Monthly Archives: novembro 2009

O pesadelo dos concursos furados nunca acaba

Soube deste concurso ontem, a última coisa antes de dormir. Me fez mal.

Tive um pesadelo incessante, que estava escrevendo este post.

Espero acordar um dia e olhar para um mundo mais honesto, livre de parasitas e hospedeiros neste mercado minguado e agonizante que é a ilustração editorial no Brasil.

Espero ver ilustradores trabalhando e ganhando sua vida, sustentando família e prosperando, realizando seu trabalho, sua especialização, seu ofício.

Prosperando como o advogado e escritor premiadíssimo Rubem Fonseca, que deve ganhar uma porcentagem decente de cada um dos muitos livros que publicou.

Ao contrário dos ilustradores, ele desempenhou várias atividades profissionais, remuneradas, é claro, antes de se dedicar integralmente à literatura.

Na hora do aperto, ele sempre poderia recorrer a advocacia para fechar as contas do mês, mas nós não temos este privilégio.

Nós somos ilustradores em tempo integral. Vivemos disto. Desde o início da carreira pagamos nossas contas com este ofício.

Se houvessem mais que 24 horas no dia, estaríamos dedicando ainda mais tempo ao nosso aperfeiçoamento técnico e execução de nossos trabalhos. Nada de empregos paralelos, nada de bicos ou academicismos extra-curriculares. Apenas ilustração, hora após hora, dia após dia, por décadas.

A Editora Agir (Ediouro), fez uma grande contribuição para comprometer a sobrevivência dos ilustradores, cavando uma imensa cova rasa, onde os candidatos a futuros ex-ilustradores poderão se jogar, enviando suas imagens para se candidatar a trabalho mal remunerado como premiação.

Dispararam o concurso “A cara do Mandrake” contra os artistas.

O sr. Rubem Fonseca recentemente se interessou pelo mundo dos quadrinhos, mas não parece se importar muito com o ronco na barriga de quem realiza os desenhos da “nona arte”. Deve achar que desenhar quadrinhos é coisa de moleque, e pensando no mercado nacional, ele não estaria de todo enganado.

É um mercado árido, um terreno morto, onde se plantando nada dá. Pouquíssimos artistas adultos se sustentam no mercado de quadrinhos, e mesmo assim não sobreviveriam sem atividades paralelas (ilustração publicitária, design, animação, etc).

Muitos artistas bancam projetos do próprio bolso, a fundo perdido, mesmo sabendo que poderão perder dinheiro com isto.

Mas e editora ganha. Se não ganhasse, não investiria seus tostões nos sonhos dos seus parceiros, ninguém é bonzinho quando se trata de TRABALHO.

Mas tudo pode piorar.

Agora as editoras, que obviamente tem o lucro como única meta, descobriram o filão de ouro que é a VAIDADE que infecta e devora os cérebros dos jovens artistas, e perceberam que não precisam mais pagar profissionais especializados para obter seus intentos.

Se há quem faça de graça, porque gastar dinheiro com artistas que investiram suas vidas na carreira?

Morram de fome, danem-se todos. Basta fazer um concurso qualquer e chovem trabalhos às centenas, é só escolher um e pagar com qualquer porcaria que eles aceitam tudo, assinam tudo, e nunca reclamam, muito pelo contrário, se auto-flagelam com um grande sorriso estampado na cara.

Tem editora que paga cartunistas com um pinguim de geladeira, tem outras que pagam quadrinistas com encalhes autografados, e ainda outras pagam seus artistas com absolutamente nada, oferecendo a publicação como vitrine, saldando a dívida com meras promessas de fama.

E o pior é que esta balela cola! Nego trabalha em troca de quinquilharias ou “fama”.

Ilustração é trabalho! Tanto quanto é trabalho a obra do escritor, do revisor, do editor, dos técnicos, gráficos, distribuidores, vendedores, estoquistas, vendedores e estagiários.

Toda a indústria trabalha por dinheiro. Por que motivos os profissionais de ilustração deveriam ser tratados de forma diferente?

Porque são otários, iludidos e amadores. E agindo assim, jamais se tornarão profissionais.

Teriam muito melhor futuro vendendo pipoca. Aliás teriam muito o que aprender sobre custo/benefício, investimento/lucratividade, contabilidade, finanças, depreciação de equipamentos e principalmente valor por horas trabalhadas, exercendo a profissão de empresário do ramo de pipocas.

Até estagiário ganha em dinheiro, porque diabos um ilustrador deveria executar o CONTEÚDO ESSENCIAL da obra, 100% da autoria visual da publicação, sustentando TODA a cadeia produtiva nas próprias costas, sem ganhar um centavo por isto?

É uma concorrência especulativa sórdida, onde centenas de jovens iludidos e adultos fracassados dedicarão suas horas de trabalho, seu talento e esforço, fazendo o que os outros não conseguem nem sonhar em fazer, enquanto apenas um miserável ganhará um contrato como pagamento. Nem um centavo adiantado, nem um trofeuzinho, nem uma medalhinha de latão, nada. Em compensação, terá um prazo fixo para entregar as artes.

Trabalho especializado, uma habilidade para poucos, uma Arte que leva anos para se lapidar, que toma muitas horas para se executar.

Nada disto importa, a editora quer saber é do lucro, e não da sustentabilidade da profissão dos outros.

Como se o artista não tivesse contas para pagar.

Ela repassa 3% da venda, mas não investe um puto de um centavo na obra ou no esforço do artista.

E ficam com os originais de TODOS os inscritos, não devolverão nenhum.

Além dos originais, deterão os direitos de exibição de TODOS os inscritos, não apenas dos vencedores.

Se você tem dúvidas, ligue para o SAC da editora, mas cuidado, nem isto é gratuito, eles cobram pelo serviço. Não querem pagar seus colaboradores, mas cobram deles se houver alguma dúvida.

O mercado editorial, que paga cada vez menos aos seus colaboradores, fornecedores de conteúdo, descobriu que não precisa mais pagar nada para ter uma fila e idiotas babando por uma “oportunidade” de ver seu trabalho publicado.

O mercado de estamparia já explora este filão há tempos, pagando seus escravos voluntários com “visibilidade”, mas faturando gordas somas em moeda corrente com suas vendas.

É que eles não trabalham por amor, como os idiotas que vivem de brisa e ilusão.

A todos empresários muquiranas e sua horda de trabalhadores braçais gratuitos, a minha sincera homenagem:

(arte de Fernando Mosca e Leandro Substance, disponível sob licença Creative Commons, em diversos formatos gráficos no site Old Black Gallery)

O Bistecão é pop!

O nosso querido Bistecão Ilustrado, o encontro que todo ilustrador adora (ou deseja) frequentar, está na telinha! Recebemos Renata Simões e a equipe do programa Urbano no encontro de outubro, e no domingo passado tivemos a honra e o orgulho de assistir a reportagem no conforto do lar.

Tenho certeza que muito caba macho verteu sua lagriminha. Eu não, é claro.

Mas você acredita que me caiu um cisco no olho, outravez, bem no finalzinho? nada demais.

O Bistecão é pop, quem diria!

Tivemos uma reportagem de página inteira no Caderno 2 em Dezembro de 2008, dois videos na DRC-TV e outro da TV Trip, e agora estamos na TV a cabo, Urbano, Multishow!

Não duvido muito que daqui há pouco todos saberão (além dos nossos clientes, é claro) quem são e o que fazem os ilustradores.

A difícil tarefa de ensinar o funcionamento da roda

Todos temos bons e maus clientes.

Há clientes excelentes, que solicitam, orçam*, negociam, eventualmente solicitam alterações coerentes, aprovam, e pagam.

Na verdade só deveriam existir clientes assim, afinal este é o processo correto, e qualquer desvio desta sequência é uma anomalia.

Mas da mesma forma que a decolagem e pouso seguro de milhões de aeronaves por dia não são noticiadas, os cases de sucesso entre clientes e fornecedores também não são comentados.

Um dia vou convidar alguns colegas e juntos faremos um workshop só de cases de sucesso, mas neste post vou falar dos clientes encrenca. Manja aqueles que tentam colar um adesivo escrito “idiota” na sua testa?

Todo mundo já teve (ou terá) clientes malandros, com propostas absurdas, ridículas ou simplesmente impraticáveis.

E todo mundo já ficou (ou vai ficar) com cara de interrogação, questionando se topa ou se chuta estas propostas.

Alguns designers prestaram um grandioso serviço aos seus colegas, ao criarem videos instrucionais, didáticos, quase pediátricos, para ensinar os clientes como não fazer feio na frente de seus fornecedores.

Os videos não são novidade alguma, na verdade já estão na web há um bom tempo, mas achei interessante e necessário compilar todos em um mesmo post.

Tudo com bom humor, amigavelmente, espirituosamente, mas o recado está lá, e estou certo que muita gente vai se lembrar de fatos reais, de ambos os lados do balcão.

A relação cliente / fornecedor no mundo real

Microsoft designs de iPod Package

A criação de uma placa de PARE

Quem precisa de designers? Use o creme “aumente meu logo”

Mas para não ser apenas um resmungão chato e antipático, quero compartilhar o video de Phillipe Starck, onde ele dá uma nova visão sobre o ofício de design, indo muito além do mundo corporativo.

Clique em VIEW SUBTITLES, e escolha as legendas em português, poupando-se do esforço de entender o inglês carregado de sotaque francês de Philippe Starck, em sua genial apresentação no TED Talks.

Agradeço aos colegas Erick Pasqua, Victor Marcelo e Wilson Matsumoto pelo link direto em português.

(*) Orçar, entre os bons clientes, significa: “Quanto custa?”. No jargão dos maus clientes costuma ser: “Para este trabalho eu posso pagar X”.

Boralá desenhar no Museu do Ipiranga!

Chegamos a mais um Sketchcrawl, o 5º organizado formalmente no Brasil, desde que nos reunimos em janeiro deste ano.

Estivemos na Vila Madalena, Parque do Ibirapuera, Centro da cidade, Jardim Botânico, e agora será no Museu do Ipiranga.

No sábado da próxima semana, dia 21 de novembro, os sketchcrawlers do mundo inteiro comemoram o 5º ano do evento em sua 25ª edição mundial, e desta vez os desenhistas de São Paulo se encontrarão na frente do prédio principal do Museu do Ipiranga, como indicado na foto, a partir das 10:00hs.

O pessoal da DRC vai levar uma equipe de filmagem para registar o evento, e distribuirá 50 camisetas do Bistecão Ilustrado para a galera, gratuitamente. Aos que já tem suas camisetas do Bistecão, pedimos que venham com ela, porque é a nossa contribuição na parceria que temos com o DRC, que tem promovido ativamente a excelência no desenho e nas artes gráficas, não somente em aula, mas nos encontros de ilustradores também.

No encontro de janeiro provavelmente teremos a Renata Simões e a equipe do programa Urbano filmando o Sketchcrawl, para apresentar o encontro no Multishow.

ATENÇÃO: NÃO ESQUEÇA DE TRAZER UM QUILO DE ALIMENTOS NÃO PERECÍVEIS OU ARTIGOS DE HIGIENE. TODAS AS DOAÇÕES SERÃO ENCAMINHADAS PARA A CASA ASSISTENCIAL MARIA HELENA PAULINA, QUE DÁ AUXÍLIO A CRIANÇAS COM CÂNCER.

Na primeira edição brasileira foram 120 pessoas - recorde mundial deste evento.

Na segunda 154, novo recorde mundial.

Na terceira 32 bravos desenhistas enfrentaram chuva, vento e frio, mas compareceram em número expressivo, que eu pessoalmente acho que foi um novo recorde mundial em clima adverso.

Na quarta tivemos 16 participantes, foi muito divertido, quase um piquenique entre amigos.

Vamos ver desta vez, e no meu palpite pode dar mais um recorde mundial.

Não esqueça seu protetor solar, porque o caderninho e material nem precisa dizer, cada um leva o seu.

Lembrando que é um evento gratuito, criado para reunir amadores, novatos, estudantes e desenhófilos em geral, até mesmo os profissionais. Não é um concurso, não tem que desenhar bem, e nem precisa saber desenhar, basta gostar de desenho e pronto.

Boralá desenhar na rua e se divertir com os amigos!

Videos do Bistecão no DRC-TV

Além de serem grandes amigos e uma excelente escola de computação gráfica, o pessoal da DRC é o patrocinador e parceiro do Bistecão Ilustrado, viabilizando várias atividades, produtos e serviços, inclusive o sorteio mensal de um treinamento em cada Bistecão, as capas gravadas a laser dos Sketchbooks personalizados do Bistecão e as camisetas abistecadas.

No nosso encontro de outubro eles vieram com uma equipe profissional de filmagem (Paulo Aiello e Haroldo Sanches), o Loschiavo entrevistou vários colegas do Bistecão, inclusive este que vos escreve, e editaram dois videos com muita informação sobre ilustração, mercado, carreira e o encontro mensal de ilustradores em SP.

Se você ainda não conhece o Bistecão, esta é uma ótima oportunidade de saber o que está perdendo.

Se já conhece, vai reconhecer o clima de festa e de amizade fraterna que cerca de 80 pessoas criam mensalmente neste encontro.

Eventos de ilustração em Goiânia e Fortaleza

Estou indo para Goiânia hoje, a convite da UFG, para um evento chamado Fake Fake Ilustraciones.

O Fake Fake Ilustraciones é uma exposição coletiva de ilustradores criada por estudantes de Design Gráfico da Universidade Federal de Goiás (UFG) com o objetivo de trabalhar no limiar da arte e do design.

Eu vou apresentar a palestra “Ilustração como Linguagem”, e dar uma passada rápida nos temas que a gente sempre debate online e nos encontros de ilustradores: mercado, sketchbook, valorização profissional, etc.

Ainda em São Paulo, dei uma entrevista por telefone para o jornal local Diário da Manhã.

Por quê Fake Fake?

Veja a definição, segundo os organizadores do evento:

Trata-se do lado ilustrador: nem artistas, nem designers, e ao mesmo tempo, ambos. Não aceitamos limites de criação, consumimos e consumamos todas as influências possíveis, assim elevando o nível de nossa produção. Esse ano o FakeFake Aciones, com palestras e oficinas, foi criado com cunho de atingir mais do que uma exposição pode atingir.

Há dois meses houve o RDesign Sul em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, onde o Hiro, Renato AlarcãoRafo Castro, Renato Faccini, Daniel Moura, Fernando Reule, Gabriel Silveira,Tony de Marco, eu e outros 40 palestrantes apresentaram seus trabalhos, assuntos e oficinas em um evento que reuniu mais de 600 pessoas.

Tivemos também um workshop no formato “imersão total” em Maresias, com dois dias e meio de atividades ilustradas, e que deve voltar a acontecer depois do Carnaval.

Nesta semana o Renato Alarcão estará na 55ª Feira do Livro de Porto Alegre em uma mesa de debate sobre o livro “O que é qualidade em ilustração infantil”.

O pessoal de Brasília fez o Rabiscão, um encontro de ilustradores com blog, logotipo, camiseta e tudo mais.

E para confirmar a abertura de espaços e interesses pelo tema ilustração em outras regiões do Brasil, o Kako está indo para Fortaleza, no evento Baião Ilustrado, que é promovido pelo Coletivo Base, com apoio da OPA - Escola de Design, com patrocínio da Coca-Cola para viabilizar o evento.

Coisa fina, o Bistecão está virando franquia, e além de acontecer em diversos estados, agora já é muito mais que um encontro de amigos, tem palestra, oficina e patrocínio!

Que venham outros eventos, encontros, palestras, treinamentos, workshops e oficinas, de Norte a Sul do país.

Acredito que esta abertura demonstra que nosso mercado está em evolução, que o interesse pela ilustração é cada vez maior, e agora podemos quebrar o paradigma urbano-caipira no qual as coisas só acontecem no Rio e em São Paulo.

Dia 1º é dia de Ilustrar!

Fui convidado para participar da edição nº 13 da Revista Ilustrar, com meus sketchbooks, e estou mais do que bem acompanhado, olha só o time de feras: Tiago Hoisel, Bart Forbes, Spacca, Lula Palomanes, Brad Holland e Renato Alarcão.

Tiago Hoisel, um verdadeiro virtuoso da nova geração de ilustradores está na capa desta edição, e mostrou a que veio logo de cara, o cara é um fenômeno. Cada imagem melhor que a outra.

Bart Forbes. Meu herói há muitos e muitos anos, um artista genial que eu tive a honra de conhecer pessoalmente em 1998, na Illustration Academy. Uma pessoa adorável, com um talento imenso. Impossível não gostar deste simpático senhor, tanto quanto é impossível não gostar do Benício.

Que responsa ter meus desenhos logo após Mr. Forbes, e que orgulho.

O Spacca dispensa apresentações, é uma lenda-viva da ilustração brasileira, mostrando o making-of de Jubiabá, seu trabalho mais recente. Impressionante.

Lula Palomanes é a personalização da vanguarda, um artista gráfico genial, tanto na técnica como nos conceitos.

Fiz a tradução do texto do Brad Holland, e me deliciei com cada linha. Ele é um gênio, e tem tanto domínio nas palavras como tem nas tintas. Neste texto ele conta a trajetória da ilustração e de suas mudanças ao longo dos tempos, desde os anos dourados de Rockwell até os tempos atuais.

E o Renato Alarcão injeta adrenalina em seus colegas de profissão com um tema que interessa a todos: Projetos pessoais. E vem acompanhado de um time de feras, são mais 9 artistas consagrados contando suas experiências e incentivando a todos a desengavetar seus projetos e trazê-los ao mundo real.

Que legal ter uma revista deste nível, em português, realizada por um brasileiro.

Ricardo Antunes, como você consegue, homem?

Não tenho ideia, mas em primeiro lugar: parabéns pelo controle de qualidade, e por fazer a revista, na unha e na raça. Segundo: obrigado por me convidar, estou honrado por fazer parte deste time de feras que você conseguiu agregar, desde o primeiro exemplar.

Baixe gratuitamente este e todos os outros exemplares em www.revistailustrar.com