na mão do indivíduo.
Não existe tal coisa como “Lei de Mercado”.
A cada orçamento que passamos, cada job que pegamos, estamos construindo o mercado.
Se tem gente que se vende por um punhado de trocados amassados para aparecer na revista, cada um deles está demolindo o próprio meio de vida, acabando com seu sustento e o de seus colegas.
No instante que um deles se cansar de ser usado como um fantoche, cortar suas linhas, e disser “NÃO”, ele terá mudado o seu próprio mercado, e por consequência o mercado como um todo.
O indivíduo, e somente ele, é capaz de tomar esta decisão.
Eu só posso responder por minhas decisões.
Cada um sabe o que está fazendo de certo e errado.
A cada dia somos confrontados com novas decisões.
Um dia, alguém vai deixar de pensar: “tudo bem, vou fazer este trabalho de merda, por este valor de merda, para esta empresa de merda, porque se eu não fizer, algum outro merda faz”, e dirá simplesmente: “NÃO”.
Neste dia o mercado terá ganho mais um profissional sério.
Essa levada de post e comentarios da abril fala com qlq ilustrador hahau!´Certa vez fiz umas ilustrações para uma revista do RJ(uma verdadeira revista M…).Na época ñ cobrei nada,foi colaborativo,porem,me arrependo ate hj.Ficaram de me enviar alguns exemplares…no fim me enviaram um unico exemplar DEPOIS DE MAIS DE UM ANO q foi desmontando no decorrer do tempo e ate hj nao respondem meus e mails cobrando os outros exemplares O.o
Montalvo, já que você citou valores e afins, deixo ponderar algo, qu a uns 2 anos gostaria de saber sua opinião, pois a mesma é de muita valia a minha pessoa:
Existe um grande sistema de ensino no Brasil, que possui duas editoras grandes: uma no centro de São Paulo e outra no interior. Nelas existem cargos de desenhistas e de animadores. No interior, o salário chega a R$ 900, 00 para ambos os cargos, aqui em SP, em torno de R$ 1500,00 - R$ 1600,00 Levando em conta que o funcionário realizará inumeras ilustrações mensais, esse valor chega a ser ridícula, quiça vergonhoso a quem se sujeita a um tipo de trabalho. Sendo que, a mesma pseudo-editora nao paga vale-transporte e nem vale-refeição. Se o mesmo cara que trabalha lá, cobrasse direito pelo seu trabalho, poderia ganhar muito mais do que isso, produzindo menos, a meu ver.
O que você acha disso, dessas empresa que contratam ilustradores a preços de banana?
- Carlos, por mim eu deletaria nossos comentários do blog por não acrescentar nada aos outros. Se concordar, me avise.
Abraços,
Montalvo
Pode deletar sim. E se estiver de acordo, deletamos também a conversa em paralelo pelo twitter.
Abraço.
- Fábio, eu até imagino qual seja a empresa.
Não estamos em um mundo perfeito, o ser humano é ganancioso e o brasileiro em especial tem mesmo uma postura predatória.
A lei-do-mais-forte no Brasil é impiedosa, mas por outro lado, não existe um dominador se não houver um dominado.
Os índios brasileiros jamais aceitaram a condição de escravos, e deram muita dor de cabeça aos portugueses.
Se há quem se submeta a salários aviltantes, e se há uma fila se formando na porta da empresa aguardando novos cargos a qualquer preço, não espere do empresário que ele aumente os salários.
Muito provavelmente ele vai aumentar a carga de trabalho e diminuir os benefícios, salários e condições para seus funcionários.
É um país que carrega nas costas 500 anos de colonização perversa, e isto está no sangue e na memória da classe dominante.
Enquanto houver gente disposta a ser escrava não adianta reclamar, porque os negócios, ao menos para o patrão estão indo muito bem.
Pouquíssimas empresas pagam participação nos lucros e tratam seus empregados como parceiros.
Mas elas existem, e sorte de quem consegue fazer parte destas equipes. Tanto os donos quanto os funcionários trabalham duro, confiantes e felizes, porque sabem que todo esforço será recompensado e reconhecido.
Quem sabe um dia este formato seja mais difundido e passe a ser o padrão neste país, e a desigualdade deixe de ser tão aberrante.
É, eu sou um idealista sonhador mesmo…
Não ha como não concordar com o que você escreveu, traduz perfeitamente o que acontece e tem acontecido, tenho certeza absoluta de que a mudança disso tudo só pode partir do individuo, como você disse!!! Curiosamente eu entrei aqui pra ler seu blog coisa que não fazia a muito tempo por que não me sobrava tempo, diagramando, desenhando,animando e esculpindo sendo pago por um só trabalho depois de muitos anos eu me levantei da cadeira ontem e fui embora, talvez eu perca em dinheiro, mas ganho em dignidade dignidade essa que não vendo em livrarias, nem se aprende em elearnings de treinamentos em empresa etc !!! Ainda seria feliz sendo um pipoqueiro digno desenhando nas horas vagas, mas essa prostituição nada prazeirosa tem que acabar!!!
Abraço e sucesso sempre!!!
Olha, a SIB é uma dessas sociedades que acaba mais atrapalhando do que ajudando. Eles tratam os ilustradores pior do que qualquer Abril. Eu já tentei trabalhar como ilustradora, mas descobri que tirando fotos de batizado e festinha de criança eu ganho num fim de semana o que levaria um mês pra ganhar ilustrando.
E não tem nada a ver com qualidade. A verdade é que tem muito carinha que se chama de ilustrador, mas é um mero garatujeiro que faz uns rabisquinhos aqui e acolá e vende como ilustração. Daí, qualquer 20 reais cobre os 5 minutos de trabalho que o cara teve. Aliás… pelo que reparei, a maioria dos bons ilustradores hoje em dia vive mesmo é de dar aula pra iniciantes que ainda vivem de sonhos.
- Graziela, eu tenho minhas opiniões sobre a SIB, e apesar de não concordar ou gostar da postura deles, como você, temos que reconhecer que é a única entidade que representa os ilustradores no Brasil.
Eu não faço parte do grupo, é uma escolha minha.
Concordo que tem muita gente se apresentando como ilustrador e agindo como flanelinha, esmolando oportunidade e aceitando merreca como pagamento, e isto é prejudicial a todos.
No entanto, discordo que os bons ilustradores estejam apenas dando aula, principalmente porque esta atividade não paga muito bem.
Os melhores ilustradores que eu conheço estão ocupados, ilustrando, e ganhando muito bem com isto.
Principalmente porque sabem o valor de seu trabalho, e aprenderam a comercializar os direitos de suas imagens como administradores, não como flanelinhas famintos por um minutinho de fama.
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This post was mentioned on Twitter by montalvomachado: A resposta do Grupo Abril aos elos fracos da corrente: http://is.gd/7C2PY (em respeito aos profissionais, pls RT)…
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