Monthly Archives: julho 2009

Sobre o concurso da Livraria da Vila - um meio-termo saudável

Caros todos,

O debate sobre o concurso promovido pela Livraria da Vila tomou grandes proporções, se alastrou pela web e gerou muitos, muitos comentários.

Seja em listas de discussão, blogs, twitter, etc, muito se discutiu sobre o assunto, e depois de escrever para todos os funcionários da empresa, eu recebi duas mensagens, uma do Sr. Samuel Seibel, proprietário da rede, e outra de seu filho Flávio, ambos explicando seus pontos de vista e questionando minha reação. Respondi aos dois, parágrafo por parágrafo, explicando meus motivos.

O assunto é extenso, controverso e as argumentações por e-mail careciam de uma conversa real, pessoal.

Um telefonema, um horário marcado, e uma reunião.

Fomos, eu e o Ricardo Antunes para o café da loja, no Shopping Cidade Jardim, conversar pessoalmente com o Sr. Samuel Seibel, e seus dois filhos, Flávio e Rafael.

Em um longo, construtivo e esclarecedor debate, cada um expôs seus pontos de vista, seus argumentos e suas conclusões. Avançamos em direção a um meio-termo saudável e recuamos em nossas posturas antagônicas, e o resultado foi bastante positivo: o Sr. Samuel Siebel já havia decidido cancelar o concurso antes mesmo da reunião, por reconhecer que haviam pontos falhos na elaboração do concurso, e demonstrou nobreza de caráter e personalidade ao convidar quem o havia criticado furiosamente (este que vos escreve) para um diálogo franco e aberto.

Ficou claro desde o primeiro momento que o problema se deu por falta de conhecimento do assunto, haviam erros na elaboração das regras do concurso, e não houve má índole ou interesses comerciais escusos.

Ficou claro também que não havia qualquer intenção de lucro no projeto, e por mais bem intencionado que fosse, a melhor alternativa seria o seu cancelamento.

Não foi fácil para qualquer um de nós, tínhamos algumas ideias contrárias, e aproveitamos a oportunidade para expor e defender cada uma delas e procuramos entender mutuamente onde estava o atrito.

Eles desconheciam totalmente a consequência danosa que o concurso causaria ao mercado de ilustração, e por mais absurdo que possa parecer, eles estavam aparentemente bem assessorados, contando com o apoio e a consultoria de duas profissionais deste mercado, associadas à SIB. Este fato é um mistério insondável para mim, até agora.

Como duas pessoas ligadas à SIB poderiam ser tão desconectadas da realidade, tão sem visão comercial, e sem noção das consequências deste projeto?

Elas poderiam ter evitado o desgaste logo no primeiro momento, se estivessem alinhadas com a proposta defendida pela entidade, há anos, que é a de elevar e promover a profissão.

Esclarecidos os dilemas de parte à parte, o concurso está cancelado, e se eventualmente for restabelecido no futuro, eu e o Ricardo nos dispomos a ajudar na formulação de outros termos e propostas mais adequados, para que ninguém saia prejudicado no final.

O meu protesto, em forma de ilustrações, não faz mais sentido, porque o combate se transformou em entendimento, cancelamento do concurso, reconhecimento do erro, e aprendizado mútuo.

Sem o propósito para o qual as imagens foram criadas, não tenho porquê mantê-las no ar, e mesmo sem haver esta solicitação, decidi retirar as ilustrações do post anterior.

Me parece justo e razoável baixar a postura de ataque, porque não há mais o que ou contra quem atacar.

Curiosamente, o final da reunião, que tinha todo o potencial para a discórdia, terminou em um abraço respeitoso.

Não tenho como negar que aprendi algumas coisas importantes com este episódio, além de reconhecer e admirar a coragem dos 3 empresários da Livraria da Vila em sua atitude de nos receber nesta tarde.

Não deve ter sido fácil ser respeitoso como eles foram, ainda que eu percebesse sinais de tensão sob a película de serenidade que os revestia.

Mais um concurso do mal

Caros,

Enquanto alguns tentam evitar que a profissão de ilustrador vá para o esgoto, outros enfiam a própria cabeça na privada e puxam a descarga.

O que dizer de um concurso pseudo-cultural para ilustradores, que oferece TRABALHO como prêmio?

O que dizer de muita discussão, e-mails e debates acalorados, que resultaram na Livraria da Vila cedendo à pressão e oferecendo o irrisório e risível valor de 1% sobre as vendas da publicação, a título de “melhoria” da proposta?

O que dizer de duas ilustradoras profissionais, associadas da SIB - Sociedade dos Ilustradores do Brasil - participando da banca julgadora, coniventes e favoráveis com este absurdo?

Eu tenho o que dizer a este respeito: Vou participar do concurso.

O tema é “conto de fadas”, e para concorrer ao patético prêmio o infeliz tem que enviar 3 imagens originais, diferentes entre si, sem qualquer garantia que as imagens vencedoras serão publicadas, ou que ao menos os originais sejam devolvidos, a não ser que o candidato pague pelo reenvio.

Ainda há outra restrição: Somente poderão participar do Concurso apenas aqueles que não possuírem um livro publicado com ISBN, ou seja, a Livraria da Vila quer caçar novos talentos, mas eles terão que ser “virgens”, no sentido profissional da palavra.

(O concurso foi cancelado e o erro na sua elaboração foi reconhecido pelos seus criadores. Desta forma, o propósito do meu protesto deixou de existir. As imagens foram retiradas deste blog, e sem a realização do concurso, não terão necessidade de ser enviadas)

Eu sei que uma imagem vale mais que mil palavras, mas como eu sou um prolixo incurável, eu também preciso delas para me comunicar.

Este é o texto que enviei para cada um dos executivos da Livraria da Vila, do presidente aos estagiários, através deste link, com todos seus e-mails.

Caros senhores,

Este concurso “cultural” tem a intenção clara de leiloar uma série de ilustrações pelo preço mais baixo possível.

Estes pseudo-concursos são uma estratégia de marketing da pior espécie. São concorrências profissionais travestidas de “oportunidade”, criadas com a única intenção de baratear custos internos, às custas da ilusão dos menos experientes.

Como cliente da rede, eu me sinto traído, porque eu não questiono os valores cobrados pela loja, eu frequento, consumo e gasto meu dinheiro com vocês, compro livros, presentes e refeições, minha esposa e meu filho sempre tivemos prazer em estar no ambiente das lojas.

Como micro-empresário, suponho que os negócios devam estar indo bem, porque do contrário vocês estariam fechando lojas, ao invés de inaugurar novos palácios da literatura nos bairros mais caros de São Paulo.

Como profissional de ilustração, me sinto desrespeitado, e sinto que vocês também não se dão ao respeito, considerando que qualquer amador seja capaz de ilustrar uma edição literária, mediante a isca insignificante de 1% dos lucros sobre as vendas, em um concurso leonino, draconiano, muito pior que o pior dos contratos.

Atenciosamente,

Montalvo Machado
ilustrador - SP


Tardo, mas não faio…

Com três semanas de atraso (a viagem não é desculpa, eu tinha conexão, baixei a revista, li as matérias de madrugada… AAAHHH! Mea culpa, mea culpa), venho por meio deste post sugerir o download gratuito e a leitura da melhor revista de ilustração do Brasil, a Revista Ilustrar, na sua 11ª edição.

Na capa, o trabalho vencedor do primeiro concurso da revista, que premiou Fernando Mosca com uma Tablet Wacom Intuos 4, zero bala.

A revista, em formato PDF, tem sido baixada cerca de 8000 vezes por exemplar, em mais de 60 países do mundo.

Clique aqui, baixe seu exemplar e seja o 8001º leitor da Ilustrar nº 11.

Pensando bem, aproveite para completar sua coleção, é de graça! E cada exemplar é mais legal que o outro, só tem fera, e vários deles dedicaram uma imagem aos leitores da revista.

Confira!

Diário de bordo - Illustration Academy - Mestres na platéia, ou a inversão da ordem natural das coisas.

Eu quase apaguei este post depois de escrito, para não parecer vaidoso ou fresco, mas estou seguro de estar partilhando um momento bacana, com visitantes que considero amigos, então não preciso de pudores ou falsa-modéstia para contar o que vivi em um dia muito especial da minha carreira.

Durante as 4 semanas que passei na IA em Sarasota, na Flórida, tive a sensação de ter sido exposto à radiação intensa, pela quantidade imensa de informação e transformação que todos passam neste treinamento.

E de tanta radiação na cachola, pela terceira vez na Academia, eu me tornei radiativo também, e tive a oportunidade de apresentar minha caixinha de urânio, plutônio e césio 137 para a galera.

Foram 3 palestras em uma hora e meia: Sketchbook, Notan e Ilustração como Linguagem, sintetizadas em “Visual Perception”.

Eram quase 50 pessoas na sala, os alunos do curso e ilustradores como Mark English, John English, Jon Foster, George Pratt e Brent Watkinson.

Minha apresentação aparece editada aos 0:55 segundos deste video, uma coletânea da 7ª semana da IA.

Ter vários de seus mestres na platéia ao mesmo tempo, dá uma sensação esquisita de inversão da ordem natural das coisas, uma obrigação de mostrar alguma coisa, ou pelo menos um ponto de vista que eles nunca tenham visto, e é uma responsa das grandes.

A sala enche em questão de segundos.

Muito foco, concentração no talo, hora de começar…

Uma saudável ansiedade acompanhada de frio na barriga, um prazo curto a ser cumprido, uma platéia com várias noites viradas, texto projetado em português mas pensado e falado em inglês… caramba, eu tinha todo o cenário e a pressão necessária para gaguejar, travar ou pelo menos tremer, mas tudo correu de uma maneira natural e fluida como se eu tivesse ensaiado uma vida inteira para estar ali. Talvez eu tenha mesmo.

Era o momento mais alto da minha carreira, e tudo correu perfeitamente, no tempo, com a atenção do pessoal, tensão e humor na medida ideal.

O slide do Conde Drácula na tela, Mark English - o autor da imagem - na primeira fila, e meu coração na boca.

Foi um dos momentos mais incríveis da minha vida profissional. Eu descrevo o processo criativo de um ilustrador saindo do lugar comum, buscando alternativas insólitas para os problemas gráficos, e o enigma de como fazer este personagem ser reconhecível, mesmo com os olhos e a boca fechada.

Sigo contando como eu vi Mark English executando esta imagem em seu estúdio em Kansas.

E ele ali, atento, ouvindo a própria estória, o protagonista e tema da minha explanação… a sensação é indescritível.

Também é difícil explicar como me senti ao receber os cumprimentos dos mestres ao final, os comentários informais deles, assim como de outros estudantes sobre o conteúdo da apresentação nos dias seguintes. Eles realmente gostaram do material, e eu tive a certeza que mostrei algo de novo e interessante para eles.

Em outro momento da palestra eu mostro várias imagens de pinturas rupestres, como esta da Caverna de Lascaux, e eu sigo dizendo que esta é uma imagem didática, é certamente uma ilustração de uma aula de sobrevivência, e como seria fácil imaginar um homem das cavernas, um caçador experiente mostrando os perigos envolvidos na difícil tarefa de preparar o jantar, cercado de jovens aprendizes, etc, etc.

Ao final da apresentação o Mark se levanta, me estende a mão, e brinca comigo lembrando do comentário que fiz neste slide, e que rendeu umas boas gargalhadas do pessoal: “Montalvo, adorei a parte em que você disse: assegure-se que a comida esteja morta antes de comê-la”.

Momentos que ficarão tatuados para sempre na minha memória.

Diário de bordo - Illustration Academy - Hora de ir pra casa

Sexta foi o último dia da IA 2009, em uma semana curta, intensa e inesquecível, que terminou no Sports Page, em uma festa que poderia tranquilamente ser chamada de “hamburgão ilustrado”, com sketchbooks espalhados pelas mesas, mais de 50 amigos desenhando, comendo, bebendo e se divertindo, só que em inglês.

Faltou o Kako fazendo o sorteio da meia-noite, mas a festa foi muito legal, e as fotos estão no meu Flickr, confira!

Coloquei em prática uma ideia que eu tinha desde 1998, colecionar as autógrafos dos meus heróis em uma bola de baseball, uma tradição no esporte daqui, que seria o equivalente a fazer o mesmo em uma camiseta da seleção brasileira, são hábitos locais de cada país. Nesta bola estão os nomes de Mark English, John English, George Pratt, Brent Watkinson, Doug Chayka, Sterling Hundley e Natalie Ascencios.

Pena que só consegui comprar a bola depois que outros feras como Gary Kelley, Chris Payne, Robert Meganck, Jon Foster, Barron Storey, Ted Kinsella, Robin Eley, Andrea Wicklund, Francis Livingstson e Anita Kunz já tinham partido de volta para casa. Vou aguardar outra oportunidade.

Eu optei por realizar os projetos da semana, ao invés de mergulhar nos sketchbooks como eu havia planejado, primeiro porque os projetos eram extremamente interessantes, e segundo porque seria impensável recusar um job proposto por Mark English.

Nesta última ilustração, com o tema “poster de viagem”, eu segui uma linha um pouco diferente do que eu normalmente faria, para aproveitar o que a IA oferece de mais interessante, que é sair da zona de conforto e fazer algo além, descobrindo novos caminhos, técnicas e soluções.

Eu quebrei um pouco a geometria, perspectiva e a forma das construções, e no meio do trabalho o Mark English me deu orientações simples e brilhante: achate as formas e reduza os tons ao mínimo, evite o detalhamento excessivo. O resultado foi realmente diferente do meu método habitual, e eu volto para casa com um conceito totalmente novo na minha maneira de pensar as imagens, apontando para as novas possibilidades dos meus trabalhos futuros.

Este é o espírito da IA: transformação. É realmente uma experiência incrível, e novos insights acontecem ao voltar aqui.

A cada retorno os conceitos são interpretados com novas camadas de significado, e disparam novas sinapses, novas maneiras de interpretar e realizar imagens, é difícil de explicar, mas é assim que acontece com todos os estudantes que voltam a frequentar a academia.

Hoje foi um dia mais introspectivo, é hora de pensar, absorver e interiorizar esta quantidade imensa de informações.

No final do dia restavam 3 últimos estudantes ainda hospedados em dormitórios do campus: (Sarah, do Kuwait, Leah do Canadá e eu) e tivemos a rara oportunidade de ir jantar e pegar um cinema com George Pratt. E lá fomos nós, em um grupo totalmente internacional, assistir “Hangover”, uma comédia sensacional, de chorar de rir.

Amanhã é dia de pegar o avião e voltar para casa, com as palavras do Brent Watkinson em mente: “Go out in the real world, and do something worthwhile”.

Vá para o mundo real, e faça algo que valha a pena.

Diário de bordo - Illustration Academy - ART is undead

Ontem tivemos a demonstração da ilustradora Andrea Wicklund, que provou que não é o domínio do software que faz a carreira de um ilustrador, e sim o que ele é como artista.

Ela é uma desenhista compulsiva, pintando desde criança em papéis espalhados pela casa por sua mãe, para tentar salvar as paredes, porque se não tivesse papel qualquer outra superfície branca imediatamente seria promovida à “suporte artiístico” para a pequena Andrea.

Ex-estudante da Illustration Academy há 5 e 6 anos (uma curiosidade: a maioria dos ilustradores fizeram a Academia uma segunda vez, em anos consecutivos, mas isto é assunto para um futuro post), ela é jovem, bonita, e gosta mesmo é das tintas. O mundo das artes digitais é uma realidade um tanto nova para ela, mas ela desmantelou o paradigma da excelência técnica ontem, em sua demonstração.

Ela sabia onde chegar com a imagem, como chegar e matou a pau.

Esta foto, tirada no escuro da sala de projeção, não retrata nem de perto a qualidade da imagem original, mas o conceito é claro:

ART is undead.

Aliás, este é um assunto recorrente aqui. A ilustração morreu? Está morrendo? Vai morrer?

Mark English disse que este papo de “ilustração morreu” começou nos anos 60, e vem se repetindo, sem confirmação do falecimento até hoje.

Há 15 anos a Illustration Academy é uma entidade viva, pulsante, energética, com dezenas de alunos e dezenas de artistas do mais alto calibre, reunidos por 7 semanas, 7 dias por semana, de 12 a 18 horas por dia, dependendo da dedicação dos estudantes.

Muitos destes alunos, como Robin Eley, Edward Kinsella, Doug Chayka, John Hendrix, Jim Burke, Ernesto Nemesio, Kevin Chen, Scott Henderson, Alexander Klingspor, entre tantos outros, se tornaram muito bem sucedidos nacional e internacionalmente, e um deles, Sterling Hundley, é hoje um dos mais solicitados e reconhecidos ilustradores dos Estados Unidos.

Ele se tornou uma lenda entre artistas jovens e veteranos, e aos 30 poucos anos já recebeu 3 premiações na Society of Illustrators e tem seu nome entalhado no Hall da Fama da ilustração, ele já faz parte da História.

Nada mal para uma profissão que está no leito de morte muito antes de eu nascer, e olha que eu já passei dos 40.

A dona Ilustração, por incrível que pareça, me parece bem bonita e saudável do meu ponto de vista.

Uma coroa muito gostosa, me atrevo a dizer.

Esta respeitável senhora ainda vai nos trazer muitas alegrias, e certamente vai continuar nos servindo, generosamente, o pão nosso de cada dia por muitos anos.

Sabadão é dia de Sketchcrawl, a maratona mundial de desenho!

Ê beleza, de 3 em 3 meses tem Sketchcrawl!

Sábado, dia 11 de Julho pessoas em todas as partes do mundo se mandam pras ruas e desenham, sozinhas ou em grupo, participando deste evento criado por Enrico Casarosa, artista de storyboards da Pixar.

Não há regras, inscrição, taxa, pré-requisitos, experiência anterior, frescura ou nhénhénhé.

Caderninho na mão, lápis na outra, e toca desenhar pra se divertir, não pra ficar bonito.

Em São Paulo o pessoal vai se reunir na rua Avanhandava, esquina com a rua Augusta, às 10:00 da manhã, e seguir um roteiro, mudando de lugar a cada duas horas, aproximadamente.

Confira o GoogleMaps deste trajeto aqui.

Aqui em Sarasota o pessoal não se empolgou muito, a maioria nunca ouviu falar do evento, mas eu vou. Sozinho ou acompanhado eu vou desenhar o dia inteiro, depois eu posto as imagens aqui, no Flickr e no Forum internacional.

São Paulo arrisca bater novamente o recorde mundial, então vai lá e divirta-se com o pessoal e faça parte deste recorde!

Eu fico por aqui, participando à distância.

Diário de bordo - Illustration Academy - um estado de espírito, um estado de consciência

Nesta semana tivemos 3 ex-estudantes da IA fazendo suas palestras como (excelentes) profissionais convidados: Edward Kinsella, Andrea Wicklund e Robin Eley, e resumindo uma longa estória, foi muito impressionante. Eu, como eles, tive uma transformação profunda, definitiva e extremamente importante na minha carreira e na minha vida depois de frequentar a IA em 97 e 98, e a empatia com a trajetória destes artistas foi imediata.

E novamente estou experimentando transformações que vão mudar os rumos da minha vida profissional.

Ontem, durante a palestra do australiano Robin, eu aprendi muita coisa, e ele também atravessou continentes para estar aqui. Não é uma experiência fácil para ninguém, cada um tem sua realidade, suas dificuldades, sua vida, e romper com tudo isto é caro, financeiramente, afetivamente e psicologicamente, mas tudo depende em quanta energia cada um realmente quer investir em seus sonhos, seus objetivos de vida.

É caro? bastante. Custa um pedaço da sua vida.

Tem gente que chega aqui e não aguenta a pressão, e desaba, tem que voltar pra casa, outros sofrem de outras maneiras, e todos gastaram o que tem e o que não tem para estar aqui.

Eu não tinha dinheiro para tomar um ônibus quando soube da IA, mas coloquei um objetivo na minha frente, e nada podia me deter. Nada.

Ralei, virei noite, trabalhei feito um alucinado, contei as horas durante um ano inteiro, e finalmente eu estava no avião a caminho de Kansas. Eu arrisquei meu casamento por 3 vezes para estar aqui, e compreendo que a Mônica tenha sentimentos totalmente diferentes dos meus a este respeito, mas também sei valorizar o quanto ela me apoiou em cada uma destas viagens.

É muito difícil, pesado e emocionalmente desgastante, mas é parte do custo embutido no investimento pessoal em um projeto tão grande. O que se gasta aqui não é só a grana, e proporcionalmente, a conquista também não se conta apenas em moeda corrente, o resultado está muito acima disto.

Olhando para trás, este estado de obsessão cega é o que me garantiu alcançar um objetivo acima das minhas possibilidades, e esta é a mola propulsora de muitas conquistas na minha vida. O quanto eu realmente quero alguma coisa, quanto estou disposto a fazer pelos meus objetivos, até onde posso chegar para realizar um sonho?

Neste ano eu caminhei em brasas, durante um treinamento quase ritualístico em Itu, e dois anos atrás neste mesmo lugar eu tive outra mudança profunda, ao passar 3 dias no Leader Training.

Mergulhei em alguns sentimentos de cabeça e aprendi a lidar com algumas coisas poderosas que carregamos por dentro, sem saber exatamente como e o que fazer com elas.

Medo, confiança x insegurança, foco, tensão x relaxamento, foco, serenidade x fúria, foco, uma meta distante + uma certeza inabalável, e foco.

Eu aprendi a tomar controle sobre alguns aspectos destes sentimentos, e isto fez novamente, muita diferença na minha vida.

Uma das coisas que eu aprendi nestes dois momentos foi lidar com o poder pessoal que a gente carrega sem ter muita consciência do que isto significa. É uma energia criadora que pode ser focada para realizar coisas que parecem impossíveis, e a gente tropeça nesta energia quando quer alguma coisa obsessivamente.

Todas minhas maiores conquistas aconteceram neste estado de consciência, e hoje escrevo esta mensagem escancarando muita coisa que talvez não faça sentido para os outros, ou pode parecer meio piegas, mas é sincero até o osso.

Um novo objetivo que vou levar daqui é a produtividade, esta coisa mágica que admiramos nos nossos heróis, quando os chamamos de “máquinas de desenhar”, e muito foco, coisa que aprendi com o Tadashi Kadomoto, a quem gosto de me referir carinhosamente como “Mestre Xamã”, no Leader Training.

A combinação destes dois treinamentos, o LT mais a IA, me deram uma sensação de poder e a certeza que vou realizar tanta coisa, que é difícil descrever, mas também nem adiantaria, o futuro não é agora, tenho que fazer ele acontecer, custe o que custar, eu quero que ele se realize.

E quero obsessivamente.

Que estado mental curioso, seria preso se eu tivesse tomado alguma substância, mas é tudo uma questão de foco, saber onde quero chegar, e o quando estou disposto a queimar minha energia pessoal para chegar lá.

Diário de Bordo - Illustration Academy - 5 segundos, outra pose

Espero não cansar os visitantes do blog postando sempre sobre o mesmo tema neste mês, mas estou muito focado e vivendo um momento muito intenso aqui em Sarasota, e me resta muito pouco tempo ou assunto para postar sobre outras coisas.

Retornando os tópicos dos posts para casa em duas semanas os tópicos e os off-topics voltam ao normal, ok?

Ontem tivemos desenho de modelo vivo sob a batuta do maestro George Pratt, e conforme prometido, ele nos apresentou um formato totalmente novo sobre este tipo de exercício. Poses de 5 segundos por 15 minutos, depois 10 segundos, e finalmente longas poses de 20 segundos.

Longas porque depois de fritar os miolos com poses implacáveis de 5 segundos, o seu ritmo interior acha 20 segundos uma eternidade.

Antes de tudo ele nos explicou o conceito, e como ficou chocado e incomodado a primeira vez que viu estudantes medindo as proporções da modelo esticando o braço e usando o lápis como “régua”. Aquele processo tomava muito tempo, e nada de efetivo ou orgânico acontecia na execução da imagem.

Ele criou este método, que ajuda a ver o conjunto da cena, ou da modelo neste caso, e acelerar a comunicação entre olhos, cérebro e mãos, criando imagens intuitivas, gestuais e extremamente expressivas.

Tá bom, as minhas pareciam aliens derretendo como lesmas no sal, mas o desenho em si tem muito pouca importância neste processo, porque o foco não é criar imagens bonitas, mas entrar em um estado mental de percepção visual e reação motora, é quase um mantra corporal.

Duas horas intensas, onde torramos papel como se não houvesse amanhã.  Eu acabei com metade de um bloco zerinho, de 150 folhas, e muitas destas folhas foram desenhadas na frente e no verso, algumas com 2 ou três desenhos.

No final outros formatos de desbloqueio de coordenação como desenhar com as duas mãos ao mesmo tempo e posicionar o bloco contra o peito e desenhar em uma posição totalmente diferente, usando os colegas como modelos entre um descanso e outro da modelo também nos ajudou a criar novas sinapses.

O negócio aqui é intenso, e a palavra “academia” nos pareceu ainda mais adequada do que antes.

Diário de bordo - Illustration Academy - arte final

Finalizei hoje a imagem das sereias, e amanhã tem a avaliação coletiva.

Uma coisa que ajudou tremendamente foram dois estudos preliminares, um de tom e outro de cores. Cada um não tomou mais que 15 ou 20 minutos, e resolveram todas as questões que eu tive durante a finalização.

Como os instrutores disseram, estudos como estes economizam tempo a facilitam o processo, ao contrário do que pode parecer a primeira vista.

Vários colegas estão trabalhando em suas artes, alguns terminaram, outros vão rachar a noite… este é o espírito da Academia, o treinamento é fundamentado em realização, não tem desculpas, tem que entregar no prazo.

Nas próximas duas semanas eu vou cair matando em desenho, que é um ponto que eu preciso melhorar muito. Quem sabe desenhar alucinadamente, 12 horas por dia, por duas semanas, pode me ajudar a soltar a mão.

Diário de bordo - Illustration Academy - gravuras de George Pratt

Mais uma semana de atividades de estúdio aqui em Sarasota, cada um realizando seu projeto sobre o tema “conversa”.

Este é o estúdio 1, onde os estudantes se instalaram na primeira semana do treinamento, e a esta altura cada um já tem seus trabalhos pendurados em suas baias, criando seu próprio ambiente. É muito interessante passear entre as mesas e ver o que cada um anda fazendo, conversar sobre as técnicas, e aprender com este convívio.

Estou instalado no estúdio 3, bem mais vazio, talvez menos divertido, mas bem mais tranquilo para manter o foco e  finalizar a imagem de duas sereias peruassas, aposentadas, papeando na praia.

Nesta fase eu usei acrílica sobre o desenho, marcado com grafite e lápis Prismacolor sobre illustration board, e apliquei uma camada de aquarela, que estou removendo com pincel molhado onde quero que apareçam as luzes.

A técnica prossegue com oil-wash, um banho de tinta a óleo diluída, onde novamente vou remover as luzes, com uma borracha macia.

Depois desta fase vem lápis Prismacolor e acrílica novamente. Vou tentar terminar a imagem hoje, e cair de cabeça nos sketchbooks a partir de domingo.

Ontem à noite tivemos George Pratt fazendo uma demonstração incrível com gravuras em seu próprio equipamento.

Mais um daqueles momentos que parece irreal de tão impressionante que é ver um gênio em ação. O cara é uma máquina de desenhar.

A imagem final, absurdamente bela, feita em pouco mais de 20 minutos.

Mais uma imagem, usando outra técnica de gravação.

Mais fotos desta demonstração e das atividades de estúdio no Flickr da Sketcheria.

Diário de bordo - Illustration Academy - projeto da semana

Um post rapidinho, com o projeto desta semana: conversa. Um tema bastante aberto, e rico em possibilidades.

Este é o sketchbook que uso para minhas anotações e estudos preliminares dos trabalhos propostos pelo curso, que é fundamentado em execução, a aplicação prática das técnicas demonstradas pelos instrutores.

Eu estou seguindo uma linha claramente influenciada pela leitura do livro Gramática da Fantasia, de Gianni Rodari, entusiasticamente recomendado pelo amigo Hiro Kawahara.

A princípio o tema se resolveria com uma mera conversa, mas por quê não criar uma situação nova, insólita, como duas sereias conversando na praia, trazendo figuras mitológicas para o cotidiano?

E indo um pouco além, por quê não mostrar as sereias em uma idade também insólita, como senhoras aposentadas, peruas bregas, emperequetadas de brincos e pulseiras, e com uma coleção de pneuzinhos na cintura?

“E se…” é a melhor pergunta a se fazer na hora de criar alguma imagem.

Gianni Rodari rules! Hiro Kawahara rocks!

Seguindo a linha do paradoxo, situando figuras mitológicas no contexto urbano, como seria um investigador do FBI, um “centauro de preto”, mostrando sua identificação para um minotauro suspeito?

Estes rascunhos foram feitos seguindo as dicas simples mais incrivelmente eficientes de dois monstros da ilustração: Gary Kelley e Chris Payne, que usam papel vegetal e lápis para resolver todas as questões de design, composição e contraste nesta etapa, antes de passar para a prancha final.

Dicas preciosas, que aumentam a produtividade e facilitam a execução final.

No decorrer da semana vou postar fotos dos estúdios em que estamos instalados, e a evolução destes trabalhos, até a finalização.