Monthly Archives: outubro 2009

Milton Glaser – A importância do desenho / Porque ensinar

Uma das muitas coisas fascinantes a respeito da ilustração é que o tempo é um aliado do artista, e não um inimigo dele. Quanto mais se trabalha, quanto mais se estuda, inevitavelmente seu trabalho se torna melhor, mais relevante e significativo.

E paradoxalmente, mais coisas há para se aprender ao longo dos anos.

É certo que existem jovens talentos surgindo a cada dia, mas também é inegável se deliciar com a experiência , a vivência e o traço de um senhor designer e ilustrador como Milton Glaser.

Permita a você mesmo 5 ou 10 minutos do seu tempo para assistir dois videos que sintetizam vários anos de experiência deste genial senhor.

Acredite, valem cada instante. Além de ser o designer que é, ele também é conhecido por gerar insights imediatos na vida e na carreira das pessoas.

(link)

Eu legendei estes dois videos para que os colegas do Brasil possam beber nesta fonte de vitalidade e inspiração que é o legendário Milton Glaser.

(link)

Certa vez li em um adesivo de para-choque: “As pessoas não envelhecem, elas ficam melhores”.

E Maresias, foi legal?

Só quem esteve lá sabe o quanto.

Legal é pouco, estou procurando adjetivos que traduzam o que os 25 colegas viveram, mas não tem. Foi uma experiência multimídia, multigastronômica, multipiada, multioescambauaquatro.

Começamos na sexta-feira, encontrando a Bruna Dipp (na conexão Santa Maria – aeroporto Salgado Filho (Porto Alegre) – aeroporto de Cumbica (SP) – terminal Tietê – Maresias, que duraram heróicas 16 horas) e o Leonardo Conceição no Terminal Tietê, tagarelando por 4 horas no caminho, e recebendo na Pousada Encanto das Pedras alguns amigos que chegaram mais cedo, como o Fernando Mosca e Débora.

Enquanto a Bruna se recuperava da longa viagem, fomos almoçar ao lado da pousada, em um restaurante temático (surf) especializado em hamburguer, sushi, sorvetes e saladas, que tem de quebra uma galeria do surf. Parece maluco mas é tudo coerente e o design e decoração mostram que os caras investem bem, atendem bem, e a comida é ótima.

Fomos tomar um chopp na beira da praia com o Leandro Martins, que chegou depois, e pizza para terminar a noite, enfim, uma festa gastronômica para começar bem o FDS.

Tive a honra de receber gente de centro-oeste a sul do país (Brasília, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, além da galera de Sampa). Que pessoal bacana, quanta gente boa, que privilégio juntar um pessoal com tantas afinidades.

Oito da noite, conforme combinado, nos juntamos na sala, ao redor da lareira que virou monitor, e esticamos até pouco além da meia-noite com videos, dicas e bate-papo, recebendo os colegas que chegaram à noite.

Tinha começado oficialmente o primeiro Praião Ilustrado.

A atividade noturna, video-tutoriais, era opcional, mas deu casa cheia, demonstrando que o pessoal estava com todo o gás para encarar a experiência de imersão total.

Na manhã seguinte a galera acordou cedo, tomamos um belo café da manhã e enchemos novamente a sala, para o treinamento de Notan, Sketchbook e Thumbnail “in a nutshell”. São oficinas de dois dias cada no estúdio em SP, mas passamos por todos os conceitos para poder alinhar o pessoal e falarmos a mesma língua.

Tivemos uma tarde dedicada à encadernação, pricipalmente o método das capas dos sketchbooks, usando camisetas e outros tecidos, com cola branca, gel acrílico e tinta a óleo com resinas para dar o efeito de envelhecido nos cadernos.

À noite estava fria, perfeita para sopinha, pães, e um agradável bate-papo entre amigos. Na mesa da esquerda estavam a Medi, o Afrânio e o Thomas, que nos acolheram como filhos em sua pousada.

Depois da sopa, pensamos em sair para um choppinho, mas ameaçou um toró. Ainda bem, porque decidimos ficar e desenhar até altas horas na sala. Um daqueles momentos tão gostosos que dava vontade de congelar no tempo, querendo que não acabasse nunca.

Mas ninguém poderia adivinhar que ficaria ainda melhor.

Duas e meia da matina, ninguém queria saber de dormir, apesar do cansaço insistir em fazer os olhos pesarem, e eu senti cheiro de bolinho de chuva no ar. Pensei estar alucinando, sonhando acordado, ou que talvez fosse na pousada vizinha, e perguntei aos colegas se eles também sentiam aquele cheirinho de infância, quando chega a Medi com uma bandeja repleta de strudels de uva passa, quentinhos, e foi servindo um por um dos desenhantes.

Strudel na madrugada.

Como descrever este momento?

Não dá, foi um carinho de mãe que a Medi fez para todos nós. Opa, peraê que entrou um cisco no meu olho… pronto, passou.

No domingo eu desenhei no sketchbook antes do café da manhã, na companhia dos amigos que também acordaram cedo, e rabiscamos inspirados pela beleza da pousada, colorida pelo sol da manhã. E de quebra ganhei um cordel-quadrinho maneiríssimo do Marlon Tenório.

A lareira ficou um tanto surreal com as imagens do screensaver do iMac.

À tarde foi rock and roll direto, técnicas mistas, canetas opacas, papéis diversos, monotipia, gravura com rolinho, stencil, linóleo com carimbo de borracha, e terminamos com oil wash, já quase sem luz, mas para minha surpresa todos estavam atentos, curiosos, com brilho nos olhos até o último instante.

Faltou tempo para a demonstração de pastel, a maioria do pessoal teve que pegar a estrada, e uns poucos puderam ficar até mais tarde.

Aí mais um momento mágico, a Luisa, que estava ansiosa por ver a técnica de pastel, me mostrou que ainda havia gás para mais uma demonstração, e nos reunimos novamente em torno da mesa, para baixar o santo do Gary Kelley, contando estórias e pintando com pastel, e lá estávamos nós, nos divertindo, ensinando e aprendendo mutuamente.

O desenho foi fluindo, sem qualquer planejamento, ao contrário do que eu costumo fazer e ensinar, e ficou bacana no final, talvez por ter sido feito com tanto prazer, na companhia dos amigos, sem stress, sem pressão, e ficou de presente para a Luisa, muito legitimamente. Afinal foi ela quem puxou a turma para uma demonstração que talvez nem acontecesse, por eu pensar que estariam todos cansados e saturados. Ledo engano, se o workshop durasse uma semana todos estariam no mesmo pique, todos os dias. E eu também.

No dia seguinte fui visitar o amigo e herói pessoal, Gonzalo Cárcamo, em seu novo lar, um pedaço do paraíso na Ilhabela. Fui para almoçar e estiquei por um dia inteiro, inesquecível, como todos os momentos na presença deste gigante da ilustração.

Realmente não poderia ser melhor.

Agora é esperar até o carnaval terminar, para chegar a baixa estação e planejar uma nova temporada de workshops em Maresias.

As fotos estão no Flickr da Sketcheria.