Monthly Archives: fevereiro 2009

Dia de virar criança.

Hoje meu hardware humano fez o upgrade para a versão 4.3, com direito a fogos de artifício no bolo de chocolate, no café da manhã.

O software continua o mesmo, o MyBrain, com alguns bugs novos a cada upgrade.

A Mônica, com seu talento único para dar presentes, pediu ajuda à “criança interior” dela na hora de escolher meu presente, e acertou em cheio na minha “criança interior”.

Um livro de Star Wars, edição de colecionador, com mil traquitanas, cartas, convites, transfers (lembra disto?), celulóides de animação e itens de explodir a cabeça de qualquer nerd que cresceu (ou não) assistindo a trilogia.

Uma réplica da carta-convite para a pré-estreia do filme, com data de maio de 1977. Se eu tivesse ganho uma destas há 32 anos, adoraria estar naquela fila.

Tá certo, eu não sei ler partituras, mas é legal pra caramba ver os rabisquinhos a lápis, para cada um dos instrumentos da trilha original do filme.

Um dos artistas de storyboard, no bagaço total, fez da sua realidade pessoal uma piadinha, e foi para a antologia de Star Wars, quem diria.

Concepts de fazer adulto chorar. Ainda bem que hoje sou criança, e só tenho motivos para rir.

Já imaginou ir em uma agência de correios e topar com uma série especial de selos comemorativos de Star Wars, ilustrados por Drew Struzan, ao preço de um cheeseburger? Caraca, como são rabudos esses americanos.

Neste rancho Bill Moyers entrevistou Joseph Campbell, na gravação histórica de O Poder do Mito, que assisti na TV Cultura em 1993, sem piscar (e talvez sem respirar, não me lembro bem). Há pouco tempo comprei o DVD, e encontrei novamente todas as respostas para todas as perguntas sobre a humanidade.

Neste mesmo lugar Rodolfo Damaggio se reuniu com George Lucas, para fazer parte da equipe de concept designers e storyboard artists do Episódio II de Star Wars. Ele tinha me cantado a bola uns 15 anos antes, quando o conheci em um estúdio pequeno, em Nova Iorque: “Um dia eu vou trabalhar com o George Lucas”, ele disse.

E foi mesmo.

Chega de concursos picaretas! A guerra-santa começou.

Eu sempre procuro preservar o bom astral da Sketcheria postando temas amenos, divertidos e interessantes.

Mas vou corromper as amenidades desta vez, porque o assunto é de amargar até os mais doces lábios de mel:

Os Concursos de Design.

Contra eles, só nos resta fazer duas coisas: reclamar vigorosamente e orar fervorosamente, não necessariamente nesta ordem.

Para orar, as nossas duas Tábuas da Salvação: o Pai Nosso do ilustrador e os 10 Mandamentos do ilustrador:

Repasso aqui uma CARTA DE DESAGRAVO que recebi em uma lista de designers, a ser enviada aos responsáveis pelo concurso, assessoria de imprensa, cartas do leitor de jornais, emissoras de rádio, listas, blogs, agências, clientes, amigos e inimigos, e sugiro que outros façam o mesmo.

Para sobrevivermos com um mínimo de dignidade, estamos travando uma guerra-santa contra empresários muquiranas e marqueteiros metidos a espertos.

Estes discípulos de $ão Cifrão, sob ordem direta do Capeta, criam campanhas publicitárias e concorrências criativas travestidas, emplumadas, adornadas com lantejoulas e paetês, e batizam estas drag-queens a serviço de Belzebú com o título de “concurso”.

Vade retro, Satanás!

Marqueteiros dos infernos, Gerentes das profundas, Empresários das trevas, tirem as mãos deste bolso que não te pertence!

Tem mais um concurso destes rodando pela web, distribuindo um briefing de gente grande, temático, cheio de normas e regras, mas jogam as cartas na mesa: não tem cachê. Eles pagam 500 pilas como “ajuda de custo”, mas prometem fama e divulgação como pagamento. O nome dos 10 artistas em 15.000 unidades do folhetinho, blablabla, aquela lorota que todo profissional já conhece.

Seria mais fácil (e financeiramente muito mais seguro para eles) investir os míseros 5 mil reais no Bingo, se estes ainda existissem. Melhor ainda seria apostar esta graninha na loteca, no jogo do bicho, ou na comercialização clandestina de Viagra.

Mas não, eles querem ver filas de designers se descabelando, rasgando a fantasia, ateando fogo às vestes, em pleno Carnaval, tentando ser um entre 10 agraciados com o beijo da morte, recebedores de preciosos 500 pilas por um trabalho que valeria pelo menos 20 vezes isto.

Nem vamos falar de licenciamento de uso das imagens, senão eu viro os olhos, giro a cabeça 7 vezes pro mesmo lado e vomito verde na roupa do padre, igualzinho a menina do filme O Exorcista.

O website NoSpec tem uma proposta muito séria de ajudar a esclarecer os vícios de mercado, principalmente o trabalho especulativo (no risco), inclusive o concursismo, este câncer mercadológico que infesta o nosso cotidiano.

Cá pra nós, eu acho que reclamar dá mais resultado do que orar.

Quem sabe reclamando rolam as cabeças dos Marqueteiros do Capeta, principalmente a escória de chifrudos que procuram enxugar os custos de publicidade iludindo novatos e pagando com tapinha nas costas.

É off-topic, mas é bom

Outro dia tropecei em um tutorial de Painter muito legal, mas a trilha sonora roubou a cena.

No final, os créditos do músico: Antoine Dufour.

Vale a pena ver e ouvir o que este jovem alienígena faz com um violão. Se tiver um tempinho, veja os outros videos dele no YouTube, e faça seu dia ficar com cara de sonho.

Um cara postou no YouTube: “Me sinto como um homem das cavernas, brincando fascinado, com um elástico”. É verdade.

Concept designs de Coraline

Tem horas que eu não sei se é generosidade ou covardia mostrar desenhos tão absurdamente belos em um website. Dá um misto de deslumbramento e frustração, que me lembram um trecho da música do Milton Nascimento, no trecho em que ele diz: “como não fui eu que fiz…”

OK, eu já me conformei com os fatos. Eu jamais serei um Jon Klassen, que fez concepts e props para o filme Coraline.

Mas eu adoro a imensidão da sua simplicidade gráfica, seu arrebatador senso de design, e fico grato pela generosidade que ele teve em disponibilizar imagens que jamais seriam vistas de outra forma.

Vai, Jon Klassen, bate que eu gamo!

Invista um minutinho do seu tempo no site do cara, que você vai entender perfeitamente o que estou sentindo agora.

E não deixe de ver o filme dele sobre água, na tab “newer things / royal bank advert”.

OMG… achei os links dos comparsas dele, com mais concepts de cenário e personagens do mesmo filme…

Chris ApplehansShane PrigmoreShannon Tindle

Agora, imagine você, na Galeria Nucleus, em um evento gratuito, onde todos estes caras e mais alguns apresentam um “making of” do filme, com vários originais expostos nas paredes.

Já aconteceu, veja as fotos aqui.

Americanos rabudos.

Desenhando no Mercado Municipal

No sábado passado fui desenhar no mercadão do Centro de São Paulo, com Eduardo Bajzec e Luiz Rosso. A Sabrina Eras chegou a ligar, mas no meio da muvuca nos desencontramos.

Os vitrais do mercado são de uma beleza hipinotizante, e desenhá-los seria uma tarefa muito acima das minhas capacidades, então fiz um sketch mais centrado na luz ambiente, tentando não me perder na grandiosidade do local, um problema que o Bajzek certamente não enfrentou em seu desenho, feito no mesmo local, em uma mesa de restaurante no mezanino.

Preciso voltar lá mais vezes, o lugar é pitoresco, bonito, desenhável… e lotado pacas. Talvez eu me dê melhor com uma câmera, desenhando no estúdio depois.

Eu fiquei mais um pouco depois que os dois colegas foram embora, e desenhei esta imagem focando na composição entre as formas da coluna e do vitral. É incrível como uma paleta de cores reduzida pode dar mais resultado do que usar todas as canetas da mochila.

Um dia vou conseguir ser mais simples.

Uma edição de jornal só com ilustrações. Só podia ser na França.

Há 13 anos o jornal francês Libération publica uma edição anual somente com ilustrações, simultânea ao Festival de quadrinhos de Angoulême . Da capa à contra-capa só desenhos, cartuns, ilustrações e infográficos.

Os méritos vão para o diretor de arte do jornal, Alan Blaise.

Não é de agora que o Libération reconhece e valoriza a importância dos seus colaboradores desenhistas nesta demonstração de parceria e confiança. Em 1983 foi publicada uma edição especial onde todos os artigos eram ilustrados por desenhos extraídos de Tin Tin, logo depois do falecimento de Hergé, o desenhista belga criador deste épico dos quadrinhos.

Na terra da Bande Dessinée eles respeitam tanto o desenhista que ele merece este tipo de homenagem.

E cada exemplar destes vira um objeto de desejo, é claro. Eu tenho apenas esta edição em PDF, mas escrevi para a redação do jornal para saber como posso obter os outros 12 exemplares.

Se conseguir eu adiciono a este post.

Gary Kelley: ilustrador, artista, gênio e herói. Amigo também.

Eu tive o imenso privilégio e prazer de estudar, aprender e conviver por algumas semanas com Gary Kelley, nos dois anos em que frequentei a Illustration Academy, em Kansas. Foi um daqueles momentos que a gente quer congelar no tempo e guardar numa redoma de vidro, no alto da estante das memórias.

Já conhecia o trabalho de Kelley há muitos anos, e lá pude ver um dos meus grandes heróis pessoais em ação, usando giz pastel, sua especialidade, técnica que o colocou entre os ilustradores mais requisitados dos EUA. Vi também o processo de monotipia pela primeira vez, nas mãos deste mestre. Sem dúvida um batismo e tanto.

Gary Kelley é um ex-diretor de arte que optou em investir sua vida na ilustração, com um notável senso de design, um imenso domínio de cores, formas e expressão em seus personagens, um desenho reconhecível até no escuro, e acima de tudo uma pessoa adorável, um ser humano de raras qualidades, com o coração aberto para expor didaticamente suas técnicas e conhecimento aos alunos, com um carinho quase paternal.

Ele nos disse que mantinha mais de 60 jobs futuros comissionados, com datas previstas para entrega de uma semana a um ano de antecedência, algo impensável no Brasil, mas um exemplo de disciplina e de sucesso profissional.

Foi uma oportunidade também de desmistificar meus heróis e tê-los como amigos, algo que tenho procurado fazer entre os ilustradores brasileiros, desde que voltei deste treinamento.

Meu único arrependimento daqueles dias é de não ter ido com ele, John English, Mark English, Brent Watkinson e Bart Forbes ao show de Carlos Santana, para ficar no estúdio praticando desenho de modelo vivo.

Onde eu estava com a cabeça? Vou ajoelhar no milho e me auto-flagelar um pouco e já volto para escrever o resto do post…

Em uma busca no YouTube, encontrei este video com uma entrevista de Gary Kelley para a TV americana, onde ele expõe algumas idéias e mostra o que tem feito recentemente, e eu fiquei surpreso ao saber que 60% de sua produção atual é de telas a óleo, e os outros 40% se dividem entre pastel e monotipias.

É maravilhoso ver este artista no seu estúdio, executando sua Arte e dividindo suas experiências.

O video tem menos de 10 minutos, e tenho certeza que você não vai se arrepender de investir este tempo clicando no “Play”.

Ouvi dele, após uma apresentação e crítica de portfolio: “you are ready, man. Go head and do your thing, you are ready”. Este foi um dos maiores elogios profissionais que eu já tive na vida.

Outro momento precioso na minha estante de sentimentos está congelado na cena de Bart Forbes tocando um dos meus trabalhos feitos durante o treinamento dele, enquanto dizia: “look at these colors…”.

Ops… lagriminha não, vou parar por aqui.

Caminhando e sketchando

O Sketchcrawl Brasil aconteceu em 10 de janeiro, e alguns, como eu, acham que esperar 3 meses até o próximo é tempo demais.

Aquecendo as canetas até abril, quando acontecerá o próximo evento mundial, mini-sketchcrawls estão sendo promovidos na lista Yahoo do Sketchcrawl Brasil, e no sábado passado a Renata Polydoro convocou a galera para se reunir no Fran’s da Praça Benedito Calixto.

O lugar é muito rico em temas, desde a igreja, em frente ao nosso ponto de encontro, até a feira de objetos “cult” da praça.

Eu continuei no mesmo ritmo no dia seguinte, cultivando o hábito de andar com os cadernos para todo lado, e fiz um desenho durante o café da manhã, na Livraria da Vila. E ainda sobrou um tempinho para um rascunho no shopping Villa-Lobos.

Uma parada no MuBe também mereceu uma página nova no sketchbook. Aliás, é um ótimo lugar para um próximo encontro de desenhistas, com uma arquitetura muito interessante, uma feirinha de antiguidades altamente desenhável, e bem ao lado do MIS - Museu da Imagem e do Som, também um excelente tema para desenho de locação.

O Mercado Municipal, no centro da cidade também é uma boa opção para estes pequenos encontros de fim-de-semana.