Gary Taxali manda um recado para seus clientes ruins

De tempos em tempos acontecem certas mudanças de paradigma, umas para o bem, outras para o mal.

A revolução industrial, a queda da bolsa em 1929, o milagre econômico brasileiro, enfim, altos e baixos.

Eu devo ter entrado no crepúsculo do mercado de ilustração, ainda me lembro de diretores de arte me recomendando entrar no Clube dos Ilustradores, mas ele terminou antes que eu pudesse me associar.

Quando eu fiz meu primeiro trabalho editorial, este mercado ainda pagava bem, e em 1999 recebia de R$ 1.200,00 a R$ 2.200,00 por uma página dupla para a Superinteressante. A Playboy pagava R$ 1.000,00 por uma dupla, que sempre vinha com uma porção de vinhetas, que acabavam dobrando este valor no final.

Tudo parecia ir muito bem, até que o Bin Laden mandou derrubar o WTC, o Pentágono e a Casa Branca (esta última não deu certo).

Uma terrível mudança de paradigma. O mundo ficou pior a partir deste dia. Acabou a ingenuidade, e virou noite sem lua no mercado editorial. Todos se tornaram reféns e algozes de todo mundo, e esta peste se espalhou pelo mundo corporativo como chamas em um palheiro.

Teve cliente que só faltou chorar nos meus ombros, dizendo que a editora demitiu 3 mil funcionários, que não sabia se iriam fechar, enfim, tragédia total.

No mercado editorial os preços caíram… caíram… e caíram mais um pouco.

Nunca mais subiram, esta é a verdade.

Passaram-se 8 anos e a editora não fechou, na verdade cresceu em número de publicações, mas eles perceberam que, mesmo com os preços ao rés do chão, os negócios iam bem, e eles decidiram baixar as tabelas ainda mais.

E baixaram… baixaram… e baixaram mais ainda, até um nível insustentável, irrespirável.

Hoje os preços oferecidos parecem uma piada sem graça, e aí o que acontece?

O quebra-quebra financeiro mundial. Trilhões de dólares vaporizaram em semanas, e o mundo ficou ainda pior do que já estava.

Mais uma quebra de paradigma, uma devastação econômica, ninguém mais tem dinheiro.

E os clientes mais mal intencionados usam este momento para fazer o quê?

Baixar as tabelas ainda mais, bem abaixo da linha de sobrevivência de seus fornecedores. Ou partem para concursinhos picaretas, contratos de risco ou o escambo na cara dura.

Neste momento desesperador, surge uma quebra POSITIVA de paradigma:

O ilustrador Gary Taxali recebe várias propostas aviltantes, sacanas e desleais. Swatch, Google e as editoras cruzaram a linha do respeito, e tomaram uma invertida que se tornou a nova propaganda viral contra os clientes ruins.

Acompanhe o texto de Gary Taxali, postado recentemente em seu blog, em repúdio e protesto contra os clientes picaretas, e veja se ele não está coberto de razão:

Não me chame
“Recentemente tem havido uma SEVERA retração na indústria. Pagamentos baixos tem sido um problema por um bom tempo, mas as coisas estão piorando. Os fees dos clientes estão baixando ainda mais, e os direitos que eles exigem são cada vez maiores.
Quer exemplos? O que você acha da SWATCH me ligando para solicitar o design de um relógio. Eles queriam a transferência integral de direitos por valores insignificantes. Como se isto fosse acontecer. O GOOGLE me chama e quer meu trabalho para seu novo mecanismo de busca por toda a rede mundial, e o pagamento? Nada. Clientes da área editorial estão cortando os valores de 1999 praticamente pela metade, e a crise econômica é a desculpa.
Quer saber? Minha desculpa é que a economia está ruim, portanto você deve me pagar MAIS por uma ilustração.
Que tal isto como um pacote de estímulo econômico?
Então aqui para todo cliente com valores e negociações de merda. Não desperdice meu tempo nem me contate.
Eu estou muito ocupado trabalhando para clientes que respeitam os artistas, e você está gastando meu tempo com suas solicitações. Aqui pra vocês, a minha saudação especial, e espero que ela mantenha você afastado, porque eu não preciso do seu trabalho.”
Gary Taxali - ilustrador americano

O curioso é que desde que ele postou este desenho, várias pessoas solicitaram que ele produzisse camisetas com a imagem, e elas já estão à venda na loja virtual do site dele.


Eu acho que ele virou a mesa num momento crítico, mandou um recado claro para seus clientes ruins, e deu um exemplo a ser seguido pelos seus colegas de profissão.

Gary Taxali criou um novo conceito de negociação à partir da pressão absurda dos clientes, todos culpando a crise mundial para arrochar ainda mais os valores, que já eram ridículos.

Para baixo não dá mais, chegamos no limite. A próxima parada é no inferno.

Melhor tomar uma atitude agora, e começar a subir, a não ser que você tenha vocação para atender pessoalmente aos jobs do Grão-Duque Satanás.

11 Comments

  1. Sophia
    Posted 7 de maio de 2009 at 23:09 | Permalink

    Falou e disse!!!

  2. Posted 8 de maio de 2009 at 2:02 | Permalink

    O fato é que se trata de sobrevivência da profissão. Ou se diz não a estas condições, ou ilustração se tornará um hobby ou no máximo ocupação secundária (como já é para muitos). E é importante entender que esta é uma situação desnecessária, os preços pagos tornam-se cada vez menores apenas pela incapacidade dos ilustradores de se esmerarem na parte comercial da profissão do mesmo modo como se empenham na parte prática.

  3. Posted 8 de maio de 2009 at 2:19 | Permalink

    O grande problema, enfrentado principalmente aqui no Brasil, é que sempre há quem encare preços ridículos, fazendo assim o patamar descer mais. Mesmo que vc tenha qualidades superiores, os clientes hoje em dia estão se lixando.

  4. Posted 8 de maio de 2009 at 9:38 | Permalink

    - Valeu, Sophia! Aliás, não valeria mesmo a pena vocês pegarem a fila para o show do Egberto, o teatro lotou e eu assisti ao show no telão… mas foi muito bom, mesmo assim.

    - Joel, são os ilustradores desunidos e desinformados que matam os colegas pelas costas. Até mesmo os informados fazem isto quando jogam seus preços lá embaixo. Mimam os clientes e os patrocinam com o próprio dinheiro. São burros. Burros de carga, ilustrando por cenouras penduradas na sua frente. Não entenderam ainda que nem mesmo a cenoura eles conseguirão comer.

    - Walter, eu percebi que a única coisa possível é tomar as próprias atitudes. Já tentei mudar os outros, mas isto é desperdício de energia. Tome você mesmo as melhores decisões, pratique o “não”, e mude seu mundo. Isto já é muita coisa, individual e coletivamente.

  5. Posted 8 de maio de 2009 at 15:07 | Permalink

    Oi, Montalvo!
    Já dizia um amigo meu: “cliente ruim atrai cliente ruim”. Há anos trabalho pensando assim, mas está cada vez mais difícil “resistir às pressões do mercado” (odeio essa expressão). Tento me manter firme, e não faço nada por menos que meu Valor Mínimo Não-Humilhante… Mas é bizarro saber que está ruim para todo mundo, e não só para quem ainda é desconhecido… :(
    Abraços!

  6. Posted 8 de maio de 2009 at 18:23 | Permalink

    Ah, Montalvo! Eu sabia que me lembrava de seu nome de outras épocas! Fui fuçar no seu portfólio e minha lembrança estava correta: você fez aquela linda ilustração para a embalagem do finado azeite da Sadia, que nunca saiu do projeto. Eu trabalhava na Ás aquela época e quem fez a embalagem fui eu!! :)
    Você por acaso dá workshop em pastel?

    Abraços!

  7. Posted 8 de maio de 2009 at 20:25 | Permalink

    - Oi Ana, tudo bom? Obrigado pela lembrança, e seja bem-vinda ao blog!

    Então fomos parceiros naquele trabalho! Eu adorei fazer, mas estou estranhando uma coisa… Aquele azeite foi produzido, eu tenho até uma lata aqui na estante do estúdio. Talvez não tenha sido comercializado em São Paulo.

    Um dos workshops de técnicas mistas será com pastel, e uma combinação de pastel com solvente inodoro também.

  8. Posted 11 de maio de 2009 at 17:43 | Permalink

    Esta postagem foi ótima, Montalvo. Mas o assunto é muito delicado.
    Trabalho pra várias editoras didáticas. Elas, quase todas, tem um preço ‘interno’. Mas como negociar? Tentei entrar na SIB pra não ficar sem rumo, ter algo paplável, uma categoria, pra tentar pelo menos negociar, mas fui recusado. E mandei trabalhos profissionais, feitos pra editoras, com um briefing. E não houve uma justificativa, só um ‘tente de novo daqui a 6 meses’. Será que isto não aconteceu com outros artistas?

  9. Posted 11 de maio de 2009 at 17:47 | Permalink

    Ah! Não estou chorando por não ser admitido pela SIB. Sei que meu trabalho não é tão bom como o de 90% que lá está. Mas achava que a SIB representava uma clase de artistas profissionais.
    Mas me parece, com conversas com outros artistas, que um órgão assim não existe.
    este assunto poderia ser discutido mais!…

  10. Posted 12 de maio de 2009 at 10:24 | Permalink

    - Edde, obrigado pelo comentário. A maioria das editoras implantou um sistema ditatorial em relação aos seus preços e contratos. Mas há outras que lidam mais profissionalmente e respeitosamente com seus fornecedores. Vou postar sobre isto ainda hoje. O que nos resta é aceitar ou não estas imposições. No dia em que a editora tomar 20 “nãos” seguidos, ela terá que rever seus conceitos e atualizar PARA CIMA as suas tabelas, coisa que não acontece há 20 anos.

    Quanto as entidades, desencana. Elas nunca se dispuseram a lutar pelos associados, eles funcionam mais como um clube, um grupo de amigos, e não vão salvar a pele de ninguém na hora do incêndio.

    Eu acredito mesmo é no indivíduo, cada um fazendo o seu melhor, e você não precisa do aval de uma entidade para ser um bom profissional. Eu imagino o quanto isto deve ser frustrante, mas você não é o único, pode ter certeza disto.

  11. Posted 12 de maio de 2009 at 10:36 | Permalink

    - Walter Junior, nem todo cliente está se lixando, isto acontece muito com o mercado editorial, porque há uma avalanche de malucos desesperados para publicar a qualquer custo, e o excesso de oferta faz baixar os preços a quase zero.

    Nos resta procurar os clientes que exigem mais qualidade e especialização, oferecer qualidade e cumprir os prazos, mas principalmente não negociar com as calças na mão, catando os cavacos que eles os piores clientes oferecem.

    Para maus clientes só há uma coisa certa a fazer: dizer “não”.

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