Soube deste concurso ontem, a última coisa antes de dormir. Me fez mal.
Tive um pesadelo incessante, que estava escrevendo este post.
Espero acordar um dia e olhar para um mundo mais honesto, livre de parasitas e hospedeiros neste mercado minguado e agonizante que é a ilustração editorial no Brasil.
Espero ver ilustradores trabalhando e ganhando sua vida, sustentando família e prosperando, realizando seu trabalho, sua especialização, seu ofício.
Prosperando como o advogado e escritor premiadíssimo Rubem Fonseca, que deve ganhar uma porcentagem decente de cada um dos muitos livros que publicou.
Ao contrário dos ilustradores, ele desempenhou várias atividades profissionais, remuneradas, é claro, antes de se dedicar integralmente à literatura.
Na hora do aperto, ele sempre poderia recorrer a advocacia para fechar as contas do mês, mas nós não temos este privilégio.
Nós somos ilustradores em tempo integral. Vivemos disto. Desde o início da carreira pagamos nossas contas com este ofício.
Se houvessem mais que 24 horas no dia, estaríamos dedicando ainda mais tempo ao nosso aperfeiçoamento técnico e execução de nossos trabalhos. Nada de empregos paralelos, nada de bicos ou academicismos extra-curriculares. Apenas ilustração, hora após hora, dia após dia, por décadas.
A Editora Agir (Ediouro), fez uma grande contribuição para comprometer a sobrevivência dos ilustradores, cavando uma imensa cova rasa, onde os candidatos a futuros ex-ilustradores poderão se jogar, enviando suas imagens para se candidatar a trabalho mal remunerado como premiação.
Dispararam o concurso “A cara do Mandrake” contra os artistas.
O sr. Rubem Fonseca recentemente se interessou pelo mundo dos quadrinhos, mas não parece se importar muito com o ronco na barriga de quem realiza os desenhos da “nona arte”. Deve achar que desenhar quadrinhos é coisa de moleque, e pensando no mercado nacional, ele não estaria de todo enganado.
É um mercado árido, um terreno morto, onde se plantando nada dá. Pouquíssimos artistas adultos se sustentam no mercado de quadrinhos, e mesmo assim não sobreviveriam sem atividades paralelas (ilustração publicitária, design, animação, etc).
Muitos artistas bancam projetos do próprio bolso, a fundo perdido, mesmo sabendo que poderão perder dinheiro com isto.
Mas e editora ganha. Se não ganhasse, não investiria seus tostões nos sonhos dos seus parceiros, ninguém é bonzinho quando se trata de TRABALHO.
Mas tudo pode piorar.
Agora as editoras, que obviamente tem o lucro como única meta, descobriram o filão de ouro que é a VAIDADE que infecta e devora os cérebros dos jovens artistas, e perceberam que não precisam mais pagar profissionais especializados para obter seus intentos.
Se há quem faça de graça, porque gastar dinheiro com artistas que investiram suas vidas na carreira?
Morram de fome, danem-se todos. Basta fazer um concurso qualquer e chovem trabalhos às centenas, é só escolher um e pagar com qualquer porcaria que eles aceitam tudo, assinam tudo, e nunca reclamam, muito pelo contrário, se auto-flagelam com um grande sorriso estampado na cara.
Tem editora que paga cartunistas com um pinguim de geladeira, tem outras que pagam quadrinistas com encalhes autografados, e ainda outras pagam seus artistas com absolutamente nada, oferecendo a publicação como vitrine, saldando a dívida com meras promessas de fama.
E o pior é que esta balela cola! Nego trabalha em troca de quinquilharias ou “fama”.
Ilustração é trabalho! Tanto quanto é trabalho a obra do escritor, do revisor, do editor, dos técnicos, gráficos, distribuidores, vendedores, estoquistas, vendedores e estagiários.
Toda a indústria trabalha por dinheiro. Por que motivos os profissionais de ilustração deveriam ser tratados de forma diferente?
Porque são otários, iludidos e amadores. E agindo assim, jamais se tornarão profissionais.
Teriam muito melhor futuro vendendo pipoca. Aliás teriam muito o que aprender sobre custo/benefício, investimento/lucratividade, contabilidade, finanças, depreciação de equipamentos e principalmente valor por horas trabalhadas, exercendo a profissão de empresário do ramo de pipocas.
Até estagiário ganha em dinheiro, porque diabos um ilustrador deveria executar o CONTEÚDO ESSENCIAL da obra, 100% da autoria visual da publicação, sustentando TODA a cadeia produtiva nas próprias costas, sem ganhar um centavo por isto?
É uma concorrência especulativa sórdida, onde centenas de jovens iludidos e adultos fracassados dedicarão suas horas de trabalho, seu talento e esforço, fazendo o que os outros não conseguem nem sonhar em fazer, enquanto apenas um miserável ganhará um contrato como pagamento. Nem um centavo adiantado, nem um trofeuzinho, nem uma medalhinha de latão, nada. Em compensação, terá um prazo fixo para entregar as artes.
Trabalho especializado, uma habilidade para poucos, uma Arte que leva anos para se lapidar, que toma muitas horas para se executar.
Nada disto importa, a editora quer saber é do lucro, e não da sustentabilidade da profissão dos outros.
Como se o artista não tivesse contas para pagar.
Ela repassa 3% da venda, mas não investe um puto de um centavo na obra ou no esforço do artista.
E ficam com os originais de TODOS os inscritos, não devolverão nenhum.
Além dos originais, deterão os direitos de exibição de TODOS os inscritos, não apenas dos vencedores.
Se você tem dúvidas, ligue para o SAC da editora, mas cuidado, nem isto é gratuito, eles cobram pelo serviço. Não querem pagar seus colaboradores, mas cobram deles se houver alguma dúvida.
O mercado editorial, que paga cada vez menos aos seus colaboradores, fornecedores de conteúdo, descobriu que não precisa mais pagar nada para ter uma fila e idiotas babando por uma “oportunidade” de ver seu trabalho publicado.
O mercado de estamparia já explora este filão há tempos, pagando seus escravos voluntários com “visibilidade”, mas faturando gordas somas em moeda corrente com suas vendas.
É que eles não trabalham por amor, como os idiotas que vivem de brisa e ilusão.
A todos empresários muquiranas e sua horda de trabalhadores braçais gratuitos, a minha sincera homenagem:
(arte de Fernando Mosca e Leandro Substance, disponível sob licença Creative Commons, em diversos formatos gráficos no site Old Black Gallery)








