Category Archives: Making of

Mais um daqueles concursos

Eu nem deveria sujar o blog com um assunto destes, mas a afronta é muito descarada para aguentar calado.

A Revista Piauí, em um rompante de desrespeito e escárnio contra seus colaboradores resolveu fazer um “concurso”, entre aspas, muitas aspas.

Eles querem artes inéditas e que façam a redação rir. Estes são os critérios da banca julgadora.

Ao grande vencedor deste “concurso”, o merecido prêmio: um pinguim de geladeira.

É ridículo, ofensivo e insignificante mas é o prêmio oferecido pela revista.

Já não bastasse a mesquinharia do troféu, o vencedor terá que ir até a redação para buscar seu souvenir, a não ser que ele seja de outro estado que não SP ou RJ.

A situação em si já é constrangedora, mas os editores conseguiram fazer o assunto ficar revoltante, acenando com uma suposta “imortalidade piauiense” para uma também suposta “tribo cartunistas/chargistas/criadores de humor gráfico”, ao mesmo tempo que ameaça com humilhação e cuspidas na cara no caso da imagem ter sido publicada anteriormente, mesmo que seja em um mictório público (?!?).

Eles querem exclusividade total, sob a seguinte ameaça:

Atenção: será submetido a opróbrio, e talvez escarradas na fuça, quem enviar trabalhos já publicados - seja em livros, jornais, revistas, zamizdats, pichações, sites, propagandas, blogs, cartazes, grafites, facebooks, pôsteres, enciclopédias, dazibaos, orkuts, mictórios públicos, cartazes, cardápios, tatuagens, bulas, calendários, twitters, rettiwt (o meio de comunicação secreto da piauí) e todo ou qualquer meio de expressão existente ou que venha a ser inventado nos próximos  3 974 anos.

Confira neste link o que eles consideram um novo e eletrizante concurso, e neste link as regras.

Eu estou enviando uma tirinha para eles. Não que eu me importe em ganhar um pinguim de geladeira, que dá pra comprar online por R$ 25,00 mas tem coisas que não podem passar em branco.

Mas eu publiquei aqui no blog e linkei no Twitter! Será que eles vão cumprir com suas catarrentas ameaças?

Note que não se trata de um concurso para amadores ou novatos. Eles querem a participação de artistas bissextos (eventuais, mas não necessariamente iniciantes) ou consagrados.

Não é assim que um contratante se dirige aos seus contratados ou colaboradores.

Não é escondido atrás de um pretenso senso de humor que se pode tratar seus parceiros de trabalho como lixo.

Enquanto os editores enxergarem seus colaboradores como um bando de idiotas, e estes se prestarem a humilhação de disputar um pinguim de louça como prêmio por seu trabalho, sujeitos a opróbrio e escarradas na fuça, não será possível uma relação comercial dentro de uma margem mínima de respeito.

Eu tenho um misto de pena e desprezo pelos miseráveis que se prestam a este tipo de oferta, lambendo as solas dos sapatos dos editores para entrar para a “eternidade piauiense” como mendigos da profissão.

Eu tenho uma sugestão aos editores sobre a utilização do maldito pinguim, mas vou poupar os leitores do blog das minhas grosserias.

No entanto, como eles são bem humorados, espirituosos e gostam de falar o que pensam, acho que não vão levar a mal se eu enviar um desenho com um pequeno leitor da revista, não é?

Vou pegar uns cacos da minha cabeça lá na Flórida

Há algumas semanas postei aqui sobre um assunto que explodiu a minha cabeça, depois que o colega Joel Lobo me mandou um Twitter com os videos da Illustration Academy.

Alguns cacos foram parar lá na Flórida, onde acontece o evento que reúne alguns dos mais renomados ilustradores americanos, durante sete semanas de treinamento intensivo, cerca de 10 horas por dia, de segunda à sexta, e os alunos usam a estrutura dos estúdios da Ringling School of Art and Design à noite e nos fins-de-semana para completar os trabalhos propostos durante o treinamento.

Estes dois videos mostram um pouco das atividades nestas últimas semanas, que tiveram Anita Kunz e Jon Foster, além dos ilustradores permanentes (Mark english, John English, Brent Watkinson e Sterling Hundley), e dá pra sentir um gostinho do que é este evento, e sonhar em realizar um destes aqui no Brasil, quem sabe com alguns dos instrutores de lá, já pensou?

Eu estava planejando ir no ano que vem, mas há muitas coisas novas acontecendo, principalmente com a Revista Ilustrar, portanto mudaram os planos e eu estou indo para Sarasota neste sábado para costurar este intercâmbio, propor interações entre todas as atividades daqui (Revista Ilustrar, Bistecão, Sketchcrawl, workshops, Galeria Magenta, etc) e a Illustration Academy.

O Ricardo Antunes e o Rogério Vilela também vão passar alguns dias no evento, e nos reuniremos com John English para traçar alguns caminhos para o futuro.

Tivemos várias reuniões com ilustradores aqui em São Paulo nestas últimas semanas, temos planos extremamente interessantes, e o que há de em comum entre todos eles é que são concretos, realizáveis e de início imediato.

Valeu a pena a correria para encarar esta viagem e adiantar estas conversas em um ano. Acredito que todos temos a ganhar com isto, em todas as pontas das negociações.

Vou fazer como o Hiro, e postar um diário… bem, talvez um semanário, das atividades da academia durante o próximo mês.

Também vou escrever algumas coisas em tempo real pelo Twitter, quem se interessar pode me achar neste link.

Estou certo que daqui há um ano seremos um grupo de ilustradores indo pra lá. Provavelmente um grupo ainda maior no ano seguinte, e no outro… bem, melhor deixar acontecer este primeiro, depois eu vou contando as novidades.

Gastando como se não houvesse amanhã

Claro que não se trata de gastar dinheiro, gostaria muito de exercitar a liberdade de torrar grana impiedosamente, como tenho feito com meus materiais de desenho e pintura.

Não nesta vida.

Este processo começou em uma faxina do estúdio, quando me dei conta da quantidade de material que eu tinha primorosamente armazenado durante mais de 20 anos, usando tudo com uma economia de Tio Patinhas, quando a verdade me caiu na cabeça como um piano: “Eu pareço um dono de armazém, e não um artista”.

Foi um choque.

Por quê eu não usei tudo isto antes de secarem os tubos de guache, ecolines e canetas de ponta de feltro?

Ser muquirana com material de pintura é auto-sabotagem.

Eu tinha que fazer algo a respeito, e comecei tomando uma decisão: gastar material sem dó, como se não houvesse amanhã. Muito melhor do que manter aquele estoque de tintas seria ter usado tudo, até a última gota, e ter pilhas de desenhos do chão até o teto.

Tenho feito isto consistentemente, nos últimos 3 anos, e o resultado são os sketchbooks engordando como porquinhos a cada dia.

Detonando as poucas canetas Design que me restaram, fui visitar o Ricardo Antunes, que me deu um presente incrível: sua coleção de canetas e marcadores. Meu pai negaria se eu pedisse, um irmão mataria o outro por estas canetas, e ele me entregou um tesouro pessoal sem verter uma lágrima. Caba macho padaná!

Compulsivo que sou, quero mais. Estou disposto a comprar canetas Design, Copic, Prismacolor e Mecanorma de quem as tiver mofando na gaveta. Se quiser fazer negócio, me mande um e-mail, ok?

Outro dia comprei algumas réguas de normógrafo, que eram caríssimas há 10 anos, mas hoje são vendidas a granel nas estantes de liquidação da Casa do Artista. Eu uso como carimbo para criar padrões de fundo.

Ontem eu revirei (ok, eu e a Mônica reviramos) a casa atrás de meus Ecolines, alguns muuuito antigos.

O cheiro destas tintas antigas é uma máquina do tempo, por alguns segundos mergulho numa profunda regressão: estou com 12 anos de idade, indo para a escola. Pena que a viagem seja tão breve.

Guardo guaches em um baleiro, mas procuro um daqueles antigos, giratórios. Sonho de consumo besta, mas um dia vou encher um baleiro de 4 compartimentos, e esvaziar com gosto.

Encontrei por acaso minhas folhas de Letraset, algumas craquelando como papiros egípcios. Uma delas colou no papel, rachou, esfarelou, desgraceira total. Meu lado racional insistia em despregar os caquinhos para continuar, quando eu me dei conta da liberdade indescritível que aquilo representava.

Pela primeira vez em 25 anos usando Letraset, eu não tinha cliente, diretor de arte ou qualquer motivo para preciosismo. Poderia ficar assim, e contar com o imprevisto, deixar reinar o caos, poderia fazer o resultado ficar até melhor, com relevo, com personalidade, com estória pra contar.

Gostei tanto que resolvi fazer uma coisa impensável até este dia: Torrar as letras como nunca me permiti na vida. Com as regras e os protocolos tipográficos no lixo, me aventurei sem saber onde nem como iria terminar.

O ritual de transferir letras sempre foi quase sagrado, tudo era tão caro que cada letra perdida doía na alma, sabendo que qualquer “til” que me faltasse me empurraria a uma de duas alternativas: fazer na mão com cuidado cirúrgico, ou comprar outra folha.

Detonar Letraset ontem me rendeu um prazer que eu não conhecia, e por algum motivo lembrei do Al Pacino dirigindo uma Ferrari, cego, pelos becos de NY no filme Perfume de Mulher.

Alguma parte do meu cérebro ainda guardava pudores quase virginais quanto ao uso das letrinhas, e assistia horrorizado aquilo tudo, enquanto outra parte se acabava em uma orgia tipográfica desenfreada, sem regras, sem compromisso, sem camisinha.

Fui dormir às 4 da matina, cansado, feliz, renovado e sem culpa.

Tenho que admitir e reconhecer que esta idéia não é nova, nem minha. Vi o Kako usando Letraset nos seus cadernos, e sabia que não conseguiria evitar uma pontinha de plágio sua influência, nos meus.

Aliás, verdade seja dita, o Kako tem motivado uma legião de desenhistas a criar ou reconquistar o hábito do sketchbook através dos encontros do Bistecão Ilustrado, sem este impulso talvez não houvessem tantos desenhos em meus cadernos recentes, e provavelmente não haveria este blog, não com este contexto.

Kako, meu irmãozão: Obrigado, thanks, grazie, spaciba, merci, danke.

(head bow)

Domo arigato!

Hoje à noite tem mais suruba de letrinhas. Uhú!

Caminhando em terreno inexplorado

Quando se descobre uma nova fonte de energia ou um território inexplorado, não se tem a noção exata do que se tem nas mãos, nem a dimensão da extensão ou a profundidade desta descoberta.

Eu ando me sentindo assim com os sketchbooks.

Eles me abriram “portas da percepção”, e ao contrário de Aldous Huxley, eu posso fazer minhas experiências livremente, legalmente e sem danos neurológicos.

Dos workshops do Renato Alarcão ao desengavetar papéis velhos e montar cadernos, e até mesmo na escolha temática deste blog, tenho caminhando em um território inexplorado, fascinante, e vejo agora que há muitos, como eu, interessados em descobrir onde isto tudo pode nos levar.

O retorno que estou tendo com o Sketchcrawl Brasil tem sido surpreendente, além do número recorde de participantes, tenho recebido todo tipo de feedback, de e-mails pessoais a entrevistas, além de inúmeros contatos com pessoas de diversas áreas, que desejam retomar o hábito de desenhar, por prazer ou por ambição profissional.

Eu mesmo tenho experimentado muitas possibilidades novas, técnicas diferentes, temas e abordagens que permitem tirar do trivial algo único, e o resultado deste meu novo hábito é que a mudança acontece não no papel, nem tanto no traço, mas no olhar.

Parece que ao fechar o caderno com um desenho novo nele, o olhar continua atento, o senso de observação fica mais aguçado e até certo ponto mais perceptivo a detalhes e sutilezas, que passam despercebidas quando se está fora deste ritmo constante de desenho.

A impressão que tenho é que estou enxergando melhor, percebendo mais e processando melhor tudo que acontece diante dos meus olhos.

Tudo parece mais “desenhável”, dos detalhes de porcas e parafusos no extintor de incêndio aos corredores e paredes, das dobras das roupas às características faciais das pessoas, gente bonita fica fascinante, gente feia fica interessante, enfim, é como se eu estivesse ligado no modo “draw”, mesmo quando não estou desenhando.

Acho que estou adquirindo a disciplina e a compulsão por desenhar que eu busquei a vida inteira.

Finalmente estou ficando doido o suficiente para querer desenhar o tempo todo, ou de desenhar com os olhos, mesmo quando não estou desenhando com as mãos…

A energia trocada com as pessoas interessadas nos sketchbooks, ver seus desenhos, sentir a motivação brilhar nos olhos, criar objetos de desejo em forma de cadernos, isto tudo me alimenta também, e me faz sentir que estamos abrindo picada em uma mata inexplorada, um terreno inédito no Brasil, que são
os sketchbooks, com seus desenhos sem cliente, feitos sem compromisso, criados pelo mais absoluto e puro prazer de desenhar.

Não sei onde isto vai nos levar, mas talvez tudo isto seja ao mesmo tempo o segredo, a pergunta e a resposta. É provável que o destino seja o próprio caminho trilhado.

Pousada na Barra, em Salvador. Vista da cama. Só geometria perfeita e cores lindas, não dá vontade de desenhar?

Sabe quando você passa em algum lugar, tem vontade de recortar aquela imagem do cenário e levar com você, mas sempre tem algo que te impede? Eu sinto isto o tempo todo em viagens, por isto eu fotografo tanto, enlouquecidamente, compulsivamente, pensando em desenhar ou pintar tudo aquilo um dia.

Detalhe do topo de uma porta no Pelourinho, em Salvador. Depois de muitas fotos familiares, sorrisos, caretas, etc, liguei o modo “draw” e despertei para riqueza dos detalhes e das cores em cada palmo ao nosso redor. Zoom no máximo, e fotos, muitas fotos.

Aos poucos estou encaixando peças importantes no meu quebra-cabeças interior, unindo este hábito antigo de fotografar pensando no desenho, com o novo prazer de carregar sketchbooks para todo lado.

Materializando um antigo projeto, desenhar sobre fotos, tiradas com este único propósito. Estes dois desenhos de Salvador foram feitos ontem, entre um gole e outro de um copão de Café Mocha, no Starbuck’s.

Evento de carros antigos no autódromo de Interlagos. Desenharia lá por uma semana inteira, mas tenho fotos suficientes para desenhar carros antigos, hot-rods, stock-cars, concept-cars, etc, por meses a fio.

Carrego minhas fotos preferidas no ipod, preso com elásticos no caderno, e tenho anos de imagens, viagens congeladas no tempo, memórias vívidas e significados pessoais, sempre disponíveis na página ao lado. Seja na fila do banco, ou enquanto aguardo minha vez no consultório do dentista, no sofá depois do jantar, enfim, valeu a pena fotografar tanto, e agora é só desenhar tudo.

Louco? Talvez.

Feliz? Com certeza.

Workshop Diário Gráfico em SP (corrigindo as datas)

O ilustrador Renato Alarcão estará em São Paulo nos dias 16, 17 e 18 de janeiro, trazendo mais uma edição do workshop Diário Gráfico, onde são apresentadas diversas técnicas de desbloqueio criativo e encadernação de sketchbooks.

Eu fiz o workshop com ele duas vezes, e para não me estender muito em elogios e rasgação de seda (totalmente justificáveis), basta dizer que este blog não teria sido criado, nem meus cadernos ou a experimentação que tenho feito nos sketchbooks, se não fosse o impulso inicial do Renato Alarcão.

Costumo dizer a ele que a raquetada nos meus miolos foi tão grande, que meu cérebro está girando até hoje, quatro anos depois do primeiro workshop. Escrevi um post sobre este assunto aqui.

Entre em contato com ele por e-mail ou pelo telefone (21) 3602-3760, mas não demore, porque as vagas são poucas.

Enjoy!

The Illustration Academy - 001

Se fosse postar todos os causos e fotos que tenho da Illustration Academy, seria melhor fazer um blog só para isto. São mais de 1800 fotos de quando participei deste workshop em Liberty (na divisa entre Kansas e Missouri), em 1997 e 1998.

1/3 destas fotos foram tiradas durante as demonstrações dos ilustradores, fazendo sua mágica passo-a-passo, contando sobre os processos, materiais, e sequências de trabalho. Ver artistas como Mark English, John English, Brent Watkinson, Gary Kelley, Bart Forbes, Skip Liepke, Jack Unruh, Chris F. Payne, Anita Kunz, Greg Spalenka e John Collier em ação foi uma das experiências mais incríveis da minha vida.

As outras fotos são de portfolio dos artistas, algumas delas tiradas nos estúdios onde eles trabalhavam, e o resto são amenidades, jogando frisbee no campus da William Jewell School, ou das paisagens e detalhes da cidade, inclusive de árvores centenárias derrubadas por uma tempestade tropical (logo abaixo da classificação de furacão) que passou por lá.

Fomos convidados a ir para a casa do Mark English, assistir a luta, sem imaginar que o Tyson iria jantar a orelha do Holyfield, e chegamos pelo menos 5 horas antes, para degustar as obras originais do nosso anfitrião.

Marcelo Gomes (que explodiu minha cabeça ao me apresentar um anúncio deste workshop, cerca de um ano antes), 3 alunos americanos, e Mark, em sua prancheta, preparando uma demonstração inesquecível: o retrato do Drácula.

Hora da luta, metade do estúdio já apagado, e eu era o último a deixar o local. Esta era a cena, depois da demonstração. Nem vou tentar descrever o que eu sentia naquele momento, mas era intenso.

Chris Payne, Mark English e seu filho John English, durante uma avaliação dos trabalhos da semana.

Conviver com ilustradores que eu cultuava como deuses consumia toda minha adrenalina, eu dormia muito pouco e devorava intensamente cada instante, o que me garantiu o carinhoso apelido de “brazilian maniac”.

Eu tinha um certo receio de estar sonhando, mas se em 10 anos eu ainda não acordei, acho que deve ser verdade.

Bart Forbes, uma das pessoas mais agradáveis do mundo, quase um Benício. E com um pincel na mão é mais poderoso que o Batman, Super-Homem e o Homem-Aranha juntos.

Se existe um deus na ilustração, deve ser o segundo na hierarquia. Antes dele vem Gary Kelley.

A ilustradora canadense Anita Kunz, durante uma demonstração.

Na noite de despedida fizemos um presente para Mark, John e Brent, os 3 instrutores permanentes da Illustration Academy. Mark English foi um campeão de boxe, antes de se tornar uma lenda na ilustração, e em cada luva pintada com tinta dourada haviam palavras de admiração e carinho por tudo que eles nos proporcionaram.

Sketchbooks do Bistecão Ilustrado

Em agosto o Kako, criador e mentor do Bistecão Ilustrado - encontro mensal de desenhistas - trouxe uma novidade para os convidados: papel kraft sobre todas as mesas.

Juntou-se a fome com a vontade de desenhar, e nem micos-leão em uma loja de cristais poderiam ficar mais felizes do que nós.

Ao final da noite, quase início da manhã seguinte, estávamos com uma pilha considerável de originais sobre a mesa, sem saber o que fazer com tudo aquilo.

Acender uma pira cerimonial, e agradecer aos Deuses por alguma coisa? Não, a primeira opção estava descartada.

Sono e entusiasmo é uma combinação bastante estranha, e ainda na inércia de quase 8 horas seguidas de besteirol, falamos quase ao mesmo tempo, como se tivéssemos ensaiado: “Minha mulher me mata se eu levar isto pra casa”.

O que fazer com estas artes, como criar um uso digno e barato para aqueles originais? E os próximos? A receptividade foi ótima, a idéia era um sucesso, portanto teríamos a mesma quantidade mensalmente, e ainda não estávamos bem certos se isto era uma benção ou uma maldição.

“Na mão do Alarcão, isto tudo virava caderno”, eu disse, sem me dar conta que havia tropeçado na arca do tesouro. Houve um silêncio, enquanto caía a ficha (às 4 da matina todas as fichas caem em câmera lenta), e deu o estalo: é isso, vamos fazer sketchbooks!

Com a solução nas mãos, ficou mais fácil pensar no que fazer com os cadernos, edições únicas, exclusivas, numeradas, realimentando o próprio motivo de estarmos juntos, que é desenhar e se divertir entre amigos.

Neste video você pode conhecer ou rever o nosso evento, acompanhar um divertido making of dos cadernos, e amargar comigo a dura tarefa de cortar artes originais, em benefício de uma causa nobre.

Este trecho, editado do filme principal, mostra as dificuldades e as crises de consciência de quem se propõe a cortar originais a golpes de régua.

O Acervo está comigo, devidamente fotografado em alta, para depois ser cortado, costurado e encadernado manualmente. A capa terá o logo do Bistecão gravado à laser, e os logos dos nossos colaboradores (DRC e Casa do Artista) no verso.

A partir da comemoração dos 3 anos de Bistecão Ilustrado, além das tradicionais peças pintadas “in loco”, vamos sortear 4 cadernos por noite, no exato momento em que as 12 badaladas dos sinos da Igrejas de São Bento, Sé e Santa Ifigênia atormentarem os moradores do centro de São Paulo.

Cadernos Moleskine e Itaú Personnalité

Poucas coisas podem ser mais representativas da individualidade de uma pessoa do que um caderno de anotações.

Dos impecáveis papéis brancos, aos reciclados de cor parda, passando pelas aventuras experimentais dos cadernos feitos à mão - conteúdo à parte - uma marca de cadernos se destaca de todas as outras: Moleskine.

Um mito, um sonho de consumo, o Macintosh dos sketchbooks.

Talvez a marca tenha herdado a fama adquirida por usuários de renome mundial, como Ernest Hemingway, Henri Matisse, Vincent Van Gogh, André Breton e Picasso, entre outros.

Bruce Chatwin, um escritor-viajante, numerava as páginas de cada caderno novo, escrevia seu nome e pelo menos dois endereços, e uma promessa de recompensa no caso de perda do seu Moleskine. “Perder meu passaporte era a menor das minhas preocupações, perder um caderno de anotações seria uma catástrofe”, dizia ele.

Mas a bi-centenária empresa italiana Moleskine SLR, fabricante original dos famosos cadernos, nem sempre esteve bem das pernas. Com a morte do proprietário em 1985, a produção foi descontinuada e chegou a se esgotar no ano seguinte. A marca foi registrada somente 10 anos depois, pela atual produtora dos cadernos, a editora Modo & Modo, que chegou a ter dificuldades em suprir a demanda, até que foi comprada em 2006 pelo fundo de investimentos Societé Générale, por 60 milhões de Euros.

Confesso que quase caí do sofá quando vi a campanha do Itaú Personnalité, toda centrada nos cadernos Moleskine, mostrando página após página, desenhos simples e magníficos.

Utilizando ao máximo o conceito do sketchbook, sua característica de individualidade, exclusividade e personalidade, e aliando tudo isto à centenária reputação dos cadernos Moleskine, a DPZ formatou a imagem exata que o Itaú Personnalité queria passar a seus clientes.

“É impossível imitar você. Mas é possível acreditar nos seus projetos, e fazer parte dos seus planos.”

O comercial abre com este texto genial, valorizando a individualidade do cliente, se aproximando de seus ideais.

O conceito do caderninho Moleskine, repleto de desenhos, é a espinha dorsal da campanha, valorizando o que cada um tem de mais precioso, seus projetos, seus planos, a vida compactada em um sketchbook.

O programa Avesso apresentou um programa sobre a campanha Itaú Personnalité, criada pela DPZ, e produzida pela AD Studio.

E um making of dos dois filmes.

Antes destes, vários outros filmes do Itaú Personnalité já usaram animação, rotoscopia, desenho, ou stop motion, como este, feito em recortes de papel, animados pelo Birdo Studio.

A primeira vez que vi este filme foi impressionante. A segunda também. Só hoje, editando o blog, já devo ter visto mais umas 8 vezes, e continua impressionante.

Agência: DPZ - Produtora: Lobo - Direção de cena: Mateus de Paula Santos e Carlos Bela - Direção de arte: Lobo - Animação de personagem: Paulo Muppet e Luciana Eguti.

Pensando bem, o escritor Bruce Chatwin tinha toda a razão. É preciso colocar nome, endereço e uma proposta de recompensa em cada sketchbook.

E uma curiosidade: a tradução literal de “mole skin”, de onde deriva o nome da marca, seria “pele de toupeira”, mas fique tranquilo, os cadernos tem capas sintéticas, e nenhum animal foi ferido durante os 200 anos de produção.

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Workshop de Caligrafia

Eu sempre fui um apaixonado por letras, fontes, caligrafias e afins.

Entre o período Triássico e a era digital, houve uma época onde as pessoas marcavam letras com guache nos lay-outs das agências de propaganda.

Ainda bem que Steve Jobs e Bill Gates ajudaram a mandar esse trabalho tedioso, frio e perecível para a cova.

Não havia nada de artístico, caligráfico ou glamuroso em marcar letras para publicidade, e terminada a apresentação ao cliente, os layouts feitos com ecoline e as letrinhas em guache tinham o lixo como destino.

Mas eis que em pleno século XXI o interesse pelo trabalho manual, a necessidade de uma identidade visual mais humanizada e exclusiva, e o tédio que todas as coisas fáceis - como a edição digital - causam nas pessoas, a Fina Arte da caligrafia volta a ser cultuada.

Há estúdios de design e escolas especializadas em caligrafia, como a da Andréa Branco, onde no começo do ano houve um workshop com o calígrafo Cláudio Gil, integrante do Estúdio Marimbondo.

Cláudio Gil, Andréa Branco, e duas alunas.

(Clique nas fotos acima para ver o álbum no Flickr)

O workshop trabalhava os fundamentos da caligrafia tradicional, aventuras e improvisos da caligrafia experimental, juntamente com uma aula de História, como um episódio ao vivo do Discovery Channel.

Como diria Roy, o replicante: “Eu vi coisas que vocês não acreditariam”.

E trouxe para casa alguns troféus feitos pelo mestre, como as imagens acima.

Algumas penas de caligrafia são caras e raras de se encontrar no Brasil, como as Folded Pens. Na mesa central do workshop, entre penas importadas de todos os tipos, encontrei algumas de latinha de refrigerante, artesanais, como esta, que uma das alunas da Andréa Branco improvisou para fazer seus estudos caligráficos.

Eu também fiz a minha pena, mas utilizei uma tampa de lata de atum, que é feita com metal mais firme.

Com uma lixadeira orbital, dei o acabamento para a superfície de contato no papel ser o mais lisa possível, e até que não ficou ruim para uma primeira tentativa.

Eu estava ouvindo a música Minute by Minute do Larry Carlton, e acabei incorporando o refrão nos estudos com a nova pena.

Já a segunda tentativa já não deu tão certo assim. A idéia era fazer uma caneta do tipo automatic, para letras maiores, mas faltaram as ranhuras na dobra do metal. Já me sugeriram usar uma serra de joalheiro, e assim que eu fizer a experiência, eu acrescento o resultado neste mesmo post.

Um dia ainda vou comprar as penas importadas, mas nunca vou descartar minhas penas de latinha de atum.

De papéis velhos a sketchbooks com personalidade

Há um tempo atrás fui chamado para fazer uma ilustração para outdoors e folhetos do São Paulo Boat Show.

Um job interessante, um novo desafio, muito entusiasmo, e MUITO trabalho, em um original feito em óleo sobre tela, grande, com 1,20 m de largura.

Duas semanas intensas entre os rascunhos e a imagem final, amplos espaços reservados para o logo do evento, textos, diagramação planejada para utilização horizontal e vertical, enfim, eu estava radiante, a agência tinha gostado, mas… o cliente não aprovou.

Mais duas semanas editando a imagem escaneada em 12 partes, num arquivo imenso de Photoshop, sem sucesso. Pagaram mas não usaram.

Faz parte da vida de um ilustrador, é frustrante, dói no ego, mas quem está na chuva é para se queimar, como dizia Vicente Matheus.

Este quadro ficava guardado, intencionalmente escondido no quarto dos fundos, virado para a parede, de castigo eterno. Eu gostava da imagem, mas ela me trazia uma sensação amarga de derrota.

Bittersweet, diriam os gringos.

No dia em que fiz o workshop Diário Gráfico com o Renato Alarcão, ele me deu um insight inacreditável: “utilizem todos aqueles papéis antigos, retalhos, posters, etc, para fazer seus sketchbooks”.

Naquela mesma semana eu pude ter o imenso prazer de recortar esta tela em 8 partes, e dar um novo significado para aquele trabalho.

Empolgado com este novo “suporte”, aproveitei e retalhei também um segundo quadro que havia feito há mais de 15 anos, copiando cada pincelada de uma ilustração para aprender a técnica de um artista que admiro, Jeffrey Terreson, mas sem ter coragem de apresentar como meu.

Agora eu tenho um pouco mais de autoria sobre o trabalho, e o que seria uma tela “chupada” se estivesse na parede, se tornou uma série de imagens abstratas no meu sketchbook, entre folhas de papel Kozo para xilogravuras, papel Guarro e Fabriano para aquarelas, papel Carmem preto, papel Vegetal 90g, etc.

O verso das telas, manchados com a tinta a óleo atravessando o tecido, envelhecidos e feios enquanto estavam emoldurados, se tornaram superfícies levemente entonadas de amarelo-ocre, perfeitas para novos estudos.

Curioso pensar que estes papéis em formatos inteiros, impecavelmente guardados na mapoteca estavam amarelando, se perdendo sem uso, e no contexto do sketchbook, quando mais envelhecido e manchado, melhor.

Manchas senis no papel dão personalidade, autenticidade e maturidade ao caderno.

Até mesmo um calendário que ganhei em uma das lendárias festas de fim-de-ano da Gráfica Burti, com obras do Arthur Bispo do Rosário, entrou na dança.

Eu nunca teria coragem de jogar fora aquelas imagens impressas em papel couchê da melhor qualidade, e sem os sketchbooks, este belíssimo calendário e meus papéis importados acabariam se tornando refeição de carunchos na minha mapoteca.

As duas telas deixaram seus passados sombrios para trás, e hoje vivem na minha estante, como óvulos de proveta, aguardando a inseminação do próximo desenho.

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Pré-produção - Cheetos/Perseguição

Os bastidores de uma animação demandam muitas imagens conceituais, estudos, projetos, etc.

Depois de tudo produzido e com o filme no ar, restam vários trabalhos não publicados, que são interessantes para quem gosta de ilustração, e que não teriam como ser vistos, a não ser em um making-of ou blog.

No filme Cheetos/Perseguição, produzido pela Dínamo Filmes, a minha parte foram os storyboards (mostrados neste post anterior), os concepts dos personagens e model sheets.

Os concepts de floresta e vegetação são de Luiz Rosso.

Foram apresentados mais de 20 estudos preliminares, alguns foram escolhidos para uma fase seguinte, e outros foram descartados.
Neste caso, mesmo em um ambiente de video-game, não seria adequado associar o produto a armas de fogo.
O quadro com 5 opções foi feito em parceria com Camilo Saraiva, e algumas imagens tiveram estórias curiosas.
Em uma reunião o diretor do filme, Ricardo Carelli, me disse: “O monstrinho correndo foi aprovado, mas a gente quer o pai dele no filme”.
O gorila-robô-felino foi uma boa opção até o final, e como não entrou no filme, eu usei o personagem para um projeto pessoal.
O passo seguinte era criar o concept do menino, sua personalidade e suas roupas. O estudo incluiu até pesquisa sobre os modelos de tênis, corte de cabelo, tipo de jeans, etc.
Este foi o modelo aprovado.
Foram apresentados alguns modelos de gorila, híbridos com robôs, na reta final de escolha dos monstros do filme. Estes aqui chegaram a avançar bastante nas reuniões, até com estudos de como seria o encaixe entre a parte mecânica e animal, e por isto um dos gorilas mostra as costas e os detalhes da coluna, integrando tudo.
Mas a animação de uma horda de monstros com pernas mecânicas, com movimentos complexos, em um prazo curto, inviabilizou o uso do gorila-caranguejo.
Este foi o modelo aprovado, e sua anatomia permitiu que ele andasse em duas ou quatro patas, o que contribuiu muito na dinâmica e variedade da composição final.
Uma das cenas lembraria rapidamente o clássico video-game “Pitfall”, e o monstro aprovado para pular do buraco e atacar os heróis do filme foi apelidado de “Jacaruga” durante a produção.
A modelagem foi feita pela equipe de 3D da Dínamo Filmes, mas o Ork precisava de acessórios para reforçar o visual de video-game, que fiz no Photoshop, sobre a imagem do modelo feito no Maya.
Os model-sheets são a parte técnica da criação dos personagens, e exigem muito cuidado e precisão nas projeções ortogonais.
É como se fossem criadas plantas baixas de arquitetura para cada modelo, de frente, lado e costas (às vezes uma vista adicional por cima também é necessária), para que os modeladores tenham a base para criar o boneco em 3D.
O estudo de anatomia humana ajudou muito na criação do Ork. Toda a estrutura física dele é uma distorção da musculatura humana, e eu me lembrei do nome de cada músculo ao desenhar este personagem.
Eu acho que não dá para distorcer ou “desconstruir” o que a gente não conhece.
São várias semanas de trabalho, com uma equipe altamente especializada, para realizar um filme de 30 segundos.
Uma cena de um ou dois segundos pode ter exigido vários dias e noites, de dúzias de pessoas, para ser realizada.
Cada profissional é parte indispensável do processo, um elo da corrente, começando das primeiras reuniões para estudo do briefing, passando pela decupagem do roteiro em quadros de storyboard, pré-produção, produção, e terminando na pós-produção, com edição de imagens, sincronização, correção de cores, enfim, são dezenas de etapas até que o filme esteja no ar.
Encurtando uma longa estória, é intenso, desgastante, mas absolutamente fascinante.

Storyboards fora da gaveta

Este parece ser um lugar interessante para postar os trabalhos não publicados.

O storyboard é o princípio da maioria dos comerciais de TV, parte importante da pré-produção, mas logo que termina esta fase e começa efetivamente a produção do filme, estas imagens perdem a sua função e vão para a gaveta, ou melhor, para o HD de backup, que também vive na gaveta, enfim.

Estes quadros tem uma vida útil muito curta, mas nada impede que eles voltem a ver a luz do dia no blog de um ilustrador, e sejam vistos por um público que raramente teria acesso a estas imagens de outra forma.

Estes quadros foram feitos para um comercial de Cheetos, para a Dínamo Filmes, no ano passado.

Depois de aprovados, fiz os concepts dos monstros, do menino, e os model sheets, mas isto é assunto para um próximo post.


Letras vivas

Há muitos anos tenho feito, quase sem perceber, um tipo de letra que pede para ser trabalhada, desenvolvida, amadurecida. Como são poucas as oportunidades de desenvolver um trabalho de Typefont, eu dediquei pouco tempo para atender aos seus pedidos.

Mas ela é persistente, e quer entrar nas minhas páginas.

Quer existir.

Quando apareceu um projeto pessoal, a convite do Gualberto “HQMix” Costa, ela apareceu antes do desenho, e ganhou seu espaço no título da minha página, na estória em quadrinhos coletiva O Crime do Teishoku Preto. (© fotos: Mario Cau)

Duas semanas depois, outro projeto de liberdade criativa: este blog. Qual o nome ideal para um blog? Qual é o tema, a personalidade deste espaço? Que identidade visual ele vai ter?

Quando encontrei o fio da meada, pelo menos nos conceitos de conteúdo e visual, o quebra-cabeças ainda tinha duas peças por completar, o nome e o logo.

Minha esposa sugeriu o nome “Sketcharia”, que imediatamente fez clic, e agora restava só uma peça.

Eu troquei uma letra, e na manhã seguinte, antes que eu pensasse em um rascunho, a Typefont pulou no papel com vida própria, vestida de arte-final.

E me mostrou claramente a que veio, o papel em que ela fica melhor, suas canetas preferidas, adora uma moldura branca ou preta, e me fez entender sua importância no meu repertório visual.

Por fim demarcou seu território: os sketchbooks.

É óbvio, ela é uma Typefont de sketchbook, como eu não vi isto antes?

Muitos ilustradores tem seus personagens, habitantes vivos de seu mundo gráfico, reconhecíveis em qualquer técnica. O mesmo acontece com suas caligrafias, que tem a cara e a alma do autor.

Esta Typefont acaba de entrar na minha vida como um bicho de estimação, e só faltou abanar as serifas quando molhei as letras com aquarela.

Ela vai ter um leve sotaque de Uncial, principalmente nos As e Es, mas talvez se chame Garamonta, por influência da Garamond e suas serifas arredondadas, sua elegância comprida como as pernas da Gisele Bundchen. Também tem muito das garatujas, desenhos feitos nos cantos do papel, sem muito rigor, mas cheios de expressão e vitalidade. E tem meu apelido, o atalho do meu nome.

Quando a gente dá nome ao bichinho, não tem mais volta. Vira pet, vai pular no seu colo, dormir na sua cama, lamber sua cara, e vai trazer a coleira na boca, pedindo pra passear.

Neste caso, vai ser a caneta, e já sei que não vou conseguir negar os passeios no sketchbook.


Reinventando a roda

O pioneirismo às vezes está na soma de elementos já existentes, e não necessáriamente na invenção de uma nova técnica.

O filme Madame Tutli-Putli , feito no National Film Board do Canadá, explora uma combinação entre stop-motion e live-action, editados de forma que cada cena dos bonecos, animados quadro a quadro, seja sobreposta com olhos humanos filmados da forma tradicional, trazendo um resultado realmente impressionante na expressividade dos personagens.


Sujando os dedos

Às vezes eu sinto falta da tinta, da tranqueirada espalhada na mesa, do cheiro de tinta a óleo, terebentina e emulsões que fazem a gente parecer mais um cientista louco, um alquimista medieval do que um ilustrador digital.

Entre um job e outro tem dias que dá pra sujar os dedos fazendo novos sketchbooks, usando as técnicas ninjas de encadernação do Renato Alarcão, que entre outras coisas inclui martelar com formão, rasgar papel com o canto da régua, furar e costurar com um agulhão de vacinar rinoceronte.

Tudo começa na tinta a óleo espalhada na mesa com o rolinho

O próximo passo é desencadernar um belo anuário de fotografia e tascar o rolinho cobrindo tudo que for imagem reconhecível, preservando as áreas planas das fotos.

Deixe a tinta secar e monte as sequências dos cadernos

Com a agulha de vacinar rinoceronte e a linha de empinar asa delta, costure os cadernos intercalando tiras de couro de síndico para montar nas capas.

Preparar as capas, usando papel paraná encapado com aqueles calendários enormes da Burti, que você ganhou há anos, e nunca teve coragem de jogar fora.
Abrir os cortes laterais martelando com o formão até algum vizinho chamar a polícia. Dizer na cara dura que o barulho não é da sua casa e continuar no dia seguinte.

Como disse meu filho, do alto de sua sabedoria, aos 5 anos : “Ficou bonito, pai. Agora é só desenhar, né?”.

Estas costuras foram feitas com linha de pescar, do tipo “fly fishing“. É como se fosse uma miniatura de corda de alpinismo, trançada com fios de nylon bem finos.
Ao invés das fitas de couro, no caderno branco foram usados passadores de uma velha calça jeans.

Neste aqui eu usei encordoamento de raquete de tênis. Ficou bem legal.

O macete usado para transformar velhas camisetas em capas maneiríssimas: cola branca.
Depois é colar em papel paraná, cortando as margens para encaixar na parte interna.

Crie seus cadernos com moderação, a bagaça vicia.


Bistecão Ilustrado na TV Trip

No final de Agosto os ilustradores de SP, no encontro mensal chamado Bistecão Ilustrado, receberam o pessoal da Revista TRIP para gravar uma reportagem do evento.

Entre os que encararam as lentes estavam Kako, criador, corpo e alma do evento, Hiro Kawahara, Domingos Takeshita e eu, desenhando costelas flintstônicas.