Monthly Archives: novembro 2008

De papéis velhos a sketchbooks com personalidade

Há um tempo atrás fui chamado para fazer uma ilustração para outdoors e folhetos do São Paulo Boat Show.

Um job interessante, um novo desafio, muito entusiasmo, e MUITO trabalho, em um original feito em óleo sobre tela, grande, com 1,20 m de largura.

Duas semanas intensas entre os rascunhos e a imagem final, amplos espaços reservados para o logo do evento, textos, diagramação planejada para utilização horizontal e vertical, enfim, eu estava radiante, a agência tinha gostado, mas… o cliente não aprovou.

Mais duas semanas editando a imagem escaneada em 12 partes, num arquivo imenso de Photoshop, sem sucesso. Pagaram mas não usaram.

Faz parte da vida de um ilustrador, é frustrante, dói no ego, mas quem está na chuva é para se queimar, como dizia Vicente Matheus.

Este quadro ficava guardado, intencionalmente escondido no quarto dos fundos, virado para a parede, de castigo eterno. Eu gostava da imagem, mas ela me trazia uma sensação amarga de derrota.

Bittersweet, diriam os gringos.

No dia em que fiz o workshop Diário Gráfico com o Renato Alarcão, ele me deu um insight inacreditável: “utilizem todos aqueles papéis antigos, retalhos, posters, etc, para fazer seus sketchbooks”.

Naquela mesma semana eu pude ter o imenso prazer de recortar esta tela em 8 partes, e dar um novo significado para aquele trabalho.

Empolgado com este novo “suporte”, aproveitei e retalhei também um segundo quadro que havia feito há mais de 15 anos, copiando cada pincelada de uma ilustração para aprender a técnica de um artista que admiro, Jeffrey Terreson, mas sem ter coragem de apresentar como meu.

Agora eu tenho um pouco mais de autoria sobre o trabalho, e o que seria uma tela “chupada” se estivesse na parede, se tornou uma série de imagens abstratas no meu sketchbook, entre folhas de papel Kozo para xilogravuras, papel Guarro e Fabriano para aquarelas, papel Carmem preto, papel Vegetal 90g, etc.

O verso das telas, manchados com a tinta a óleo atravessando o tecido, envelhecidos e feios enquanto estavam emoldurados, se tornaram superfícies levemente entonadas de amarelo-ocre, perfeitas para novos estudos.

Curioso pensar que estes papéis em formatos inteiros, impecavelmente guardados na mapoteca estavam amarelando, se perdendo sem uso, e no contexto do sketchbook, quando mais envelhecido e manchado, melhor.

Manchas senis no papel dão personalidade, autenticidade e maturidade ao caderno.

Até mesmo um calendário que ganhei em uma das lendárias festas de fim-de-ano da Gráfica Burti, com obras do Arthur Bispo do Rosário, entrou na dança.

Eu nunca teria coragem de jogar fora aquelas imagens impressas em papel couchê da melhor qualidade, e sem os sketchbooks, este belíssimo calendário e meus papéis importados acabariam se tornando refeição de carunchos na minha mapoteca.

As duas telas deixaram seus passados sombrios para trás, e hoje vivem na minha estante, como óvulos de proveta, aguardando a inseminação do próximo desenho.

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Sketchbooks no programa Metrópolis

Vírus? Eu?

O video “Humans”, criado pelo estúdio Three Legged Legs é autoexplicativo.

É triste, vergonhoso, e real: somos vírus.

Pré-produção – Cheetos/Perseguição

Os bastidores de uma animação demandam muitas imagens conceituais, estudos, projetos, etc.

Depois de tudo produzido e com o filme no ar, restam vários trabalhos não publicados, que são interessantes para quem gosta de ilustração, e que não teriam como ser vistos, a não ser em um making-of ou blog.

No filme Cheetos/Perseguição, produzido pela Dínamo Filmes, a minha parte foram os storyboards (mostrados neste post anterior), os concepts dos personagens e model sheets.

Os concepts de floresta e vegetação são de Luiz Rosso.

Foram apresentados mais de 20 estudos preliminares, alguns foram escolhidos para uma fase seguinte, e outros foram descartados.
Neste caso, mesmo em um ambiente de video-game, não seria adequado associar o produto a armas de fogo.
O quadro com 5 opções foi feito em parceria com Camilo Saraiva, e algumas imagens tiveram estórias curiosas.
Em uma reunião o diretor do filme, Ricardo Carelli, me disse: “O monstrinho correndo foi aprovado, mas a gente quer o pai dele no filme”.
O gorila-robô-felino foi uma boa opção até o final, e como não entrou no filme, eu usei o personagem para um projeto pessoal.
O passo seguinte era criar o concept do menino, sua personalidade e suas roupas. O estudo incluiu até pesquisa sobre os modelos de tênis, corte de cabelo, tipo de jeans, etc.
Este foi o modelo aprovado.
Foram apresentados alguns modelos de gorila, híbridos com robôs, na reta final de escolha dos monstros do filme. Estes aqui chegaram a avançar bastante nas reuniões, até com estudos de como seria o encaixe entre a parte mecânica e animal, e por isto um dos gorilas mostra as costas e os detalhes da coluna, integrando tudo.
Mas a animação de uma horda de monstros com pernas mecânicas, com movimentos complexos, em um prazo curto, inviabilizou o uso do gorila-caranguejo.
Este foi o modelo aprovado, e sua anatomia permitiu que ele andasse em duas ou quatro patas, o que contribuiu muito na dinâmica e variedade da composição final.
Uma das cenas lembraria rapidamente o clássico video-game “Pitfall”, e o monstro aprovado para pular do buraco e atacar os heróis do filme foi apelidado de “Jacaruga” durante a produção.
A modelagem foi feita pela equipe de 3D da Dínamo Filmes, mas o Ork precisava de acessórios para reforçar o visual de video-game, que fiz no Photoshop, sobre a imagem do modelo feito no Maya.
Os model-sheets são a parte técnica da criação dos personagens, e exigem muito cuidado e precisão nas projeções ortogonais.
É como se fossem criadas plantas baixas de arquitetura para cada modelo, de frente, lado e costas (às vezes uma vista adicional por cima também é necessária), para que os modeladores tenham a base para criar o boneco em 3D.
O estudo de anatomia humana ajudou muito na criação do Ork. Toda a estrutura física dele é uma distorção da musculatura humana, e eu me lembrei do nome de cada músculo ao desenhar este personagem.
Eu acho que não dá para distorcer ou “desconstruir” o que a gente não conhece.
São várias semanas de trabalho, com uma equipe altamente especializada, para realizar um filme de 30 segundos.
Uma cena de um ou dois segundos pode ter exigido vários dias e noites, de dúzias de pessoas, para ser realizada.
Cada profissional é parte indispensável do processo, um elo da corrente, começando das primeiras reuniões para estudo do briefing, passando pela decupagem do roteiro em quadros de storyboard, pré-produção, produção, e terminando na pós-produção, com edição de imagens, sincronização, correção de cores, enfim, são dezenas de etapas até que o filme esteja no ar.
Encurtando uma longa estória, é intenso, desgastante, mas absolutamente fascinante.

Canetas de pescar sonhos

Por uma série de acasos, encontros e desencontros, moro hoje no mesmo bairro onde passei alguns bons anos da minha infância.

Meu filho estuda a poucos metros da lanchonete que foi dos meus pais, quando eu tinha 9 anos de idade, e o desenho abaixo, com ele brincando na areia, foi feito na pracinha onde eu andava de bicicleta com meus amigos.

Hoje mais um destes acasos me transportou no tempo, depois de almoçar com a família.

Ainda na mesa do BurDog da Av. Sto Amaro, estava terminando de desenhar os nomes das ruas do bairro no sketchbook, e cada uma me trazia lembranças dos amigos, das brincadeiras, enfim, estava revirando o álbum das memórias, você sabe como é.

Aí eu olhei pela vidraça, no outro lado da avenida, e uma cena absolutamente comum me trouxe os sons, os cheiros e as imagens tatuadas na minha mente aos 9 anos de idade, como uma máquina do tempo.

Uma revoada de pássaros no final da tarde, centenas de piados simultâneos formando um som contínuo como um mantra, exatamente como acontecia na frente da lanchonete do meu pai, onde do outro lado da rua haviam 3 árvores imensas, e que hoje só existem na minha memória. Foram arrancadas daquela calçada há poucos anos.

Um banana split para 3 desviava minha atenção, que estava mais para os pássaros no Brooklin dos anos 70, no quintal daquela lanchonete da minha infância, e que hoje é uma alfaiataria.

Abandonei minha parte da sobremesa, e com o sketchbook e canetas de pescar sonhos, mergulhei de cabeça na minha viagem ao passado, sabendo que uma câmera não seria capaz de capturar aquela sensação, seria muito literal, fria, sem o clima de sonho que eu estava vivendo.

Esta tarde me rendeu um peixão. Pode não ser grande coisa como desenho, mas eu vejo nele vários layers emocionais acumulados em algumas décadas.

E não é estória de pescador, é tudo verdade.

Vem aí o Sketchcrawl Brasil

No dia 10 de Janeiro de 2009, desenhistas do mundo inteiro tem um compromisso marcado: Sair às ruas com seus cadernos, canetas, aquarelas, etc, para desenhar tudo que aparecer na frente dos olhos e da mente.

O Sketchcrawl é um evento criado por Enrico Casarosa, que depois de tomar proporções continentais nos EUA e Canadá, espalhou-se pelo mundo, e já aconteceu no Brasil em edições anteriores, no estado do Paraná.

Desta vez São Paulo vai organizar o encontro na Vila Madalena, na data prevista para o evento mundial, começando ao meio-dia e esticando pela tarde afora nas ruas do bairro, até terminar em algum outro bar, ainda não definido, no começo da noite.

Participar do evento em outras cidades e estados é gratuito, e tão simples quanto querer e fazer.

Para centralizar as idéias e motivar as pessoas a integrar a maratona mundial de desenho, foi criada uma lista no YahooGrupos. Basta enviar um e-mail em branco para Sketchcrawl_Brasil para se inscrever.

Aí é só juntar a galera no dia do evento e enviar as fotos e imagens para um endereço do Flickr, a ser divulgado neste novo grupo.

Os eventos de diversas partes do mundo ficam disponíveis em posts, como o da edição passada, no Forum Oficial do evento, e a minha mensagem já está lá, na companhia da resposta do Leo Gibran. O pessoal de Curitiba também se inscreveu oficialmente.

Para saber pouco mais sobre o evento, confira este outro post, mostrando a o mapa de participação mundial, como tudo começou, etc.

Nos vemos com caderninhos em punho na Vila Madá!


Storyboards fora da gaveta

Este parece ser um lugar interessante para postar os trabalhos não publicados.

O storyboard é o princípio da maioria dos comerciais de TV, parte importante da pré-produção, mas logo que termina esta fase e começa efetivamente a produção do filme, estas imagens perdem a sua função e vão para a gaveta, ou melhor, para o HD de backup, que também vive na gaveta, enfim.

Estes quadros tem uma vida útil muito curta, mas nada impede que eles voltem a ver a luz do dia no blog de um ilustrador, e sejam vistos por um público que raramente teria acesso a estas imagens de outra forma.

Estes quadros foram feitos para um comercial de Cheetos, para a Dínamo Filmes, no ano passado.

Depois de aprovados, fiz os concepts dos monstros, do menino, e os model sheets, mas isto é assunto para um próximo post.


Thumbnail

A tradução literal do inglês seria “unha do dedão” (do polegar, do pé não vale).

O termo é bizonho, mas é assim que eles costumam chamar os rascunhos bem pequenos, esboços de idéias feitos rapidamente, e que podem ser extremamente úteis nos primeiros passos de um trabalho mais elaborado, como concepts ou ilustrações finais.

Os thumbs ajudam a definir a composição, a paleta de cores, o contraste geral da cena, e podem ser importantes para definir as hierarquias da imagem, como plano principal e secundário, figura de destaque, etc.

Durante anos eu me dediquei exclusivamente às técnicas de ilustração como arte-final, onde não há espaço para o erro, e muito pouco acontece no improviso. É a fórmula ideal para travar a mão e tapar os olhos para o novo.

Somente os sketchbooks me permitem aventurar e explorar novas possibilidades no desenho, sem medo de errar, e com a liberdade de fazer algo intencionalmente tosco. E somente em um blog eu posso mostrar imagens que jamais entrariam em meu website ou portfolio.

Nestes estudos eu procuro juntar o fundamento dos thumbs com a prática do desenho de locação dos sketchbooks, e combinando diversas canetas em papel reciclado tem trazido resultados interessantes.

Aquecendo a mão, sem referência nem capricho, lembrando os fortes de Salvador.
Rabiscar ajuda a focar, antes de partir para estudos mais elaborados.

Com referências de fotos de Lisboa, os dois estudos começam a mostrar algumas possibilidades. O primeiro saiu melhor que o segundo, com mais contraste e uma composição mais enxuta.

Este aqui ficou no limbo entre uma cena urbana e o abstrato, mas eu gostei da técnica, partindo de um rascunho em caneta vermelha, e usando canetas Posca para as cores opacas.
Me pareceu uma sequência eficiente para futuros estudos.

Os estudos permitem a tentativa e erro, o que seria impensável em trabalhos comissionados, com prazo e cliente contando os minutos para receber a imagem.
Aqui parece que encontrei um novo método de trabalho, rápido, eficiente e com aquela sensação quase embriagante de achar um novo fio da meada, um resultado visual que pode ser útil no futuro.
Talvez até em trabalhos comissionados, porque já não é mais o acaso que conduz o resultado, ele é direcionado, virou uma técnica.

Aqui eu explorei um pouco mais a nova fórmula, e talvez tenha caído novamente no limbo entre um desenho de sketchbook e uma ilustração final.
É preciso praticar mais.

E principalmente, voltar ao simples.


Letras vivas

Há muitos anos tenho feito, quase sem perceber, um tipo de letra que pede para ser trabalhada, desenvolvida, amadurecida. Como são poucas as oportunidades de desenvolver um trabalho de Typefont, eu dediquei pouco tempo para atender aos seus pedidos.

Mas ela é persistente, e quer entrar nas minhas páginas.

Quer existir.

Quando apareceu um projeto pessoal, a convite do Gualberto “HQMix” Costa, ela apareceu antes do desenho, e ganhou seu espaço no título da minha página, na estória em quadrinhos coletiva O Crime do Teishoku Preto. (© fotos: Mario Cau)

Duas semanas depois, outro projeto de liberdade criativa: este blog. Qual o nome ideal para um blog? Qual é o tema, a personalidade deste espaço? Que identidade visual ele vai ter?

Quando encontrei o fio da meada, pelo menos nos conceitos de conteúdo e visual, o quebra-cabeças ainda tinha duas peças por completar, o nome e o logo.

Minha esposa sugeriu o nome “Sketcharia”, que imediatamente fez clic, e agora restava só uma peça.

Eu troquei uma letra, e na manhã seguinte, antes que eu pensasse em um rascunho, a Typefont pulou no papel com vida própria, vestida de arte-final.

E me mostrou claramente a que veio, o papel em que ela fica melhor, suas canetas preferidas, adora uma moldura branca ou preta, e me fez entender sua importância no meu repertório visual.

Por fim demarcou seu território: os sketchbooks.

É óbvio, ela é uma Typefont de sketchbook, como eu não vi isto antes?

Muitos ilustradores tem seus personagens, habitantes vivos de seu mundo gráfico, reconhecíveis em qualquer técnica. O mesmo acontece com suas caligrafias, que tem a cara e a alma do autor.

Esta Typefont acaba de entrar na minha vida como um bicho de estimação, e só faltou abanar as serifas quando molhei as letras com aquarela.

Ela vai ter um leve sotaque de Uncial, principalmente nos As e Es, mas talvez se chame Garamonta, por influência da Garamond e suas serifas arredondadas, sua elegância comprida como as pernas da Gisele Bundchen. Também tem muito das garatujas, desenhos feitos nos cantos do papel, sem muito rigor, mas cheios de expressão e vitalidade. E tem meu apelido, o atalho do meu nome.

Quando a gente dá nome ao bichinho, não tem mais volta. Vira pet, vai pular no seu colo, dormir na sua cama, lamber sua cara, e vai trazer a coleira na boca, pedindo pra passear.

Neste caso, vai ser a caneta, e já sei que não vou conseguir negar os passeios no sketchbook.


Paraty, Mangue Galeria e saudades.

Um dia o querido amigo e genial ilustrador Gonzalo Cárcamo me liga com uma proposta tão desafiadora quanto irrecusável: “Quer ser meu sócio na Mangue Galeria em Paraty?”.

Foram mais de dois anos de intensa produção e inúmeras viagens a esta cidade incrível no sul do Rio de Janeiro, que me fascinou desde a primeira visita, aos 20 anos de idade.

Muitas vezes saíamos de madrugada, na companhia de Zuri, um dos sócios, e encarávamos as 5 horas de viagem como se fossem 50 minutos, diluídos nos causos contados e ouvidos pelo caminho.

Desse tempo tenho muitas fotos, intermináveis lembranças e muita saudade.

Faria tudo de novo.

Talvez faça mesmo.

É extremamente raro cultivar um grande respeito, amizade e admiração por um ex-sócio, mas como o Cárcamo é um ser humano extremamente raro, é isto que sinto por ele.

Na noite anterior a inauguração, um visitante “esmerilhava” o violão, hipinotizando nosso sócio, Zuri, com sua técnica.

Tempo bom…