Há um tempo atrás fui chamado para fazer uma ilustração para outdoors e folhetos do São Paulo Boat Show.
Um job interessante, um novo desafio, muito entusiasmo, e MUITO trabalho, em um original feito em óleo sobre tela, grande, com 1,20 m de largura.
Duas semanas intensas entre os rascunhos e a imagem final, amplos espaços reservados para o logo do evento, textos, diagramação planejada para utilização horizontal e vertical, enfim, eu estava radiante, a agência tinha gostado, mas… o cliente não aprovou.
Mais duas semanas editando a imagem escaneada em 12 partes, num arquivo imenso de Photoshop, sem sucesso. Pagaram mas não usaram.
Faz parte da vida de um ilustrador, é frustrante, dói no ego, mas quem está na chuva é para se queimar, como dizia Vicente Matheus.
Este quadro ficava guardado, intencionalmente escondido no quarto dos fundos, virado para a parede, de castigo eterno. Eu gostava da imagem, mas ela me trazia uma sensação amarga de derrota.
Bittersweet, diriam os gringos.
No dia em que fiz o workshop Diário Gráfico com o Renato Alarcão, ele me deu um insight inacreditável: “utilizem todos aqueles papéis antigos, retalhos, posters, etc, para fazer seus sketchbooks”.
Naquela mesma semana eu pude ter o imenso prazer de recortar esta tela em 8 partes, e dar um novo significado para aquele trabalho.
Empolgado com este novo “suporte”, aproveitei e retalhei também um segundo quadro que havia feito há mais de 15 anos, copiando cada pincelada de uma ilustração para aprender a técnica de um artista que admiro, Jeffrey Terreson, mas sem ter coragem de apresentar como meu.
Agora eu tenho um pouco mais de autoria sobre o trabalho, e o que seria uma tela “chupada” se estivesse na parede, se tornou uma série de imagens abstratas no meu sketchbook, entre folhas de papel Kozo para xilogravuras, papel Guarro e Fabriano para aquarelas, papel Carmem preto, papel Vegetal 90g, etc.
O verso das telas, manchados com a tinta a óleo atravessando o tecido, envelhecidos e feios enquanto estavam emoldurados, se tornaram superfícies levemente entonadas de amarelo-ocre, perfeitas para novos estudos.
Curioso pensar que estes papéis em formatos inteiros, impecavelmente guardados na mapoteca estavam amarelando, se perdendo sem uso, e no contexto do sketchbook, quando mais envelhecido e manchado, melhor.
Manchas senis no papel dão personalidade, autenticidade e maturidade ao caderno.
Até mesmo um calendário que ganhei em uma das lendárias festas de fim-de-ano da Gráfica Burti, com obras do Arthur Bispo do Rosário, entrou na dança.
Eu nunca teria coragem de jogar fora aquelas imagens impressas em papel couchê da melhor qualidade, e sem os sketchbooks, este belíssimo calendário e meus papéis importados acabariam se tornando refeição de carunchos na minha mapoteca.
As duas telas deixaram seus passados sombrios para trás, e hoje vivem na minha estante, como óvulos de proveta, aguardando a inseminação do próximo desenho.
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