Monthly Archives: outubro 2009

Chega de reclamação, é hora de agir, comprar uma editora!

A partir do momento que a Editora Vilania Comics, em parceria com a empresa de telefonia Oi decide pagar conteúdo gráfico - capa e 3 páginas de quadrinhos - com encalhes de revistas autografadas, este produto passa a valer, como dinheiro, para qualquer tipo de escambo.

Para estas empresas os livros e revistas autografadas são moeda corrente, é com isto que eles pagam os vencedores dos concursos, exatamente como pinguins de geladeira são dinheiro vivo para os editores da Revista Piauí.

Sim, eles pagam fornecedores de conteúdo com um exemplar deste singelo enfeite de louça, sabia?

Você já viu quanto tá a cotação do pinguim de geladeira na BOVESPA hoje? Outro dia estava R$ 25,00. Muito melhor que o Euro, quase metade do preço do grama do ouro, um ótimo investimento.

Levando em conta todas estas alterações na corrência financeira do mercado de imagens, eu resolvi parar com a velha ladainha de denunciar, reclamar e partir direto para as cabeças.

Atitude, minha gente, tá faltando atitude, ação, fatos concretos.

EU VOU COMPRAR A EDITORA VILANIA COMICS.

Ao longo dos anos ganhei diversas artes originais, desenharam no meu sketchbook, fui a lançamentos, conheci grandes artistas, e com isto juntei livros, revistas e CDs autografados, vários deles com dedicatória, alguns até com desenhos.

Se a editora trata isto tudo como moeda de compra, então vale igualzinho dinheiro de verdade… eu não tenho pinguins, mas tenho livros e revistas a dar com o pau!

Estou rico! Milionário! Quaquilionário!

E a primeira coisa que vou fazer com parte desta fortuna é comprar a editora que paga conteúdo com livros autografados e filtra comentários contrários à sua filosofia no blog.

Vou comprar tudo, de porteira fechada, como dizem os fazendeiros.

A segunda coisa será mudar este nome dúbio para EDITORA DO BEM.

Usando esta fortuna em livros autografados para comprar a editora, vou poder pagar aos ilustradores 10 vezes mais que a Editora Abril, na EDITORA DO BEM os quadrinistas receberão 50 vezes mais do que eles costumam ganhar por aí (aos que trabalham de graça vou pagar 1000 vezes mais, hahaha).

Vou valorizar o artista nacional, promover exposições, criar uma entidade com sede própria, dois andares de galeria, uma sala imensa para workshops, oficinas e sessões de modelo vivo, contratar advogados fuderosos para defender os nossos direitos autorais, e mesmo que gaste metade dos meus livros autografados nesta empreitada, ainda vai sobrar um monte de originais, ou seja, eu sou o feliz proprietário de um vultoso patrimônio artístico-monetário.

Os meus sketchbooks não estão à venda nesta empreitada, estou guardando pra comprar a Cosac Naify.

O Robert Crumb comprou um castelo na França com alguns sketchbooks dele.

Eu jamais faria este tipo de exposição para me gabar, quem me conhece sabe que sou um cara sem vaidades, eu só quero comprar a Editora Vilania com a mesma moeda que eles usam para pagar os vencedores do concurso Oi Quadrinhos.

Se eles tem exemplares com artistas famosinhos e acham que isto vale dinheiro, tudo bem.

Eu também tenho.

George Pratt

Will Eisner

Mark English

Bart Forbes

Bart Forbes (originais)

Gary Kelley e Brent Watkinson

Renato Alarcão

Gonzalo Cárcamo

Gonzalo Cárcamo

Gonzalo Cárcamo

Daniel Kondo

Bill Mather

Orlando

Alcy

Eduardo Schaal / Ricardo Antunes

Hiro Kawahara / Leandro Robles

Tio Faso / Gustavo Rinaldi

Gil Tokio / Kako

Kako

Faifi / Zé Otávio

Sattu / Marcelo Matere

Bebel Abreu / André Valente

Samuel / Federico

Hiro / Zé Márcio Nicolosi

Eldes / Zuri

Al Stéfano / Leo Gibran

Cárcamo

Eduardo Schaal

Marcelo Gomes / Benício

Eduardo Schaal / Cariello

Fernanda Guedes

E pra arrematar todos os iPods, HDs externos, câmeras, gadgets e celulares, desde a tia do café até o dono da editora, estou pagando com 3 CDs autografados:

João Bosco, Jamil Joanes e Carlos Bala

Vanessa da Mata

Ricardo Silveira

Agora, cá pra nós, não conta pra ninguém porque é segredo: usando originais raros como moeda corrente, o Fábio Moraes e o Luiz Rosso poderiam comprar a Editora Abril e a Editora Globo à vista, em cash, no cacau.

Eles poderiam comprar a Oi inteira, se quisessem, e ainda sobraria uma quantidade imensa de originais.

O que estes dois colegas tem de artes originais, livros autografados e raridades daria para comprar metade do continente, se levarmos em conta a cotação oferecida pela Editora Vilania.

Boralá, gente, que agora é a nossa vez! Ilustração virou papel-moeda, está super valorizada!

Recolham seus livros autografados, artes originais e guardanapos do bistecão e vamos às compras!

Tá virando palhaçada (e que me desculpem os palhaços)

Que saco, eu jamais pensei em fazer um blog para virar um mero balcão de denúncias.

Desculpem-me os leitores ávidos por assuntos mais decentes, interessantes e agradáveis, mas estou fazendo um serviço sanitário aqui. Cuidado que vou jogar desinfetante no blog para disfarçar o cheiro que estes marketeiros de merda estão espalhando no nosso mercado.

Já estou perdendo a conta de quantas campanhas sórdidas, travestidas de “concursos culturais” já foram denunciadas na web.

Já vi algumas pagando logotipo de shopping center com webcam de 50 pilas, time de futebol pagando “mascote” com divulgação, Puma pagando blogueiros para fazer jabá disputando bonés e um par de tênis, empresa de telefonia pagando outdoor com celular, Microsoft pagando selo comemorativo de 20 anos com sobras de estoque, livraria e editora convocando novos talentos e oferecendo trabalho como prêmio, semana passada foi a vez da revista Piauí pagar tirinhas humorísticas com pinguim de geladeira, e a OI lançou um concurso de quadrinhos pagando com encalhes autografados.

Mas a semana do capeta ainda não tinha acabado: teve um blog promovendo a ideia de se fazer trabalho de graça, e a Converse AllStar (quem diria) fez um concurso pra pagar o design industrial da nova linha de tênis pagando o trabalho com um zero a menos: R$ 2.000,00 + uma dúzia de pares tênis, transformando o vencedor em um anúncio ambulante, um bobo-alegre gerando propaganda espontânea. Bela merda.

Um projeto destes vale pelo menos 20 mil reais, mas os marketeiros acharam uma mina de ouro: concursos picaretas e artistas iludidos. E nas linhas miúdas do regulamento, os inscritos cedem todos seus direitos, não apenas os vencedores.

O Ilustrador americano Gary Taxali mandou um sinal muito claro para os clientes picaretas, depois que Google e Swatch ofereceram “visibilidade” como pagamento.

Os colegas Leandro Substance e Fernando Mosca também estão fartos de tanta proposta sacana, premiação em tapinha nas costas e lero-lero. Esta é a imagem que eles disponibilizaram via Creative Commons, em diversos formatos, no blog Old Black Gallery:

Parece que os ilustradores não estão mais dispostos a receber pagamentos em elogios, tapinhas nas costas e o prazer de ver seus trabalhos publicados.

Estes foram os concursos e picaretagens mais recentes, houve trocentos outros, cada um mais escroto que o outro, e parece que este marketing de pinico está proliferando com seus protozoários em meio fétido.

Os marketeiros pensam que não precisam mais pagar dezenas de milhares de reais por imagens, logotipos, “mascotes” (que os profissionais costumam chamar de personagem), fotografias, ilustrações, etc.

Na mentalidade rasa destes incompetentes, basta jogar qualquer resto de qualquer porcaria na sarjeta, que dos esgotos surgirão os zumbis do design, da fotografia e do desenho, rastejando e se estapeando por um momento de fama.

E aparecem mesmo!

Tá virando palhaçada! Mas mesmo os palhaços são pagos pelo dono do circo para fazerem suas performances. Nem os palhaços mais sem graça aceitam bugingangas ou elogios como pagamento.

Na pirâmide moral da nossa sociedade, alguns designers, ilustradores, cartunistas, fotógrafos e escritores estão abaixo dos palhaços. Estes respeitáveis profissionais do humor trabalham por dinheiro e conquistaram com todos os méritos a Câmara Setorial do Circo, uma proeza que jamais conseguiremos.

É revoltante pensar que, em algum momento, elegantes senhores engravatados se reuniram em volta de uma mesa para elaborar um golpe de marketing, enfeitando o pavê de estricnina com bastante cobertura para que tenha uma aparência bem apetitosa, com o propósito de enganar a maior quantidade possível de idiotas, que se vendem pela vaidade de ganhar um tapinha nas costas e ver seu trabalho publicado.

Eis que o HSBC resolveu dar uma de esperto e jogar uma rede de arrasto no Flickr para ver quem cai nesta rede.

Com um contrato absolutamente draconiano, o banco oferece NADA, absolutamente NADA, em troca de imagens publicitárias:

18 - O participante atesta o caráter plenamente gratuito da citada licença, se comprometendo a não fazer qualquer reivindicação, cobrança, reclamação ou propondo qualquer tipo de demanda em face do HSBC, sob qualquer fundamento, objetivando o recebimento de valores, pagamentos, indenizações, prêmios, dação em pagamento, royalties e/ou qualquer tipo de verba, em relação as fotos enviadas para o Grupo.

Como se o pagamento em “muito obrigados” já não fosse suficientemente ofensivo, eles se outorgam o direito de “modificar, adaptar, sublicenciar ou criar trabalhos derivados” das imagens:

15 - Além disso, ao participar da ação e adicionar a foto ao Grupo, o participante concede ao HSBC, a título gratuito, uma licença mundial, exclusiva, irrevogável, sublicenciável e livre do pagamento de royalties, que é válida até o dia 31 de dezembro de 2010, para utilizar, copiar, modificar, traduzir e/ou adaptar, distribuir, executar em público, exibir em público e criar trabalhos derivados de sua foto, exclusivamente em relação à finalidade deste Grupo e da ação , por qualquer meio de veiculação e divulgação, especialmente através da exibição em outdoors, painéis gráficos ou assemelhados a serem veiculados pelo prazo previsto na licença.

A fotógrafa Paula Marina divulgou o logo postado no começo deste texto, criado por Andre Carvalho para combater esta proposta aviltante, e espero que ela se espalhe mais rápido do que a propaganda criada pelo banco. Vamos contar com a inteligência das pessoas e a agilidade da web 2.0 para denunciar esta campanha absurda, que visa enxugar dezenas de milhares de reais para pagar em “fama”, aos que se vendem por tão pouco.

Para os responsáveis (se é que se pode chamar assim) pela campanha gratuita que HSBC está promovendo nas costas dos fotógrafos, e aos inscritos neste fiasco, eu recomendo o video do Harlan Ellison, que pode falar em nome de todos criadores de conteúdo e propriedade intelectual.

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Atualização do post:

Em questão de horas o Flickr do HSBC que originou esta confusão foi bombardeado por dezenas de comentários furiosos, principalmente de fotógrafos que se sentiram aviltados pela proposta.

Em poucas horas de exposição da marca ao crivo dos profissionais, um porta-voz do HSBC se retratou e postou o seguinte texto:

Caros Ignacio, Louise e demais participantes,

Lemos a mensagem de vocês e de outras pessoas e entendemos o seu ponto de vista.

Aliás, esta é a proposta da campanha do HSBC: promover a opinião das pessoas sobre diferentes assuntos, através de fotos e vídeos de depoimentos. Acreditávamos que a publicação dessas opiniões em escala nacional seria uma forma de estimular a participação das pessoas. Mas reconhecemos que é preciso mais do que isso.

O pensamento do HSBC aqui e no mundo é justamente reconhecer e respeitar os valores das pessoas, inclusive o respeito ao direito autoral de fotógrafos profissionais e amadores.

Sendo assim, o HSBC vem publicamente informar que já tomamos as providências para reformular a ação, agora com um regulamento compatível com as expectativas da comunidade.

A partir de agora, manteremos a proposta inicial de selecionarmos oito (8) fotos que melhor representarão os temas discutidos e as vencedoras serão devidamente adquiridas pelo HSBC, caso as mesmas sejam utilizadas em campanhas do HSBC.

Já solicitamos a alteração do regulamento junto ao Yahoo! (Flickr) e isto deverá ocorrer em breve.

Agradecemos a manifestação de vocês e a atenção neste momento.

Coloco-me à disposição para esclarecer quaisquer dúvidas remanescentes.

Carlos Alves

Diretor de Marca e Digital do HSBC

Resta agora esperar e ver qual será a alteração feita no regulamento.

Quem me dera os ilustradores deste país fossem tão coesos e pró-ativos como os fotógrafos.

Mais um daqueles concursos

Eu nem deveria sujar o blog com um assunto destes, mas a afronta é muito descarada para aguentar calado.

A Revista Piauí, em um rompante de desrespeito e escárnio contra seus colaboradores resolveu fazer um “concurso”, entre aspas, muitas aspas.

Eles querem artes inéditas e que façam a redação rir. Estes são os critérios da banca julgadora.

Ao grande vencedor deste “concurso”, o merecido prêmio: um pinguim de geladeira.

É ridículo, ofensivo e insignificante mas é o prêmio oferecido pela revista.

Já não bastasse a mesquinharia do troféu, o vencedor terá que ir até a redação para buscar seu souvenir, a não ser que ele seja de outro estado que não SP ou RJ.

A situação em si já é constrangedora, mas os editores conseguiram fazer o assunto ficar revoltante, acenando com uma suposta “imortalidade piauiense” para uma também suposta “tribo cartunistas/chargistas/criadores de humor gráfico”, ao mesmo tempo que ameaça com humilhação e cuspidas na cara no caso da imagem ter sido publicada anteriormente, mesmo que seja em um mictório público (?!?).

Eles querem exclusividade total, sob a seguinte ameaça:

Atenção: será submetido a opróbrio, e talvez escarradas na fuça, quem enviar trabalhos já publicados - seja em livros, jornais, revistas, zamizdats, pichações, sites, propagandas, blogs, cartazes, grafites, facebooks, pôsteres, enciclopédias, dazibaos, orkuts, mictórios públicos, cartazes, cardápios, tatuagens, bulas, calendários, twitters, rettiwt (o meio de comunicação secreto da piauí) e todo ou qualquer meio de expressão existente ou que venha a ser inventado nos próximos  3 974 anos.

Confira neste link o que eles consideram um novo e eletrizante concurso, e neste link as regras.

Eu estou enviando uma tirinha para eles. Não que eu me importe em ganhar um pinguim de geladeira, que dá pra comprar online por R$ 25,00 mas tem coisas que não podem passar em branco.

Mas eu publiquei aqui no blog e linkei no Twitter! Será que eles vão cumprir com suas catarrentas ameaças?

Note que não se trata de um concurso para amadores ou novatos. Eles querem a participação de artistas bissextos (eventuais, mas não necessariamente iniciantes) ou consagrados.

Não é assim que um contratante se dirige aos seus contratados ou colaboradores.

Não é escondido atrás de um pretenso senso de humor que se pode tratar seus parceiros de trabalho como lixo.

Enquanto os editores enxergarem seus colaboradores como um bando de idiotas, e estes se prestarem a humilhação de disputar um pinguim de louça como prêmio por seu trabalho, sujeitos a opróbrio e escarradas na fuça, não será possível uma relação comercial dentro de uma margem mínima de respeito.

Eu tenho um misto de pena e desprezo pelos miseráveis que se prestam a este tipo de oferta, lambendo as solas dos sapatos dos editores para entrar para a “eternidade piauiense” como mendigos da profissão.

Eu tenho uma sugestão aos editores sobre a utilização do maldito pinguim, mas vou poupar os leitores do blog das minhas grosserias.

No entanto, como eles são bem humorados, espirituosos e gostam de falar o que pensam, acho que não vão levar a mal se eu enviar um desenho com um pequeno leitor da revista, não é?

Milton Glaser - A importância do desenho / Porque ensinar

Uma das muitas coisas fascinantes a respeito da ilustração é que o tempo é um aliado do artista, e não um inimigo dele. Quanto mais se trabalha, quanto mais se estuda, inevitavelmente seu trabalho se torna melhor, mais relevante e significativo.

E paradoxalmente, mais coisas há para se aprender ao longo dos anos.

É certo que existem jovens talentos surgindo a cada dia, mas também é inegável se deliciar com a experiência , a vivência e o traço de um senhor designer e ilustrador como Milton Glaser.

Permita a você mesmo 5 ou 10 minutos do seu tempo para assistir dois videos que sintetizam vários anos de experiência deste genial senhor.

Acredite, valem cada instante. Além de ser o designer que é, ele também é conhecido por gerar insights imediatos na vida e na carreira das pessoas.

(link)

Eu legendei estes dois videos para que os colegas do Brasil possam beber nesta fonte de vitalidade e inspiração que é o legendário Milton Glaser.

(link)

Certa vez li em um adesivo de para-choque: “As pessoas não envelhecem, elas ficam melhores”.

E Maresias, foi legal?

Só quem esteve lá sabe o quanto.

Legal é pouco, estou procurando adjetivos que traduzam o que os 25 colegas viveram, mas não tem. Foi uma experiência multimídia, multigastronômica, multipiada, multioescambauaquatro.

Começamos na sexta-feira, encontrando a Bruna Dipp (na conexão Santa Maria - aeroporto Salgado Filho (Porto Alegre) - aeroporto de Cumbica (SP) - terminal Tietê - Maresias, que duraram heróicas 16 horas) e o Leonardo Conceição no Terminal Tietê, tagarelando por 4 horas no caminho, e recebendo na Pousada Encanto das Pedras alguns amigos que chegaram mais cedo, como o Fernando Mosca e Débora.

Enquanto a Bruna se recuperava da longa viagem, fomos almoçar ao lado da pousada, em um restaurante temático (surf) especializado em hamburguer, sushi, sorvetes e saladas, que tem de quebra uma galeria do surf. Parece maluco mas é tudo coerente e o design e decoração mostram que os caras investem bem, atendem bem, e a comida é ótima.

Fomos tomar um chopp na beira da praia com o Leandro Martins, que chegou depois, e pizza para terminar a noite, enfim, uma festa gastronômica para começar bem o FDS.

Tive a honra de receber gente de centro-oeste a sul do país (Brasília, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, além da galera de Sampa). Que pessoal bacana, quanta gente boa, que privilégio juntar um pessoal com tantas afinidades.

Oito da noite, conforme combinado, nos juntamos na sala, ao redor da lareira que virou monitor, e esticamos até pouco além da meia-noite com videos, dicas e bate-papo, recebendo os colegas que chegaram à noite.

Tinha começado oficialmente o primeiro Praião Ilustrado.

A atividade noturna, video-tutoriais, era opcional, mas deu casa cheia, demonstrando que o pessoal estava com todo o gás para encarar a experiência de imersão total.

Na manhã seguinte a galera acordou cedo, tomamos um belo café da manhã e enchemos novamente a sala, para o treinamento de Notan, Sketchbook e Thumbnail “in a nutshell”. São oficinas de dois dias cada no estúdio em SP, mas passamos por todos os conceitos para poder alinhar o pessoal e falarmos a mesma língua.

Tivemos uma tarde dedicada à encadernação, pricipalmente o método das capas dos sketchbooks, usando camisetas e outros tecidos, com cola branca, gel acrílico e tinta a óleo com resinas para dar o efeito de envelhecido nos cadernos.

À noite estava fria, perfeita para sopinha, pães, e um agradável bate-papo entre amigos. Na mesa da esquerda estavam a Medi, o Afrânio e o Thomas, que nos acolheram como filhos em sua pousada.

Depois da sopa, pensamos em sair para um choppinho, mas ameaçou um toró. Ainda bem, porque decidimos ficar e desenhar até altas horas na sala. Um daqueles momentos tão gostosos que dava vontade de congelar no tempo, querendo que não acabasse nunca.

Mas ninguém poderia adivinhar que ficaria ainda melhor.

Duas e meia da matina, ninguém queria saber de dormir, apesar do cansaço insistir em fazer os olhos pesarem, e eu senti cheiro de bolinho de chuva no ar. Pensei estar alucinando, sonhando acordado, ou que talvez fosse na pousada vizinha, e perguntei aos colegas se eles também sentiam aquele cheirinho de infância, quando chega a Medi com uma bandeja repleta de strudels de uva passa, quentinhos, e foi servindo um por um dos desenhantes.

Strudel na madrugada.

Como descrever este momento?

Não dá, foi um carinho de mãe que a Medi fez para todos nós. Opa, peraê que entrou um cisco no meu olho… pronto, passou.

No domingo eu desenhei no sketchbook antes do café da manhã, na companhia dos amigos que também acordaram cedo, e rabiscamos inspirados pela beleza da pousada, colorida pelo sol da manhã. E de quebra ganhei um cordel-quadrinho maneiríssimo do Marlon Tenório.

A lareira ficou um tanto surreal com as imagens do screensaver do iMac.

À tarde foi rock and roll direto, técnicas mistas, canetas opacas, papéis diversos, monotipia, gravura com rolinho, stencil, linóleo com carimbo de borracha, e terminamos com oil wash, já quase sem luz, mas para minha surpresa todos estavam atentos, curiosos, com brilho nos olhos até o último instante.

Faltou tempo para a demonstração de pastel, a maioria do pessoal teve que pegar a estrada, e uns poucos puderam ficar até mais tarde.

Aí mais um momento mágico, a Luisa, que estava ansiosa por ver a técnica de pastel, me mostrou que ainda havia gás para mais uma demonstração, e nos reunimos novamente em torno da mesa, para baixar o santo do Gary Kelley, contando estórias e pintando com pastel, e lá estávamos nós, nos divertindo, ensinando e aprendendo mutuamente.

O desenho foi fluindo, sem qualquer planejamento, ao contrário do que eu costumo fazer e ensinar, e ficou bacana no final, talvez por ter sido feito com tanto prazer, na companhia dos amigos, sem stress, sem pressão, e ficou de presente para a Luisa, muito legitimamente. Afinal foi ela quem puxou a turma para uma demonstração que talvez nem acontecesse, por eu pensar que estariam todos cansados e saturados. Ledo engano, se o workshop durasse uma semana todos estariam no mesmo pique, todos os dias. E eu também.

No dia seguinte fui visitar o amigo e herói pessoal, Gonzalo Cárcamo, em seu novo lar, um pedaço do paraíso na Ilhabela. Fui para almoçar e estiquei por um dia inteiro, inesquecível, como todos os momentos na presença deste gigante da ilustração.

Realmente não poderia ser melhor.

Agora é esperar até o carnaval terminar, para chegar a baixa estação e planejar uma nova temporada de workshops em Maresias.

As fotos estão no Flickr da Sketcheria.

Meu primeiro Dr. Sketchy

Nesta quarta eu participei do 2º Dr. Sketchy São Paulo, na minha primeira experiência neste evento, e foi muito legal.

É uma proposta nova, bastante alternativa, e por isto não segue os padrões de desenho de modelo vivo que a gente está acostumado a ver.

O modelo da noite, Soul Dubs, era bastante pitoresco, altamente desenhável, muito gestual, dançava o tempo todo, e deve ter sido difícil para ele sustentar poses paradas, o cara tinha suingue nas veias e a trilha o convidava para dançar. Mesmo nas poses ele dava um certo malemoleio, um desafio a mais para quem estava desenhando, mas tudo bem.

No final eu admito que trapaceei no jogo. Desenhei todos os que estavam parados, enquanto o modelo apresentava seu incrível talento para dança, ao som de James Brown.

Eu acredito que os dois modelos do primeiro Dr. Sketchy estavam mais acostumados com a difícil tarefa de sustentar uma pose, afinal a Cris é uma das nossas modelos aqui nos workshops da Sketcheria, e ela congela nas poses, e o outro rapaz que dividiu o palco com ela naquela noite é um modelo vivo famoso entre os desenhistas.

O pessoal do El Tunel foi super atencioso, o clima era bem descontraído e o Eduardo S. Janiszewski recebeu a todos com muita atenção, conduzindo a festa com maestria. Pena que eu cheguei na metade e perdi um pouco da sessão de desenho. Quem sabe na próxima eles estendem para 3 ou 4 horas, seria perfeito.

Encontrei os colegas Arthur Porto e Thiago Pimentel (os únicos em foco nesta foto), que estavam no grupo de Maresias.

A hostess era uma pintura, e não deveria ser rascunhada no caderninho. Ela merecia uma tela a óleo.

A insistência no patrocínio também me pareceu um pouco além do razoável, mas como o evento está apenas começando, estou certo que eles vão aparar estas rebarbas e fazer um grande espetáculo, digno de entrar para o calendário cultural da cidade, que promete se repetir a cada 15 dias. Ueba!

Na hora que o Dr. Sketchy for mais conhecido vai ter fila na porta e neguinho se apinhando com o caderno na mão.

Eu vou chegar cedo nos próximos.