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Papo de músico II – montando Modos Gregorianos com dominós

ZONA DE SPOILER:
Eu sei que neste post haverão 2 tipos de leitores: os que tem algum interesse por estudos musicais, e os que vão achar tudo isto um tremendo papo de louco.
Aos segundos, minhas desculpas, logo mais a gente volta a falar de desenho, ok?

As escalas são um passo inevitável para qualquer estudante de música, e a prática depende de memorização de cada uma delas, seus formatos e intervalos.

Decorar os 7 modos gregorianos, mais a harmônica e melódica menores, escalas exóticas, etc, pode se tornar um pesadelo se não houver alguma lógica ou coerência nas sequências das notas. Alguns professores explicam as diferenças entre uma e outra com base nos graus, umas tem terça menor, outras tem trítono, etc, mas ainda assim não facilita muito as coisas.

Certa vez eu encontrei na web um arquivo em TXT, entre tablaturas de guitarra e outros estudos, que esclareceu todas estas dúvidas para mim, e quem sabe pode ajudar de alguma forma os leitores da Sketcheria que estudam música.

O princípio é muito simples: os Modos Gregorianos são sequências de 8 notas com intervalos diferentes em cada um deles. Os tetracordes são a mesma coisa, só que com 4 notas.

O mais interessante é que os 4 primeiros tetracordes formam a primeira metade dos Modos Gregorianos Jônico, Dórico, Frígio e Lídio, e as combinações destes, aos pares, formam os 7 modos de maneira muito mais lógica e coerente do que a tediosa tarefa de decorar todas as notas em lugares diferentes.

E tudo se resume a tons inteiros e semi-tons, representados neste diagrama por letras “x”, ao lado ou em cima umas das outras.

Para criar uma memória visual para cada um destes modos e ensinar um pouco de música para meu filho, eu usei a mesma ideia das letras “x” usando pedras de dominó, acrescentando uma tônica (a pedra numerada do dominó) para iniciar a sequência com 4 notas.

Nestes exemplos eu estou partindo de Fá, que forma uma clara visualização no teclado para se entender o conceito, depois é aplicar em outras regiões, nas 12 notas. Depois de fritar uns neurônios e repetir bastante os movimentos, chega uma hora que fica intuitivo, você cria a memória muscular necessária para tocar o tetracorde em qualquer região.

Quando estes 4 tetracordes estiverem memorizados e treinados, a combinação em pares vai formar os Modos Gregorianos. Sem terror, sem maratonas de memorização.

Repare que os 3 primeiros padrões se repetem, separados por um intervalo de um tom inteiro entre a primeira e a segunda metade, por isto os pontos na pedra do dominó são iguais: 1-1, 2-2, 3-3 .

O quarto modo, o Lídio, é extendido, um folgadão que ocupa um espaço a mais, e por isto a segunda metade dele, o modo Jônico, tem que ser colado num intervalo de apenas um semitom entre as duas metades. Os números da pedra inicial indicam que o Lídio é formado pelo 4º e pelo 1º modos.

O Lócrio é a combinação do 3º e 4º modos, o Frígio e o Lídio, aquele cara espaçoso, e para caber tudo em 8 notas colamos as duas metades novamente com um intervalo de um semitom.

Desta forma fica mais fácil compor as duas metades mudando as pedras de lugar como referência, e pensando apenas nos intervalos durante os estudos, não em todas as notas de cada escala.

Compreender e nomear os intervalos me pareceu o grande truque para praticar os Modos Gregorianos. Se os modos me fossem apresentados simplesmente como 4 células fundamentais, e não como um bicho de 7 cabeças diferentes, os estudos certamente não seriam tão intimidadores.

No caso do piano, o bicho tem 7 cabeças vezes 12, entre uma oitava e outra, porque cada nota inicial da escala vai criar desenhos únicos e complexos na sequência das teclas. Com apenas 4 tetracordes em mente, basta olhar para o teclado e enxergar dois deles a partir de uma determinada nota, sem se preocupar com o desenho da escala, que surge naturalmente.

Só pra completar o conceito, o 5º tetracorde, chamado de Cigano ou Gipsy, tem um intervalo de 3 semitons no meio (indicado pela pedra inclinada), que soa claramente como música árabe, e forma a segunda metade da escala Harmônica Menor.

A escala Melódica Menor tem um charme especial, ela sobe com um formato e desce com outro.

No próximo post a gente vai dar um passeio pelo Círculo das Quintas, uma espécie de bússola super marombada para se localizar no plano musical.

Papo de músico I – Causos de um músico frustrado

Faz tempo que eu não posto aqui na Sketcheria, tenho colaborado em outros dois blogs – SketchJazz e Notan – então vou mandar um off-topic, na verdade uma série deles, sobre música.

Como todo adolescente, eu também já quis ter uma banda de rock um dia, mas entre vários amigos pilhados, só eu entrei numa escola de música e levei a brincadeira adiante.

A minha surpresa foi encontrar um professor que tocava muito melhor que a maioria dos meus ídolos da época, e acabou abrindo a minha cabeça para outros estilos musicais a golpes de guitarra, ao melhor estilo El Kabong!

O Aldo nunca foi um cara bonzinho, muita gente tinha medo dele até, mas eu curtia a metodologia dele, suas estórias bizarras com um lado místico, enfim, eu aprendi muito com ele, em uma época de formação de personalidade, e acho que absorvi um pouco do tempero dele na minha maneira de resolver certos problemas. O meu lado Mr. Hyde, ou Montalvo-online, tem muito sotaque do Aldo, principalmente quando o modo “puto” está ON.

Foram dois anos de muito estudo, descobertas, entusiasmo e frustração. Reconheci que eu nunca seria músico, não tinha jeito pra coisa mesmo, e o melhor que eu poderia fazer era ser um bom ouvinte.

Mas eu sempre gostei da teoria musical, dos exercícios e da lógica por trás daquela linguagem, era um quebra-cabeça de gente grande, terrivelmente difícil pra mim, mas era exatamente por isto que me fascinava.

Passados 20 anos sem chegar perto de uma guitarra, eu acabei comprando um piano em um daqueles “Família Vende Tudo”, por uma pechincha. E me motivei a voltar a estudar música, aos poucos, no meu tempo, e mesmo tendo perdido a maioria do material de estudo daqueles anos, não foi difícil recuperar os assuntos na internet. O que eu não esperava, e foi um choque mesmo, era a quantidade imensa de conteúdo, websites, fóruns, softwares e literatura especializada.

Tem gente que chega pra mim e diz que não consegue desenhar nem uma casinha. Pois é, eu sou assim com a música, mas eu continuo tocando meus garranchos, teimosamente. Sorte dos vizinhos que eu não comprei um saxofone.

Comecei a recuperar e colecionar todo o material que eu eventualmente poderia estudar, e cataloguei por assunto: Modos Gregorianos, Acordes, Círculo das Quintas, Leitura e Escrita, Harmonização, etc. É muita coisa pra uma vida só, eu jamais vou conseguir consumir tudo o que eu adquiri em tão pouco tempo, mas vou comendo pelas bordas, transcrevendo para o piano o que eu consigo fazer.

Eu sou ilustrador, penso visualmente, e isto é uma muleta bem pesada para quem quer estudar música, eu não entendo os conceitos se não tiver uma lógica visual para eu me apoiar.

Como aprender escalas, visualmente? Aquele papo de “tom, tom, semitom, tom, tom, tom, semitom” era fácil, mas aquela era só a primeira coisa a ser aprendida, escala maior, modo Jônico, beleza… Mas haviam outros 6 modos, depois tinha harmônica menor, melódica menor, escala cigana, hindustam, paquistanesa e o caramba a quatro, pra fazer em 12 tons cada uma! E cada nota tem uma atribuição tonal: Tônica, Super-tônica, Mediante, Dominante, Sub-dominante, Aaaah!

Na guitarra até que ia, era decorar o desenho das notas e transpor pra frente e para baixo, dava pra encarar. Mesmo sem entender lhufas do que eu estava fazendo e com uma dificuldade enorme em achar as notas no meio do braço pra frente, eu conseguia cumprir com os exercícios.

Mas aí entra o piano na estória, e nas teclas haviam boas e más notícias. Todas as escalas, intervalos, acordes e principalmente as notas eram reconhecíveis logo de cara, claras como o dia, que beleeeeza! Mas isto tinha um custo alto, não adiantava mudar o desenho das escalas pra frente e pra trás, cada nota tem um formato diferente para a mesma escala, e o mesmo acontece para os acordes, ou seja, o problema que beirava o insuperável ficou 12 vezes mais complexo!

Parecia uma insanidade, nenhum ser humano normal consegue decorar tudo aquilo vezes 12! Tava na cara que um pianista tem que ser um maldito gênio pra conseguir se virar naquele universo em branco e preto… deu vontade de vender o piano, juro.

Mas eu sou teimoso, e um dia tropecei em um fórum muito interessante, de Jazz, com PDFs, tablaturas, midis, e muito material legal.

Ali eu encontrei uma chave que destrancaria as portas que me pareciam intransponíveis: Os Tetracordes (oooooohhh – musiquinha de anjos). É claro! todos os Modos Gregorianos tem 8 notas, os tetracordes tem 4, e todo aquele enigma dos infernos se resume a umas poucas combinações de tetracordes! O lance não é decorar as escalas inteiras em 12 tons diferentes, e sim entender como se encaixam os 4 padrões principais de intervalos. É igual montar uma ponte com lego!

Entendi, caramba! 20 anos depois, mas entendi! Por quê ninguém me falou isto antes, pô!

Se tudo ficou lógico, claro e quase óbvio para mim, que sou um jumento musical, tenho certeza que para os amigos mais inteligentes, que estudam música e tem algum talento ou aptidão para a coisa, vai parecer ridículo.

Grande coisa, eu descobri que as peças quadradas entram nos buracos quadrados, e as cilíndricas entram nos buracos redondos… dããã.

Mas para os seres humanos normais e limitados como eu, vai ser um passeio divertido, estudar os Modos Gregorianos com peças de dominó e o Círculo das Quintas usando um relógio de ponteiros.

Assunto para os próximos dois posts na Sketcheria.