Desde agosto do ano passado o Kako trouxe uma novidade para o Bistecão Ilustrado, o encontro mensal dos ilustradores: toalhas de mesa em papel kraft, para os convivas desenharem até se fartar.
O que fazer com as folhas ricamente ilustradas foi um dilema, mas às 4 da matina encontramos uma solução: sketchbooks personalizados. Vai dar trabalho? claro! Mas vai ser legal, vamos criar algo realmente inédito e duradouro.
Inventamos, planejamos e fizemos.

Desde dezembro sorteamos 4 cadernos a cada encontro.

Com o tempo, a dedicação e o besteirol de Christiano Parentoni, Gil Tokio, Márcio Guerra, Alex Cói e este que vos brinda atrás das lentes, foi formado o primeiro de vários grupos de voluntários com boa vontade transbordando pelos poros para fazer a linha de montagem dos cadernos.

Eu já perdi a conta das horas investidas para fazer os presentes que se tornaram um objeto de desejo para todos os frequentadores do Bistecão, e esta energia boa só faz aumentar a cada caderno produzido.
Temos muito orgulho em sermos os protagonistas de uma mudança de paradigma que dizia que “ilustrador não é unido”. Estamos formando um novo modelo de relacionamento entre os ilustradores, e só daqui há alguns anos saberemos se tudo correu conforme os planos.
Estamos apenas mudando as regras do jogo, inventando o futuro de acordo com nossos ideais.
Também não podemos dizer que foi fácil, o sucesso nunca é obra do acaso, da preguiça ou da omissão.
Tivemos um imenso prazer em construir e ampliar a rede de amigos através do Bistecão, e ralamos muito para que tudo desse certo.
Temos uma coisa como meta, ainda que seja modesta: um dia todos os frequentadores do Bistecão terão seu caderninho personalizado, numerado, e recheado de desenhos feitos durante o encontro.

É claro que virão também nódoas de gordura de uma suculenta bisteca maior que o prato, ou de uma cebola voadora qualquer, folhas enrugadas e manchadas por um eventual banho de cerveja, e até palitos de dente espetados ou um arrozinho solitário colado nas páginas.
Coisas que só dão mais charme, personalidade, individualidade e autenticidade a cada caderno, que jamais será igual um ao outro.
O sketchbook do Bistecão é a materialização da mudança daquele paradigma velho e improdutivo que manda os ilustradores serem individualistas, tristes e isolados em seus estúdios, imersos em seu autismo artístico.
O caderninho artesanal, gratuito, exclusivo, é a meta-linguagem do encontro alimentando o próprio encontro, devolvendo a energia entregue pelos frequentadores, em forma de presente, aos próprios frequentadores.
A amizade, a magia de cada encontro, aquelas horas que passam voando, todas as risadas, a voz do Kako sorteando os presentes, tudo isto está impregnado em cada folha dos cadernos.
Nossos netos poderão explicar melhor o que significa ter um sketchbook numerado do Bistecão. Por enquanto ninguém é capaz de ter a noção exata do valor histórico de cada um deles.

O Orlando fez este desenho belíssimo, mesmo sabendo que um dia vai ser cortado e virar sketchbook. Um verdadeiro Ninja na arte do desapego material.

Cada folha, toda folha, vai virar sketchbook. Esta é uma regra que nunca será quebrada.
Não tem uma que escape, por mais belo ou tosco que seja o desenho, por mais importante ou desconhecido que seja o desenhista, todas elas, sem exceção, viram caderno.
Até mesmo as que foram rasgadas ou cortadas por algum convidado vão para os cadernos, nada será poupado. Temos várias folhas faltando pedaços, e isto também faz parte da materialização dos nossos encontros.
Mas em algum momento da festa umas poucas pessoas perdem o senso de coletividade, e uma atitude egoísta bate mais forte. Nesta hora o cara não quer saber dos outros, não respeita ninguém, nem a ele mesmo, mete a mão e leva pra casa uma coisa que era para ser de todos.

Justamente a folha que tem escrito “10 APEGO” teve uma naca enorme levada embora. Que ironia, não?

Não foi a primeira vez, nem será a última. Inteiras ou aos pedaços, estas folhas vão para os cadernos.
Elas são parte da gente, mesmo que sejam um reflexo feio e distorcido num espelho quebrado, é a nossa cara que está ali.
Desenhar nas toalhas é um exercício de desapego, assim como cortar as folhas na hora da encadernação. Eu cheguei a dividir esta angústia com os amigos neste post.
Aos que se apegam demais aos seus rascunhos, sugiro desenhar no próprio caderno. Seria melhor deixar as toalhas para quem já domina a difícil Arte do desapego.
O caderno de cada um não tem preço, é um tesouro pessoal. My preeeeeciousssss…
Sabemos respeitar isto, e jamais rasgaríamos o caderno de um amigo, principalmente na cara dele.
Mas há os que rasgam o feto do que ainda será um caderno, na cara dura, sem o menor pudor, e nem ficam vermelhos por isto.
O mundo dá voltas, e existe a possibilidade que no dia em que você ganhar o seu caderno, justamente o seu, caramba, venha faltando um pedaço. Talvez seja exatamente aquele pedaço que você viu um cara levar, e você não fez nada para impedir.
Com tanta tecnologia, câmeras digitais, celulares de última geração, etc, bastaria um clic para levar aquele desenho para casa.
Sem falar que cada folha é fotografada antes de ser cortada, o registro não se perde, e um dia estará acessível pela web.
Outra coisa misteriosa são as canetas Posca se tornarem invisíveis depois de algumas horas.
Sabe aquelas canetas com um adesivinho escrito a mão “BISTECÃO ILUSTRADO”, que o Kako compra com o dinheiro extra da caixinha paga pelos convivas e empresta aos convidados para que desenhem nas folhas?
Então, aquelas mesmo.
Elas se teletransportam sozinhas para algum lugar insondável, ou talvez sejam abduzidas por aliens, sei lá.
Mas o fato é que nenhuma das desaparecidas jamais retornou para relatar a experiência. Pode parecer um tanto estranho, meio bizarro, tipo Arquivo X, mas acontece de verdade, juro.
A gente sabe que ninguém levaria material dos outros para casa, não temos ladrões entre nós, somos todos colegas, parceiros, amigos.
Mas chega no fim da festa, a gente nunca encontra todas as canetas. Elas devem estar em algum lugar, mas onde? Talvez tenham passado por alguma fenda do espaço-tempo ou coisa parecida, e se perdem para sempre em outra dimensão.
Eu vou confessar que tenho medo deste lance.
Vai que a gente enfia o pé, ou pior, as mãos nesta parada aí? Aí o braço fica só um cotoco… sem dor, sem sangria, mas também sem poder desenhar nunca mais, sem aposentadoria, sem seguro contra acidentes pessoais…
Tá louco, dá calafrios só de pensar!
Um dia vou chamar uma equipe do Discovery Channel para fazer uma reportagem especial sobre isto.
Mas por outro lado estamos orgulhosos e felizes por espantar o fantasma da desunião dos ilustradores, de criar um presente e um futuro melhor para os nossos colegas de profissão, e de sermos os criadores e as criaturas de um renascentismo contemporâneo, criativo, prolífico, repleto de frutos e de novas possibilidades.
Ainda temos nossos defeitos, nossas vaidades, nossos egoísmos, afinal somos humanos, e o maldito jeitinho brasileiro, mesmo que moribundo e agonizante, mostra sua cara feia de vez em quando.
Ele está em cada página rasgada dos nossos caderninhos, em cada caneta que passa para a outra dimensão, em cada conta mal-fechada nos botecos da vida, nos lembrando que ainda falta muito chão para sermos verdadeiramente unidos, coesos, irmãos.
O jeitinho brasileiro tentou estragar o Sketchcrawl Brasil, quando faltou R$ 70,00 na conta do Bar Genésio. Passamos pelo constrangimento de fazer uma vaquinha de R$ 0,50 para poder sair do restaurante, mas isto não tirou o brilho do evento.
A nossa conquista é sempre maior que estas mancadas, e é exatamente este o nosso objetivo, construir mais que destruir, e modéstia às favas, estamos fazendo isto muito bem.
Parabéns e obrigado a todos que constroem.
Espero que os outros acabem sendo influenciados por esta boa energia, e possam experimentar o mesmo tesão que nós sentimos em somar e unir, ao invés de dividir.
Parece uma cleptomania às avessas, uma vontade incontrolável de entregar, ao invés de tomar dos outros.
O barato é tão forte que vicia. A gente sempre quer mais e mais.
Nem vem, eu não vou procurar auxílio médico!
Eu estou bem assim!
