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Sketchcrawl + Virada Cultural = 38 horas no ar

Conforme prometido, fizemos uma rave ilustrada, emendando os dois eventos em uma verdadeira maratona de desenho, música, estudo e diversão.

Não quero fazer deste post o “meu querido diário”, detalhando cada passagem das 38 horas que me mantive acordado, mas alguns momentos marcantes merecem o registro.

Tivemos uma tarde ensolarada, inspirada e cheia de pequenos causos, registrados pela equipe da Rede Globo, que nos concedeu uma reportagem sobre o evento. Saindo do Pátio do Colégio, terminamos o dia no Café Girondino, na frente da praça da Igreja de São Bento, um lugar confortável, com ótimo atendimento e altamente desenhável, que precisamos frequentar mais vezes.

De lá mergulhamos na Virada Cultural, cada um foi procurar seu palco preferido, sua tribo e sua música. Eu dei uma passada no show do Hermeto Paschoal, mas segui logo para ver a banda cover do Frank Zappa. Não era nenhum Central Scrutinizer Band, é claro, mas mandaram bem.

No meio do show eu não me aguentei, virei a mochila para a frente, fazendo uma pequena bancada, e registrei o momento em um sketch, em meio aos altos decibéis disparados do palco.

Fiz o mesmo às 3:30 da madruga, durante o show do Living Color, e acho que descobri mais um dos pequenos prazeres que fazem a vida mais gostosa, desenhar durante os shows.

Assistir Carmina Burana na performance impecável da Orquestra Sinfônica Municipal e Coral Lírico foi arrepiante. Nem vou tentar descrever a minha sensação, além dos pelos eriçados. Foi incrível, indesenhável.

Segui as dicas do Victor Farat, Fábio Corazza e Aline Paes, amigos/ilustradores que estavam curtindo a Virada também, e fui assistir ao show do veteraníssimo Booker T, um dos melhores shows da noite.

Encontrar amigos entre 4 milhões de pessoas não é uma tarefa fácil, é obra do acaso mesmo, e algum alinhamento de planetas permitiu que eu fizesse isto diversas vezes durante a noite. Deve haver algum chakra (não me pergunte qual, nem de que cor ele é) que se abre nestas ocasiões, e que torna as pessoas mais receptivas, mais alegres e envolvidas em uma sintonia que nos alimenta, revigora e nos mantém despertos pela noite adentro.

Eu pulei o almoço, o jantar, e foi me bater uma fominha só depois das 2:00hs da manhã. Curiosamente não tive frio nem sono durante a noite. Teve gente que me perguntou qual é o segredo, que raio de Duracell eu ando usando, mas é tudo resultado da extrema motivação que tenho ao participar destes eventos, e da energia positiva que emana da companhia dos amigos.

Nem RedBull com plutônio dá mais energia do que estar em boa companhia, rindo e curtindo boa música.

Saímos do centro para tomar café da manhã na Bella Paulista, com o Kako, para recepcionar o Renato Alarcão, que tinha chegado do Rio, e passamos a tarde fazendo uma das mais intensas sessões de modelo vivo que eu já participei.

Foi mais uma oficina de alta produção, insights, e desafios, orquestrada pelo Alarcão e performatizados virtuosamente pela modelo Jully Campeão. Mais do que uma dançarina, ela é uma verdadeira designer, usando o corpo com maestria de artista, e suas poses personificavam a proposta do estudo: “Desenho Dinâmico”.

Terminei a maratona de volta ao centro, em companhia do colega Márcio Guerra, assistindo aos 4 cantores populares de Cantoria: Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai.

Confira aqui o post da participação paulista no evento mundial, e veja neste link os trabalhos dos desenhistas de outras partes do mundo.

No fim o post ficou longo, mas é um breve resumo de 38 horas de intensa atividade, uma rave ilustrada, conforme planejada na semana passada.

Não vejo a hora de repetir a façanha.

Quem topa?

Jaco Pastorius, Milton Glaser, Pat Metheny e desenho

Outro dia eu postei dois videos muito inspiradores, do Milton Glaser, e um deles terminava com uma frase sensacional, que a nossa profissão permite que a gente se fascine e se inspire com o trabalho dos outros, sempre, não importa quanto tempo tenha de carreira, a admiração e a energia que ela contém nunca acaba.

É um grande privilégio trabalhar em uma profissão que mantém o frescor e a vitalidade de se deixar arrebatar, por anos e anos, sabendo que esta sensação maravilhosa não tem prazo de validade.

Eu vivo esta realidade todos os dias, e algumas vezes eu me deixo embriagar pela admiração que eu tenho por alguns artistas. Um deles é Pat Metheny, um guitarrista de um talento incrível, de composições que atravessam a alma, e contam longas estórias sem palavras.

Pode ser viagem minha, mas a música de Pat Metheny me inspira profundamente, e já me acompanhou em inúmeras noites viradas de ilustração e pintura, criando novas sinapses, falando a língua do inconsciente, calando o meu cérebro racional e liberando o cérebro criativo.

Outra noite eu estava assistindo o DVD More Travels, e a cada cena dava um pause eu pensava: “putz, que cena legal, preciso pintar isto…”, até que eu parei de assistir passivamente e resolvi estrear o Moleskine cravado na estante, novinho, impecável, que tanto me intimidava há meses. Espalhei algumas tintas acrílicas na mesa, e resolvi fazer algumas experiências que jamais faria em papéis importados ou em trabalhos com prazo de entrega. Afinal os sketchbooks são o território perfeito para mergulhar no desconhecido.

Grafite, solvente, pincéis grandes e pequenos, secador e tinta acrílica, tentando capturar das cenas do DVD o fascínio que a Arte de Pat Metheny sempre me causou.

Eu tive um certo receio em mostrar estas imagens, porque elas vão contra o que tenho falado e criado em meus sketchbooks, o desapego pelo trabalho primoroso, a necessidade de soltar a mão e não fazer imagens com “cara de portfolio”, mas esta foi de fato uma aventura, uma experiência nova e surpreendente, mesmo carregando um certo preciosismo.

Não há nada de novo, criativo ou autoral nestes trabalhos, mas o processo, a experimentação da técnica e a captura de um estado de espírito é o que me motivou neste caso.

Estes 3 estudos foram feitos em duas noites consecutivas, das 11:00hs as 02:00hs mais ou menos. Depois a rotina se incumbiu de matar a motivação para continuar neste ritmo por vários meses.

Preciso voltar a atacar o Moleskine com esta mesma energia, estas são as únicas imagens que fiz nele, até agora.

A energia criativa do fascínio é tão poderosa quanto volátil, se não for capturada e transformada imediatamente em algo material, palpável, ela te abandona com a mesma velocidade e intensidade que chegou, e em uma fração de segundo voltamos a viver a banalidade do mundo real, chato e monótono do dia-a-dia, sem nada que nos lembre daquela sensação poderosa, que alguns chamam de “inspiração”.

Eu não gosto, não confio e nem costumo usar este termo, eu prefiro acreditar no “fazer”, quando a vontade de realizar é maior que a preguiça, ou que os desvios de foco das nossas obrigações mundanas.

A vida fica nos testando a perseverança o tempo todo, nos brindando com o prazer intoxicante dos momentos criativos, mas nos atropelando com a realidade no instante seguinte. E dá-lhe contas para pagar, horários para cumprir, e coisas importantes para fazer.

Basta o som do telefone ou a lembrança de um compromisso qualquer para despedaçar a magia, arrancar a gente do estado de sonho desperto e nos derrubar de volta à realidade.

A gente tem mais é que roubar neste jogo mesmo, e levar o caderninho pra todo lado, desenhar no restaurante, na fila do banco, no farol vermelho e até no banheiro. Se não for assim, a vida nos rouba a magia de se deixar fascinar, e isto é uma perda imensa, irrecuperável.

Hoje eu tive mais um destes momentos mágicos, quase sem querer, enquanto meu filho brincava no computador e eu rabiscava à toa, ouvindo música no outro computador ao lado dele.

Pat Metheny novamente me ajudou a desligar o lado racional dos meus miolos, e eu deixei a música Jaco rolar em loop por algumas vezes, enquanto desenhava thumbnails com uma bic em papel jornal, e contava quem era Jaco Pastorius para meu filho. Resolvi procurar algumas fotos dele no Google, e acabei rabiscando algumas coisas interessantes, postadas aqui, afinal faz tempo que não coloco desenhos novos no blog.

Vou me permitir ao fascínio que cultivo aos meus ídolos mais vezes, e sempre que possível vou tentar traduzir estes momentos em desenhos, estudos, rascunhos e pinturas.

Sr. Milton Glaser, obrigado por confirmar o que eu sempre quis acreditar sobre a minha paixão pelo desenho: ela é constante, intensa e infinita.

Virada cultural 2009

Off topic logo na segunda-feira?

Nem tanto.

No dia da abertura da Virada Cultural acordei determinado a passar dois dias desenhando a cada oportunidade que aparecesse, e comecei no café da manhã. Mas ainda não estava acelerado o suficiente, eu tenho a tendência de esticar um rascunho por quase uma hora, um hábito que preciso combater com muito desenho, torrando folhas e mais folhas do sketchbook.

Chegando no evento eu me preparei para exercitar o desenho mais desencanado, acelerado, rascunhão mesmo.

E nem poderia ser diferente, por causa da dinâmica do ambiente. Ninguém ficava parado por mais de 30 segundos, e mesmo que ficasse, sempre aparecia alguém na frente, então tinha que ser rápido mesmo, e contar com a memória visual.

Mesmo a fila mais demorada que peguei, cerca de uma hora e cinquenta, andava, e isto me fazia desenhar em modo acelerado.

Conceitos que vou aplicar no workshop de técnicas de sketchbook que começam neste mês.

Para o meu desespero, os portões do Municipal fecharam com mais de 200 pessoas na fila à minha frente. Parti para o plano B, e peguei a primeira fila do telão, instalado na frente do teatro.

O som estava bom, e tive várias câmeras oferecendo diversos ângulos excelentes para desenhar, e a cada troca de cena eu começava um rascunho novo, em 3 sketches simultâneos.

Ficou tosco…

Que bom!

Eu experimentei um novo formato ao desenhar em um ambiente diferente, inusitado. Desenhar fora do estúdio, longe da sua área de conforto, à noite, com gente esbarrando no seu braço, e até mesmo andando, foi uma experiência nova, e estou certo que vai ser moleza voltar a desenhar em lugares mais adequados.

O evento foi fantástico, vi Egberto Gismonti, Cama de Gato, Zeca Baleiro, Francis Hime com orquestra e Central Scrutinizer (banda que faz cover impecável do Zappa), mas o Ike Willis não era cover, ele tocou e cantou com o “homi” por vários anos.

Estive na livraria HQ MIX do Gualberto Costa e sua esposa Daniela Baptista, e encontrei vários amigos por lá, entre eles Salvador Messina (em pé), na foto com o dono da casa.

Se você ainda não conhece a livraria, não sabe o que está perdendo, aquilo é o paraíso, a perdição, um templo de luxúria, lotado de objetos de desejo para quem gosta de quadrinhos e Arte em geral.

Dos livros e revistas que a gente gosta, a livraria HQ MIX tem tudo e mais um pouco.

E como lá se tornou um ponto de encontro de desenhistas, terminei a madruga de sábado entre amigos, desenhando um paper toy art do Grandpa Munster, o vovozinho da Família Monstro.

Ele tinha um restaurante no Greenwich Village em Nova Iorque chamado Grandpa’s, onde atendia os clientes pessoalmente, vestido e maquiado como nos filmes. Quando se candidatou a prefeito da cidade, ele disse: “Nós não herdamos o mundo dos nossos ancestrais, nós o tomamos emprestado de nossas crianças”.

Outros artistas fizeram suas contribuições, entre eles o Spacca com seu traço inconfundível.

Voltando ao off topic, as fotos que tirei na Virada Cultural estão no Flickr da Sketcheria, inclusive algumas da Estação da Luz, onde havia uma exposição de carros antigos e uma bucólica senhorinha tocando piano em um dos saguões da estação.

O espaço de música instrumental decepcionou, por ter sido confinado à rua Conselheiro Crispiniano, com um ar intoxicante devido aos geradores de energia movidos à diesel.

Suportei apenas o primeiro show com Daniel Daibem tocando samba-rock na banda Hammond Blues, batizada assim por ter um tecladista com um órgão legendário com este mesmo nome. Este instrumento ficou mais legendário ainda, depois de ter sido tocado por Jon Lord (Deep Purple) em um show que eu perdi naquele mesmo dia, infelizmente. Se eu soubesse, teria começado exatamente nesta apresentação.

Uma decepção que me fez ir passear lá longe (no começo da segunda música) foi o citarista Alberto Marsicano tocando músicas de Jimi Hendrix. Eu já tinha visto um recital de cítara em um centro de estudos indiano com ele, muito legal, mas desta vez ele pirou grandão.

Banda ruim, deprê, som monótono, chão colando, a ripaiada amontoada em coma na grama, e o som da cítara ecoando na praça feito pernilongossauro gigante, agonizando em uma looonga bad trip de Detefon com marofa.

Fui tomar café no outro lado da cidade, ouvindo piano na Praça dom José Gaspar.

4 milhões de pessoas no Centro de SP tornam a paisagem em algo quase surreal, é uma multidão mesmo, no sentido mais literal da palavra, e a cidade sofreu com isto. No final do domingo os amontoados de lixo tentavam minimizar o estrago, mas o chão colava no solado e a quantidade de gente caindo pelas tabelas mostravam o lado feio da festa.

Só mesmo o som de Frank Zappa para me fazer aguentar corajosamente esta maratona até o final, em que eu tive apenas duas horas de sono e um banho apressado entre o primeiro e o segundo dia.

Mas no ano que vem estarei lá novamente.

Sketchcrawl Brasil - Novo recorde mundial: 154 participantes em SP

Este foi meu único desenho inteiro do Sketchcrawl, outros dois ficaram inacabados, mas tudo bem, esta é a proposta mesmo, e não ter a obrigação de finalizar também é parte da magia do encontro.

Depois do Sketchcrawl tive duas semanas corridas com trabalho e um feriado dedicado à família e ao ócio criativo, portanto o blog ficou uma semana sem updates pela primeira vez, mas provavelmente pela última.

As atualizações voltam a acontecer pelo menos 2 ou 3 vezes por semana.

O ideal para este post seria detalhar o encontro, contando as maravilhas do Sketchcrawl em diversas partes do Brasil e do mundo, que batemos nosso recorde de participantes em SP pela segunda vez consecutiva (arriscando bater novamente no próximo, que acontecerá no centrão da cidade), que o Enrico Casarosa não foi para o encontro em San Francisco por causa de uma baita gripe, mas que ele publicou um livro de 40 páginas com seus desenhos feitos nos outros Sketchcrawls, enfim, assunto sempre tem, mas em tempos de comunicação em tempo real, duas semanas fazem um post ficar desinteressante, datado, quase velho. Quem diria.

O blog do Hiro e o website da Bullet postaram na semana seguinte ao evento, vale a pena conferir.

Então apenas para não passar batido pelo assunto, e dar alguma satisfação aos visitantes da Sketcheria, ávidos por imagens, cheios de paciência para ler meus textos, vou fazer um comentário econômico, redundante e totalmente previsível:

“Foi muuuito legal…”

Tá bom, foi exageradamente econômico, mas foi sincero. Eu realmente não consigo escrever pouco…

154 participantes compareceram em São Paulo, mesmo sendo um feriado de Páscoa, e todos se divertiram muito, trocando mais informações do que eu posso imaginar. É impossível conversar o suficiente com todos, mesmo em quase 12 horas de Sketchcrawl. Eu desenhei pouco, mas me diverti muito, indo de grupo em grupo, curtindo os papos e os desenhos de quantas pessoas eu pude me aproximar.

Tudo terminou em pizza, no Macedo, e dois colegas saíram antes desta foto, mas brindamos a todos, presentes e ausentes do Sketchcrawl.

Temos novas imagens no Flickr do Sketchcrawl Brasil, que já ultrapassou os 15.000 acessos desde que foi criado em janeiro!

Lá estão as minhas 250 fotos, meu único desenho, mas em compensação há trocentas novas imagens dos colegas que conseguiram se concentrar mais no sketchbook e render uma produção bem melhor que a minha.

Aqui podem ser vistas as fotos e imagens de São Paulo no fórum oficial do evento.

Estes foram os produtos doados por vários participantes do evento. Nem todos sabiam da doação para a Casa Maria Helena Paulina, um instituto assistencial que trata de crianças carentes com câncer.

Ainda há tempo de fazer sua doação. Basta enviar um e-mail para wwsc.brasil@gmail.com e combinar o envio.

Não deixe de conferir o Fórum Internacional do Worldwide Sketchcrawl, onde pessoas do mundo inteiro estão postando fotos, sketches e as estórias do dia do encontro. Conheça as cidades através do olhar dos outros artistas que foram às ruas no mesmo dia que nós!

Para ter suas fotos no Flickr do Sketchcrawl Brasil, as fotos devem ser enviadas no tamanho máximo de 1024 pixels para wwsc.brasil@gmail.com , e quem quiser se manter informado sobre os próximos encontros (Sketchcrawl mundial ou mini-encontros ocasionais) basta enviar mensagem em branco para Sketchcrawl_Brasil-subscribe@yahoogrupos.com.br , e assim estará inscrito automaticamente na lista YahooGroups do evento.

Há um post aqui na Sketcheria com todos os links sobre o evento, reportagens, fóruns, etc, e eu coloquei um link permanente que leva a este mesmo post no lado direito do blog, em Sketchcrawl Brasil - Todos os links do evento.

O mistério das toalhas rasgadas e canetas que somem

Desde agosto do ano passado o Kako trouxe uma novidade para o Bistecão Ilustrado, o encontro mensal dos ilustradores: toalhas de mesa em papel kraft, para os convivas desenharem até se fartar.

O que fazer com as folhas ricamente ilustradas foi um dilema, mas às 4 da matina encontramos uma solução: sketchbooks personalizados. Vai dar trabalho? claro! Mas vai ser legal, vamos criar algo realmente inédito e duradouro.

Inventamos, planejamos e fizemos.

Desde dezembro sorteamos 4 cadernos a cada encontro.

Com o tempo, a dedicação e o besteirol de Christiano Parentoni, Gil Tokio, Márcio Guerra, Alex Cói e este que vos brinda atrás das lentes, foi formado o primeiro de vários grupos de voluntários com boa vontade transbordando pelos poros para fazer a linha de montagem dos cadernos.

Eu já perdi a conta das horas investidas para fazer os presentes que se tornaram um objeto de desejo para todos os frequentadores do Bistecão, e esta energia boa só faz aumentar a cada caderno produzido.

Temos muito orgulho em sermos os protagonistas de uma mudança de paradigma que dizia que “ilustrador não é unido”. Estamos formando um novo modelo de relacionamento entre os ilustradores, e só daqui há alguns anos saberemos se tudo correu conforme os planos.

Estamos apenas mudando as regras do jogo, inventando o futuro de acordo com nossos ideais.

Também não podemos dizer que foi fácil, o sucesso nunca é obra do acaso, da preguiça ou da omissão.

Tivemos um imenso prazer em construir e ampliar a rede de amigos através do Bistecão, e ralamos muito para que tudo desse certo.

Temos uma coisa como meta, ainda que seja modesta: um dia todos os frequentadores do Bistecão terão seu caderninho personalizado, numerado, e recheado de desenhos feitos durante o encontro.

É claro que virão também nódoas de gordura de uma suculenta bisteca maior que o prato, ou de uma cebola voadora qualquer, folhas enrugadas e manchadas por um eventual banho de cerveja, e até palitos de dente espetados ou um arrozinho solitário colado nas páginas.

Coisas que só dão mais charme, personalidade, individualidade e autenticidade a cada caderno, que jamais será igual um ao outro.

O sketchbook do Bistecão é a materialização da mudança daquele paradigma velho e improdutivo que manda os ilustradores serem individualistas, tristes e isolados em seus estúdios, imersos em seu autismo artístico.

O caderninho artesanal, gratuito, exclusivo, é a meta-linguagem do encontro alimentando o próprio encontro, devolvendo a energia entregue pelos frequentadores, em forma de presente, aos próprios frequentadores.

A amizade, a magia de cada encontro, aquelas horas que passam voando, todas as risadas, a voz do Kako sorteando os presentes, tudo isto está impregnado em cada folha dos cadernos.

Nossos netos poderão explicar melhor o que significa ter um sketchbook numerado do Bistecão. Por enquanto ninguém é capaz de ter a noção exata do valor histórico de cada um deles.

O Orlando fez este desenho belíssimo, mesmo sabendo que um dia vai ser cortado e virar sketchbook. Um verdadeiro Ninja na arte do desapego material.

Cada folha, toda folha, vai virar sketchbook. Esta é uma regra que nunca será quebrada.

Não tem uma que escape, por mais belo ou tosco que seja o desenho, por mais importante ou desconhecido que seja o desenhista, todas elas, sem exceção, viram caderno.

Até mesmo as que foram rasgadas ou cortadas por algum convidado vão para os cadernos, nada será poupado. Temos várias folhas faltando pedaços, e isto também faz parte da materialização dos nossos encontros.

Mas em algum momento da festa umas poucas pessoas perdem o senso de coletividade, e uma atitude egoísta bate mais forte. Nesta hora o cara não quer saber dos outros, não respeita ninguém, nem a ele mesmo, mete a mão e leva pra casa uma coisa que era para ser de todos.

Justamente a folha que tem escrito “10 APEGO” teve uma naca enorme levada embora. Que ironia, não?

Não foi a primeira vez, nem será a última. Inteiras ou aos pedaços, estas folhas vão para os cadernos.

Elas são parte da gente, mesmo que sejam um reflexo feio e distorcido num espelho quebrado, é a nossa cara que está ali.

Desenhar nas toalhas é um exercício de desapego, assim como cortar as folhas na hora da encadernação. Eu cheguei a dividir esta angústia com os amigos neste post.

Aos que se apegam demais aos seus rascunhos, sugiro desenhar no próprio caderno. Seria melhor deixar as toalhas para quem já domina a difícil Arte do desapego.

O caderno de cada um não tem preço, é um tesouro pessoal. My preeeeeciousssss…

Sabemos respeitar isto, e jamais rasgaríamos o caderno de um amigo, principalmente na cara dele.

Mas há os que rasgam o feto do que ainda será um caderno, na cara dura, sem o menor pudor, e nem ficam vermelhos por isto.

O mundo dá voltas, e existe a possibilidade que no dia em que você ganhar o seu caderno, justamente o seu, caramba, venha faltando um pedaço. Talvez seja exatamente aquele pedaço que você viu um cara levar, e você não fez nada para impedir.

Com tanta tecnologia, câmeras digitais, celulares de última geração, etc, bastaria um clic para levar aquele desenho para casa.

Sem falar que cada folha é fotografada antes de ser cortada, o registro não se perde, e um dia estará acessível pela web.

Outra coisa misteriosa são as canetas Posca se tornarem invisíveis depois de algumas horas.

Sabe aquelas canetas com um adesivinho escrito a mão “BISTECÃO ILUSTRADO”, que o Kako compra com o dinheiro extra da caixinha paga pelos convivas e empresta aos convidados para que desenhem nas folhas?

Então, aquelas mesmo.

Elas se teletransportam sozinhas para algum lugar insondável, ou talvez sejam abduzidas por aliens, sei lá.

Mas o fato é que nenhuma das desaparecidas jamais retornou para relatar a experiência. Pode parecer um tanto estranho, meio bizarro, tipo Arquivo X, mas acontece de verdade, juro.

A gente sabe que ninguém levaria material dos outros para casa, não temos ladrões entre nós, somos todos colegas, parceiros, amigos.

Mas chega no fim da festa, a gente nunca encontra todas as canetas. Elas devem estar em algum lugar, mas onde? Talvez tenham passado por alguma fenda do espaço-tempo ou coisa parecida, e se perdem para sempre em outra dimensão.

Eu vou confessar que tenho medo deste lance.

Vai que a gente enfia o pé, ou pior, as mãos nesta parada aí? Aí o braço fica só um cotoco… sem dor, sem sangria, mas também sem poder desenhar nunca mais, sem aposentadoria, sem seguro contra acidentes pessoais…

Tá louco, dá calafrios só de pensar!

Um dia vou chamar uma equipe do Discovery Channel para fazer uma reportagem especial sobre isto.

Mas por outro lado estamos orgulhosos e felizes por espantar o fantasma da desunião dos ilustradores, de criar um presente e um futuro melhor para os nossos colegas de profissão, e de sermos os criadores e as criaturas de um renascentismo contemporâneo, criativo, prolífico, repleto de frutos e de novas possibilidades.

Ainda temos nossos defeitos, nossas vaidades, nossos egoísmos, afinal somos humanos, e o maldito jeitinho brasileiro, mesmo que moribundo e agonizante, mostra sua cara feia de vez em quando.

Ele está em cada página rasgada dos nossos caderninhos, em cada caneta que passa para a outra dimensão, em cada conta mal-fechada nos botecos da vida, nos lembrando que ainda falta muito chão para sermos verdadeiramente unidos, coesos, irmãos.

O jeitinho brasileiro tentou estragar o Sketchcrawl Brasil, quando faltou R$ 70,00 na conta do Bar Genésio. Passamos pelo constrangimento de fazer uma vaquinha de R$ 0,50 para poder sair do restaurante, mas isto não tirou o brilho do evento.

A nossa conquista é sempre maior que estas mancadas, e é exatamente este o nosso objetivo, construir mais que destruir, e modéstia às favas, estamos fazendo isto muito bem.

Parabéns e obrigado a todos que constroem.

Espero que os outros acabem sendo influenciados por esta boa energia, e possam experimentar o mesmo tesão que nós sentimos em somar e unir, ao invés de dividir.

Parece uma cleptomania às avessas, uma vontade incontrolável de entregar, ao invés de tomar dos outros.

O barato é tão forte que vicia. A gente sempre quer mais e mais.

Nem vem, eu não vou procurar auxílio médico!

Eu estou bem assim!

Lojinha da Sketcheria: folded pens e kits de furação

Aproveitando o tema de um post recente, caligrafia, muita gente me pergunta sobre a folded pen que eu fiz com latinha de atum, comentada aqui, sobre o workshop do Cláudio Gil.

Teve gente querendo mais fotos, como fazer a pena, workshops de pena, tutoriais, e alguns me perguntaram se eu não faria outra pena igual, que eles tinham interesse em comprar.

Com a folded pen artesanal fiz alguns estudos com Ecoline, que rendem longos assuntos com os amigos, nem tanto pela qualidade do trabalho, mas pelo interesse deles no modelo da pena, que permite algumas aventuras caligráficas bem legais.

Seria improdutivo fazer uma ou duas, e um tanto sacana vender apenas para os mais chegados, portanto eu decidi fazer uma pequena linha de montagem e vender as penas sob encomenda. As penas são cortadas e dobradas cuidadosamente, seguindo o mesmo gabarito desta da foto, lixadas e recebem acabamento com micro óleo M1.

E vem com o adaptador preto, super style!

Estou fazendo também um kit de furação para a confecção de sketchbooks.

Coisa fina: peroba rosada (calma, é madeira reutilizada de demolição), com grossas agulhas de aço.

A furação, encaixe e colagem das agulhas foi feita por mim. Nem um marceneiro teria tanto critério para as agulhas não sairem do alinhamento.

O padrão será de 10 furos, com 17 cm de comprimento, como nos cadernos do Bistecão Ilustrado, mas posso fazer outras medidas e padrões de furos customizados.

Quem fez o workshop Diário Gráfico com o Renato Alarcão já sabe o trabalho que dá furar cada um dos cadernos na mão, furo por furo. E o risco de ter um único furo teimoso, desalinhado, estragando a harmonia do caderno inteiro.

Com este kit você prende as folhas entre a guia e a peça triangular e passa as 10 agulhas de uma vez, sem erro, sem esforço, sempre com as mesmas exatas medidas.

Todos estes cadernos foram furados em menos de meia hora. Não teve nem graça. No método tradicional teria levado uma tarde inteira, e provavelmente um pedaço da noite.

Quem se interessar em adquirir estas peças e inaugurar a “lojinha da Sketcheria”, é só me mandar um e-mail, ok?

As penas ficarão em R$ 40,00 cada (completa, com adaptador), e o kit de furação por R$ 120,00 (mais despesas de Sedex).

Curso de Caligrafia com Andréa Branco

No ano passado fiz um workshop de caligrafia experimental com Cláudio Gil, no ateliê da Andréa Branco.

Há um post sobre esta aventura caligráfica aqui no blog, inclusive com um pequeno video com o mestre em ação.

Sei que muitos colegas se interessam por caligrafia, e ao invés de repassar o e-mail que recebi da Andréa apenas para alguns, achei mais interessante postar aqui e contar algumas novidades.

Andréa Branco é uma autoridade no assunto, e um doce de pessoa. Suas turmas se formam em torno do interesse pela Arte da Caligrafia e, por afinidade, grandes amizades se formam. Conheci gente muito legal lá, e imagino que os leitores da Sketcheria poderão encontrar técnica de alto nível e pessoas geniais neste curso.

Desenhando no Mercado Municipal

No sábado passado fui desenhar no mercadão do Centro de São Paulo, com Eduardo Bajzec e Luiz Rosso. A Sabrina Eras chegou a ligar, mas no meio da muvuca nos desencontramos.

Os vitrais do mercado são de uma beleza hipinotizante, e desenhá-los seria uma tarefa muito acima das minhas capacidades, então fiz um sketch mais centrado na luz ambiente, tentando não me perder na grandiosidade do local, um problema que o Bajzek certamente não enfrentou em seu desenho, feito no mesmo local, em uma mesa de restaurante no mezanino.

Preciso voltar lá mais vezes, o lugar é pitoresco, bonito, desenhável… e lotado pacas. Talvez eu me dê melhor com uma câmera, desenhando no estúdio depois.

Eu fiquei mais um pouco depois que os dois colegas foram embora, e desenhei esta imagem focando na composição entre as formas da coluna e do vitral. É incrível como uma paleta de cores reduzida pode dar mais resultado do que usar todas as canetas da mochila.

Um dia vou conseguir ser mais simples.

Caminhando e sketchando

O Sketchcrawl Brasil aconteceu em 10 de janeiro, e alguns, como eu, acham que esperar 3 meses até o próximo é tempo demais.

Aquecendo as canetas até abril, quando acontecerá o próximo evento mundial, mini-sketchcrawls estão sendo promovidos na lista Yahoo do Sketchcrawl Brasil, e no sábado passado a Renata Polydoro convocou a galera para se reunir no Fran’s da Praça Benedito Calixto.

O lugar é muito rico em temas, desde a igreja, em frente ao nosso ponto de encontro, até a feira de objetos “cult” da praça.

Eu continuei no mesmo ritmo no dia seguinte, cultivando o hábito de andar com os cadernos para todo lado, e fiz um desenho durante o café da manhã, na Livraria da Vila. E ainda sobrou um tempinho para um rascunho no shopping Villa-Lobos.

Uma parada no MuBe também mereceu uma página nova no sketchbook. Aliás, é um ótimo lugar para um próximo encontro de desenhistas, com uma arquitetura muito interessante, uma feirinha de antiguidades altamente desenhável, e bem ao lado do MIS - Museu da Imagem e do Som, também um excelente tema para desenho de locação.

O Mercado Municipal, no centro da cidade também é uma boa opção para estes pequenos encontros de fim-de-semana.

Caminhando em terreno inexplorado

Quando se descobre uma nova fonte de energia ou um território inexplorado, não se tem a noção exata do que se tem nas mãos, nem a dimensão da extensão ou a profundidade desta descoberta.

Eu ando me sentindo assim com os sketchbooks.

Eles me abriram “portas da percepção”, e ao contrário de Aldous Huxley, eu posso fazer minhas experiências livremente, legalmente e sem danos neurológicos.

Dos workshops do Renato Alarcão ao desengavetar papéis velhos e montar cadernos, e até mesmo na escolha temática deste blog, tenho caminhando em um território inexplorado, fascinante, e vejo agora que há muitos, como eu, interessados em descobrir onde isto tudo pode nos levar.

O retorno que estou tendo com o Sketchcrawl Brasil tem sido surpreendente, além do número recorde de participantes, tenho recebido todo tipo de feedback, de e-mails pessoais a entrevistas, além de inúmeros contatos com pessoas de diversas áreas, que desejam retomar o hábito de desenhar, por prazer ou por ambição profissional.

Eu mesmo tenho experimentado muitas possibilidades novas, técnicas diferentes, temas e abordagens que permitem tirar do trivial algo único, e o resultado deste meu novo hábito é que a mudança acontece não no papel, nem tanto no traço, mas no olhar.

Parece que ao fechar o caderno com um desenho novo nele, o olhar continua atento, o senso de observação fica mais aguçado e até certo ponto mais perceptivo a detalhes e sutilezas, que passam despercebidas quando se está fora deste ritmo constante de desenho.

A impressão que tenho é que estou enxergando melhor, percebendo mais e processando melhor tudo que acontece diante dos meus olhos.

Tudo parece mais “desenhável”, dos detalhes de porcas e parafusos no extintor de incêndio aos corredores e paredes, das dobras das roupas às características faciais das pessoas, gente bonita fica fascinante, gente feia fica interessante, enfim, é como se eu estivesse ligado no modo “draw”, mesmo quando não estou desenhando.

Acho que estou adquirindo a disciplina e a compulsão por desenhar que eu busquei a vida inteira.

Finalmente estou ficando doido o suficiente para querer desenhar o tempo todo, ou de desenhar com os olhos, mesmo quando não estou desenhando com as mãos…

A energia trocada com as pessoas interessadas nos sketchbooks, ver seus desenhos, sentir a motivação brilhar nos olhos, criar objetos de desejo em forma de cadernos, isto tudo me alimenta também, e me faz sentir que estamos abrindo picada em uma mata inexplorada, um terreno inédito no Brasil, que são
os sketchbooks, com seus desenhos sem cliente, feitos sem compromisso, criados pelo mais absoluto e puro prazer de desenhar.

Não sei onde isto vai nos levar, mas talvez tudo isto seja ao mesmo tempo o segredo, a pergunta e a resposta. É provável que o destino seja o próprio caminho trilhado.

Pousada na Barra, em Salvador. Vista da cama. Só geometria perfeita e cores lindas, não dá vontade de desenhar?

Sabe quando você passa em algum lugar, tem vontade de recortar aquela imagem do cenário e levar com você, mas sempre tem algo que te impede? Eu sinto isto o tempo todo em viagens, por isto eu fotografo tanto, enlouquecidamente, compulsivamente, pensando em desenhar ou pintar tudo aquilo um dia.

Detalhe do topo de uma porta no Pelourinho, em Salvador. Depois de muitas fotos familiares, sorrisos, caretas, etc, liguei o modo “draw” e despertei para riqueza dos detalhes e das cores em cada palmo ao nosso redor. Zoom no máximo, e fotos, muitas fotos.

Aos poucos estou encaixando peças importantes no meu quebra-cabeças interior, unindo este hábito antigo de fotografar pensando no desenho, com o novo prazer de carregar sketchbooks para todo lado.

Materializando um antigo projeto, desenhar sobre fotos, tiradas com este único propósito. Estes dois desenhos de Salvador foram feitos ontem, entre um gole e outro de um copão de Café Mocha, no Starbuck’s.

Evento de carros antigos no autódromo de Interlagos. Desenharia lá por uma semana inteira, mas tenho fotos suficientes para desenhar carros antigos, hot-rods, stock-cars, concept-cars, etc, por meses a fio.

Carrego minhas fotos preferidas no ipod, preso com elásticos no caderno, e tenho anos de imagens, viagens congeladas no tempo, memórias vívidas e significados pessoais, sempre disponíveis na página ao lado. Seja na fila do banco, ou enquanto aguardo minha vez no consultório do dentista, no sofá depois do jantar, enfim, valeu a pena fotografar tanto, e agora é só desenhar tudo.

Louco? Talvez.

Feliz? Com certeza.

Sketchbooks - na cola dos heróis

Algumas vezes parece que o lado criativo do cérebro sai de férias, mas aquela vontade atormentada de desenhar fica de plantão, disposta a virar a noite, e aí, como saciar esta sede?

Já aconteceu com você de querer desenhar e faltar assunto, faltar um tema, faltar aquela lampadinha brilhando em cima da cabeça, como nos quadrinhos?

Eu estive assim nestes dias. Com tempo, com vontade, e com a lâmpada apagada…

Quando isto acontece, eu apelo mesmo, sem o menor pudor, desenho na cola dos meus heróis, pra ver se pega no tranco, ladeira abaixo, na banguela.

Estava na Livraria da Vila e grudei em um livro do Hundertwasser, de quem sou fã há muitos anos, afundei nas almofadas e pirei em um dos seus quadros. Fui atrás dele, tentando aprender alguma coisa, absorver aquela magia toda por osmose, e fiz uma cópia descarada e um tanto tosca daquele trabalho, mas a idéia não era fazer uma réplica pra vender no mercado negro, e sim entender como ele pensou aquela obra.

O desenho da Mônica veio no dia seguinte, feriadão, tomando café da manhã com a família no Fran’s, a Mônica brincando no celular novo, paradinha… Ela gostou muito, eu achei que o desenho poderia ficar bem melhor.

Logo em seguida me veio a imagem do Hundertwasser na cabeça, como eu poderia misturar aquela maravilhosa confusão de cores e traços em uma paisagem urbana. Sketchcrawl chegando, eu pensei que seria legal entortar a cidade com aquele estilo, e misturando todas as canetas, canetinhas e canetões que eu carrego na mochila, saiu o desenho acima, quase abstrato, entre uma bocada de pão com manteiga e um gole de café com leite, enquanto a Mônica enviava a primeira mensagem de Twitter pelo celular.

E este fundo foi feito carimbando tinta a óleo usando aquelas réguas de normógrafo, lembra? Antes das fontes TrueType a gente marcava letras com equipamentos caríssimos, Kern, importados da Suíça. Eu comprei meia dúzia destas réguas outro dia a preço de banana em fim de feira. A tinta a óleo sela o papel contra as cores que vazam pelo outro lado do papel, e dá um efeito interessante.

Dias depois a lampadinha continuava apagada, mas os dedos estavam nervosos. Desenhar, desenhar… de blog em blog eu via artistas geniais arrebentando, centenas de desenhos que pareciam sair do nada, até que eu entuchei o pudor no lixo novamente, e usei um thumbnail a lápis de um artista que nem sei o nome, misturei as canetas como no estudo anterior, e a luz em cima da minha cabeça deu umas piscadas.

Rolou até um esquema de luz e sombra que não existia no desenho do cara, e no final eu me senti um pouco menos chupa-cabra, mas ainda comportado demais, eu quero entortar mais, quero linhas desencontradas, cores fora dos contornos.

Piscou mas não brilhou, e fiquei um tempão sobre alguns estudos abstratos de cor (descobri que as canetas Posca cinza funcionam bem em cima de cores intensas, chapadas). Boring, mas importante. A chatice faz parte, entender o processo, buscar uma técnica e reinventar a roda nunca foi um processo indolor. Mas algumas coisas interessantes começaram a sair no papel, como esta imagem, que escapou do lixo e veio parar no sketchbook.

O processo é longo, dias depois eu ainda estava na cola de alguns magos do desenho, como Mark Behm. Ele faz tudo parecer fácil, desenhar, pintar, criar personagens e universos. Eu desencanei e soltei o chupa-cabra nele também, mas usando esta minha técnica teimosa, pintando o fundo com marcadores daqueles antigos, que cheiram a Thinner, cobrindo com Posca cinza. Estou gostando muito desta combinação.

Flickr, Image Bank, milhares de fotos, e resolvi arriscar minhas canetadas caricaturando uma boca aqui, um nariz ali. Hmmm… legaus.

Boralá, fazer outra moçoila em um papel que estava pra lá de manchado, testando até onde posso ir com a cobertura das canetas Posca.

Ela não só cobre as outras cores, como deixa um tonzinho aparecendo por trás. Pode chutar o balde no “underpainting”, o processo fica horroroso na metade, mas no final tudo se encaixa. A mão parece bem mais solta agora, dá para arriscar mais, e descobri que neste mato tem coelho, vou fazer mais estudos combinando canetas diferentes.

Gostei do resultado, acho que estou encontrando aos poucos o fio da meada que estava procurando, dias atrás.

A lampadinha ligou novamente!

Workshop Diário Gráfico em SP (corrigindo as datas)

O ilustrador Renato Alarcão estará em São Paulo nos dias 16, 17 e 18 de janeiro, trazendo mais uma edição do workshop Diário Gráfico, onde são apresentadas diversas técnicas de desbloqueio criativo e encadernação de sketchbooks.

Eu fiz o workshop com ele duas vezes, e para não me estender muito em elogios e rasgação de seda (totalmente justificáveis), basta dizer que este blog não teria sido criado, nem meus cadernos ou a experimentação que tenho feito nos sketchbooks, se não fosse o impulso inicial do Renato Alarcão.

Costumo dizer a ele que a raquetada nos meus miolos foi tão grande, que meu cérebro está girando até hoje, quatro anos depois do primeiro workshop. Escrevi um post sobre este assunto aqui.

Entre em contato com ele por e-mail ou pelo telefone (21) 3602-3760, mas não demore, porque as vagas são poucas.

Enjoy!

Foi bonita a festa, pá!

Encarei a chuva, comprei meu Estadão e li a matéria na hora.

Clique aqui e confira na íntegra.

Acho que ainda não me caiu a ficha… é uma página inteira sobre o Bistecão no Caderno 2: Quem somos, de onde viemos e para onde vamos!

A Carlinha fez um bolo de chocolate e cupcakes de virar os olhos. Como ela consegue?

Foi bonita mesmo a festa, pá!

Uma das melhores, e mais 80 pessoas lotaram completamente o andar de cima do Sujinho.

Um dos muitos momentos memoráveis ficou por conta do Orlando, que mandou ver uma das suas Moças Finas, em cores e ao vivo. Dói só de pensar que um dia esta imagem terá que ser cortada, mas alivia saber que alguns sorteados poderão ganhar partes deste original nas folhas de um sketchbook.

Spacca não arriscou ver um dia sua obra dividida, e arrepiou no sketchbook.

O blog do Bistecão está sendo reformulado, e logo vou postar aqui e lá um video com as imagens do nosso 3º ano de encontro ilustrado.

Para não me estender demais sobre as good vibes do nosso encontro abistecado, fica aqui um trechinho da letra de “Tanto Mar”, de Chico Buarque, como trilha do pós-festa:

Sei que está em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor no teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, que é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Sketchbooks do Bistecão - abrindo o forno

O evento em si, o nome Bistecão Ilustrado, e o logo são criações do Kako. A gravação e os cortes foram feitos na FoxLaser.

Os sketchbooks estão quase no ponto, assando em fogo brando, e serão servidos nesta sexta-feira.

Um pouco de improviso para melhorar a produtividade: um gabarito de furação feito com retalhos de papel Holler, o mesmo tipo usado para fazer as capas, e Kraft grosso. Vou fazer um de madeira, no marceneiro, para garantir mais precisão e velocidade nesta etapa.

Costura e acabamento.

Finito, 10 sketchbooks do Bistecão Ilustrado prontos! 4 deles serão sorteados a cada encontro.

O número 001 de toda série numerada costuma ser o exemplar mais valioso de todos, e este já tem dono. É do Kako, o pai do Bistecão Ilustrado.

Sketchbooks do Bistecão Ilustrado

Em agosto o Kako, criador e mentor do Bistecão Ilustrado - encontro mensal de desenhistas - trouxe uma novidade para os convidados: papel kraft sobre todas as mesas.

Juntou-se a fome com a vontade de desenhar, e nem micos-leão em uma loja de cristais poderiam ficar mais felizes do que nós.

Ao final da noite, quase início da manhã seguinte, estávamos com uma pilha considerável de originais sobre a mesa, sem saber o que fazer com tudo aquilo.

Acender uma pira cerimonial, e agradecer aos Deuses por alguma coisa? Não, a primeira opção estava descartada.

Sono e entusiasmo é uma combinação bastante estranha, e ainda na inércia de quase 8 horas seguidas de besteirol, falamos quase ao mesmo tempo, como se tivéssemos ensaiado: “Minha mulher me mata se eu levar isto pra casa”.

O que fazer com estas artes, como criar um uso digno e barato para aqueles originais? E os próximos? A receptividade foi ótima, a idéia era um sucesso, portanto teríamos a mesma quantidade mensalmente, e ainda não estávamos bem certos se isto era uma benção ou uma maldição.

“Na mão do Alarcão, isto tudo virava caderno”, eu disse, sem me dar conta que havia tropeçado na arca do tesouro. Houve um silêncio, enquanto caía a ficha (às 4 da matina todas as fichas caem em câmera lenta), e deu o estalo: é isso, vamos fazer sketchbooks!

Com a solução nas mãos, ficou mais fácil pensar no que fazer com os cadernos, edições únicas, exclusivas, numeradas, realimentando o próprio motivo de estarmos juntos, que é desenhar e se divertir entre amigos.

Neste video você pode conhecer ou rever o nosso evento, acompanhar um divertido making of dos cadernos, e amargar comigo a dura tarefa de cortar artes originais, em benefício de uma causa nobre.

Este trecho, editado do filme principal, mostra as dificuldades e as crises de consciência de quem se propõe a cortar originais a golpes de régua.

O Acervo está comigo, devidamente fotografado em alta, para depois ser cortado, costurado e encadernado manualmente. A capa terá o logo do Bistecão gravado à laser, e os logos dos nossos colaboradores (DRC e Casa do Artista) no verso.

A partir da comemoração dos 3 anos de Bistecão Ilustrado, além das tradicionais peças pintadas “in loco”, vamos sortear 4 cadernos por noite, no exato momento em que as 12 badaladas dos sinos da Igrejas de São Bento, Sé e Santa Ifigênia atormentarem os moradores do centro de São Paulo.

Retrato

Saindo do forno hoje, para um casal de amigos.

De um estudo saíram dois conceitos: o primeiro, que era a intenção original, de fazer uma ilustração digital, com jeitão de lápis de cor sobre aquarela, e o segundo foi pensando mais em uma alternativa com cara de sketchbook.

Cadernos Moleskine e Itaú Personnalité

Poucas coisas podem ser mais representativas da individualidade de uma pessoa do que um caderno de anotações.

Dos impecáveis papéis brancos, aos reciclados de cor parda, passando pelas aventuras experimentais dos cadernos feitos à mão - conteúdo à parte - uma marca de cadernos se destaca de todas as outras: Moleskine.

Um mito, um sonho de consumo, o Macintosh dos sketchbooks.

Talvez a marca tenha herdado a fama adquirida por usuários de renome mundial, como Ernest Hemingway, Henri Matisse, Vincent Van Gogh, André Breton e Picasso, entre outros.

Bruce Chatwin, um escritor-viajante, numerava as páginas de cada caderno novo, escrevia seu nome e pelo menos dois endereços, e uma promessa de recompensa no caso de perda do seu Moleskine. “Perder meu passaporte era a menor das minhas preocupações, perder um caderno de anotações seria uma catástrofe”, dizia ele.

Mas a bi-centenária empresa italiana Moleskine SLR, fabricante original dos famosos cadernos, nem sempre esteve bem das pernas. Com a morte do proprietário em 1985, a produção foi descontinuada e chegou a se esgotar no ano seguinte. A marca foi registrada somente 10 anos depois, pela atual produtora dos cadernos, a editora Modo & Modo, que chegou a ter dificuldades em suprir a demanda, até que foi comprada em 2006 pelo fundo de investimentos Societé Générale, por 60 milhões de Euros.

Confesso que quase caí do sofá quando vi a campanha do Itaú Personnalité, toda centrada nos cadernos Moleskine, mostrando página após página, desenhos simples e magníficos.

Utilizando ao máximo o conceito do sketchbook, sua característica de individualidade, exclusividade e personalidade, e aliando tudo isto à centenária reputação dos cadernos Moleskine, a DPZ formatou a imagem exata que o Itaú Personnalité queria passar a seus clientes.

“É impossível imitar você. Mas é possível acreditar nos seus projetos, e fazer parte dos seus planos.”

O comercial abre com este texto genial, valorizando a individualidade do cliente, se aproximando de seus ideais.

O conceito do caderninho Moleskine, repleto de desenhos, é a espinha dorsal da campanha, valorizando o que cada um tem de mais precioso, seus projetos, seus planos, a vida compactada em um sketchbook.

O programa Avesso apresentou um programa sobre a campanha Itaú Personnalité, criada pela DPZ, e produzida pela AD Studio.

E um making of dos dois filmes.

Antes destes, vários outros filmes do Itaú Personnalité já usaram animação, rotoscopia, desenho, ou stop motion, como este, feito em recortes de papel, animados pelo Birdo Studio.

A primeira vez que vi este filme foi impressionante. A segunda também. Só hoje, editando o blog, já devo ter visto mais umas 8 vezes, e continua impressionante.

Agência: DPZ - Produtora: Lobo - Direção de cena: Mateus de Paula Santos e Carlos Bela - Direção de arte: Lobo - Animação de personagem: Paulo Muppet e Luciana Eguti.

Pensando bem, o escritor Bruce Chatwin tinha toda a razão. É preciso colocar nome, endereço e uma proposta de recompensa em cada sketchbook.

E uma curiosidade: a tradução literal de “mole skin”, de onde deriva o nome da marca, seria “pele de toupeira”, mas fique tranquilo, os cadernos tem capas sintéticas, e nenhum animal foi ferido durante os 200 anos de produção.

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De papéis velhos a sketchbooks com personalidade

Há um tempo atrás fui chamado para fazer uma ilustração para outdoors e folhetos do São Paulo Boat Show.

Um job interessante, um novo desafio, muito entusiasmo, e MUITO trabalho, em um original feito em óleo sobre tela, grande, com 1,20 m de largura.

Duas semanas intensas entre os rascunhos e a imagem final, amplos espaços reservados para o logo do evento, textos, diagramação planejada para utilização horizontal e vertical, enfim, eu estava radiante, a agência tinha gostado, mas… o cliente não aprovou.

Mais duas semanas editando a imagem escaneada em 12 partes, num arquivo imenso de Photoshop, sem sucesso. Pagaram mas não usaram.

Faz parte da vida de um ilustrador, é frustrante, dói no ego, mas quem está na chuva é para se queimar, como dizia Vicente Matheus.

Este quadro ficava guardado, intencionalmente escondido no quarto dos fundos, virado para a parede, de castigo eterno. Eu gostava da imagem, mas ela me trazia uma sensação amarga de derrota.

Bittersweet, diriam os gringos.

No dia em que fiz o workshop Diário Gráfico com o Renato Alarcão, ele me deu um insight inacreditável: “utilizem todos aqueles papéis antigos, retalhos, posters, etc, para fazer seus sketchbooks”.

Naquela mesma semana eu pude ter o imenso prazer de recortar esta tela em 8 partes, e dar um novo significado para aquele trabalho.

Empolgado com este novo “suporte”, aproveitei e retalhei também um segundo quadro que havia feito há mais de 15 anos, copiando cada pincelada de uma ilustração para aprender a técnica de um artista que admiro, Jeffrey Terreson, mas sem ter coragem de apresentar como meu.

Agora eu tenho um pouco mais de autoria sobre o trabalho, e o que seria uma tela “chupada” se estivesse na parede, se tornou uma série de imagens abstratas no meu sketchbook, entre folhas de papel Kozo para xilogravuras, papel Guarro e Fabriano para aquarelas, papel Carmem preto, papel Vegetal 90g, etc.

O verso das telas, manchados com a tinta a óleo atravessando o tecido, envelhecidos e feios enquanto estavam emoldurados, se tornaram superfícies levemente entonadas de amarelo-ocre, perfeitas para novos estudos.

Curioso pensar que estes papéis em formatos inteiros, impecavelmente guardados na mapoteca estavam amarelando, se perdendo sem uso, e no contexto do sketchbook, quando mais envelhecido e manchado, melhor.

Manchas senis no papel dão personalidade, autenticidade e maturidade ao caderno.

Até mesmo um calendário que ganhei em uma das lendárias festas de fim-de-ano da Gráfica Burti, com obras do Arthur Bispo do Rosário, entrou na dança.

Eu nunca teria coragem de jogar fora aquelas imagens impressas em papel couchê da melhor qualidade, e sem os sketchbooks, este belíssimo calendário e meus papéis importados acabariam se tornando refeição de carunchos na minha mapoteca.

As duas telas deixaram seus passados sombrios para trás, e hoje vivem na minha estante, como óvulos de proveta, aguardando a inseminação do próximo desenho.

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Canetas de pescar sonhos

Por uma série de acasos, encontros e desencontros, moro hoje no mesmo bairro onde passei alguns bons anos da minha infância.

Meu filho estuda a poucos metros da lanchonete que foi dos meus pais, quando eu tinha 9 anos de idade, e o desenho abaixo, com ele brincando na areia, foi feito na pracinha onde eu andava de bicicleta com meus amigos.

Hoje mais um destes acasos me transportou no tempo, depois de almoçar com a família.

Ainda na mesa do BurDog da Av. Sto Amaro, estava terminando de desenhar os nomes das ruas do bairro no sketchbook, e cada uma me trazia lembranças dos amigos, das brincadeiras, enfim, estava revirando o álbum das memórias, você sabe como é.

Aí eu olhei pela vidraça, no outro lado da avenida, e uma cena absolutamente comum me trouxe os sons, os cheiros e as imagens tatuadas na minha mente aos 9 anos de idade, como uma máquina do tempo.

Uma revoada de pássaros no final da tarde, centenas de piados simultâneos formando um som contínuo como um mantra, exatamente como acontecia na frente da lanchonete do meu pai, onde do outro lado da rua haviam 3 árvores imensas, e que hoje só existem na minha memória. Foram arrancadas daquela calçada há poucos anos.

Um banana split para 3 desviava minha atenção, que estava mais para os pássaros no Brooklin dos anos 70, no quintal daquela lanchonete da minha infância, e que hoje é uma alfaiataria.

Abandonei minha parte da sobremesa, e com o sketchbook e canetas de pescar sonhos, mergulhei de cabeça na minha viagem ao passado, sabendo que uma câmera não seria capaz de capturar aquela sensação, seria muito literal, fria, sem o clima de sonho que eu estava vivendo.

Esta tarde me rendeu um peixão. Pode não ser grande coisa como desenho, mas eu vejo nele vários layers emocionais acumulados em algumas décadas.

E não é estória de pescador, é tudo verdade.

Thumbnail

A tradução literal do inglês seria “unha do dedão” (do polegar, do pé não vale).

O termo é bizonho, mas é assim que eles costumam chamar os rascunhos bem pequenos, esboços de idéias feitos rapidamente, e que podem ser extremamente úteis nos primeiros passos de um trabalho mais elaborado, como concepts ou ilustrações finais.

Os thumbs ajudam a definir a composição, a paleta de cores, o contraste geral da cena, e podem ser importantes para definir as hierarquias da imagem, como plano principal e secundário, figura de destaque, etc.

Durante anos eu me dediquei exclusivamente às técnicas de ilustração como arte-final, onde não há espaço para o erro, e muito pouco acontece no improviso. É a fórmula ideal para travar a mão e tapar os olhos para o novo.

Somente os sketchbooks me permitem aventurar e explorar novas possibilidades no desenho, sem medo de errar, e com a liberdade de fazer algo intencionalmente tosco. E somente em um blog eu posso mostrar imagens que jamais entrariam em meu website ou portfolio.

Nestes estudos eu procuro juntar o fundamento dos thumbs com a prática do desenho de locação dos sketchbooks, e combinando diversas canetas em papel reciclado tem trazido resultados interessantes.

Aquecendo a mão, sem referência nem capricho, lembrando os fortes de Salvador.
Rabiscar ajuda a focar, antes de partir para estudos mais elaborados.

Com referências de fotos de Lisboa, os dois estudos começam a mostrar algumas possibilidades. O primeiro saiu melhor que o segundo, com mais contraste e uma composição mais enxuta.

Este aqui ficou no limbo entre uma cena urbana e o abstrato, mas eu gostei da técnica, partindo de um rascunho em caneta vermelha, e usando canetas Posca para as cores opacas.
Me pareceu uma sequência eficiente para futuros estudos.

Os estudos permitem a tentativa e erro, o que seria impensável em trabalhos comissionados, com prazo e cliente contando os minutos para receber a imagem.
Aqui parece que encontrei um novo método de trabalho, rápido, eficiente e com aquela sensação quase embriagante de achar um novo fio da meada, um resultado visual que pode ser útil no futuro.
Talvez até em trabalhos comissionados, porque já não é mais o acaso que conduz o resultado, ele é direcionado, virou uma técnica.

Aqui eu explorei um pouco mais a nova fórmula, e talvez tenha caído novamente no limbo entre um desenho de sketchbook e uma ilustração final.
É preciso praticar mais.

E principalmente, voltar ao simples.


Letras vivas

Há muitos anos tenho feito, quase sem perceber, um tipo de letra que pede para ser trabalhada, desenvolvida, amadurecida. Como são poucas as oportunidades de desenvolver um trabalho de Typefont, eu dediquei pouco tempo para atender aos seus pedidos.

Mas ela é persistente, e quer entrar nas minhas páginas.

Quer existir.

Quando apareceu um projeto pessoal, a convite do Gualberto “HQMix” Costa, ela apareceu antes do desenho, e ganhou seu espaço no título da minha página, na estória em quadrinhos coletiva O Crime do Teishoku Preto. (© fotos: Mario Cau)

Duas semanas depois, outro projeto de liberdade criativa: este blog. Qual o nome ideal para um blog? Qual é o tema, a personalidade deste espaço? Que identidade visual ele vai ter?

Quando encontrei o fio da meada, pelo menos nos conceitos de conteúdo e visual, o quebra-cabeças ainda tinha duas peças por completar, o nome e o logo.

Minha esposa sugeriu o nome “Sketcharia”, que imediatamente fez clic, e agora restava só uma peça.

Eu troquei uma letra, e na manhã seguinte, antes que eu pensasse em um rascunho, a Typefont pulou no papel com vida própria, vestida de arte-final.

E me mostrou claramente a que veio, o papel em que ela fica melhor, suas canetas preferidas, adora uma moldura branca ou preta, e me fez entender sua importância no meu repertório visual.

Por fim demarcou seu território: os sketchbooks.

É óbvio, ela é uma Typefont de sketchbook, como eu não vi isto antes?

Muitos ilustradores tem seus personagens, habitantes vivos de seu mundo gráfico, reconhecíveis em qualquer técnica. O mesmo acontece com suas caligrafias, que tem a cara e a alma do autor.

Esta Typefont acaba de entrar na minha vida como um bicho de estimação, e só faltou abanar as serifas quando molhei as letras com aquarela.

Ela vai ter um leve sotaque de Uncial, principalmente nos As e Es, mas talvez se chame Garamonta, por influência da Garamond e suas serifas arredondadas, sua elegância comprida como as pernas da Gisele Bundchen. Também tem muito das garatujas, desenhos feitos nos cantos do papel, sem muito rigor, mas cheios de expressão e vitalidade. E tem meu apelido, o atalho do meu nome.

Quando a gente dá nome ao bichinho, não tem mais volta. Vira pet, vai pular no seu colo, dormir na sua cama, lamber sua cara, e vai trazer a coleira na boca, pedindo pra passear.

Neste caso, vai ser a caneta, e já sei que não vou conseguir negar os passeios no sketchbook.


Sketchbook - Lisboa, em Sampa

Quero trazer para os posts de sketchbook algo mais que o desenho e o óbvio dele mesmo.

Vou colocar um pouco da sinestesia do momento, o ambiente e as sensações que estão ali no desenho, mas que sem uma tradução seriam invisíveis.

Este, por exemplo, foi feito agora, numa bela tarde de domingo, em que eu estava revendo as fotos tiradas com a minha esposa e meu filho, em Lisboa, há cerca de um ano.

Algumas das músicas que rolaram aqui no estúdio, enquanto eu desenhava, podem ser ouvidas online e gratuitamente no meu blip.fm (Habib Koite, Pat Metheny Group e Strunz & Farah).


Sujando os dedos

Às vezes eu sinto falta da tinta, da tranqueirada espalhada na mesa, do cheiro de tinta a óleo, terebentina e emulsões que fazem a gente parecer mais um cientista louco, um alquimista medieval do que um ilustrador digital.

Entre um job e outro tem dias que dá pra sujar os dedos fazendo novos sketchbooks, usando as técnicas ninjas de encadernação do Renato Alarcão, que entre outras coisas inclui martelar com formão, rasgar papel com o canto da régua, furar e costurar com um agulhão de vacinar rinoceronte.

Tudo começa na tinta a óleo espalhada na mesa com o rolinho

O próximo passo é desencadernar um belo anuário de fotografia e tascar o rolinho cobrindo tudo que for imagem reconhecível, preservando as áreas planas das fotos.

Deixe a tinta secar e monte as sequências dos cadernos

Com a agulha de vacinar rinoceronte e a linha de empinar asa delta, costure os cadernos intercalando tiras de couro de síndico para montar nas capas.

Preparar as capas, usando papel paraná encapado com aqueles calendários enormes da Burti, que você ganhou há anos, e nunca teve coragem de jogar fora.
Abrir os cortes laterais martelando com o formão até algum vizinho chamar a polícia. Dizer na cara dura que o barulho não é da sua casa e continuar no dia seguinte.

Como disse meu filho, do alto de sua sabedoria, aos 5 anos : “Ficou bonito, pai. Agora é só desenhar, né?”.

Estas costuras foram feitas com linha de pescar, do tipo “fly fishing“. É como se fosse uma miniatura de corda de alpinismo, trançada com fios de nylon bem finos.
Ao invés das fitas de couro, no caderno branco foram usados passadores de uma velha calça jeans.

Neste aqui eu usei encordoamento de raquete de tênis. Ficou bem legal.

O macete usado para transformar velhas camisetas em capas maneiríssimas: cola branca.
Depois é colar em papel paraná, cortando as margens para encaixar na parte interna.

Crie seus cadernos com moderação, a bagaça vicia.


Sketchbooks de viagem

Tenho criado o hábito de levar alguns sketchbooks comigo em viagens e passeios, ou até mesmo em restaurantes, etc. Algumas vezes não acontece nada, nem um rabisco, mas outras vezes surgem desenhos interessantes, que acabam ganhando uma corzinha extra quando voltam para o estúdio.

Em duas viagens que fiz para a Bahia neste ano, eu despertava às 5 da matina e ia para as ruas de Salvador para desenhar até que o restaurante da pousada servisse o café da manhã, às 8:00. Esta rotina rendeu umas boas páginas nos cadernos de viagem. Deveria fazer o mesmo aqui em Sampa.

Na viagem que fiz à Portugal eu tirei muitas fotos, mas bem poucos desenhos de locação. Aquela semana foi muito bem aproveitada, pareceu um mês, mas ainda assim foi curta demais para fazer tudo que gostaria.

Preciso voltar para lá com mais tempo, mas enquanto isto não acontece, vou usando as fotos da viagem.

Quem vê os desenhos em um sketchbook nunca poderia imaginar quantas ou quais sensações ficam impressas naquele desenho, muito além das imagens. O nome científico para isto é “sinestesia”.
A imagem acima, por exemplo, me lembra o cheiro de banheiro público na calçada, desviando a minha atenção da beleza imponente do forte, obra centenária, que eu me apressava em desenhar.

Do Cristo Redentor Soteropolitano eu desenhava o Farol da Barra, com o primeiro sol da manhã começando a esquentar minhas costas, quando tocou o celular. Eram a Mônica e meu filho Gabriel, brincando sozinhos na praia logo abaixo. Não tive dúvida: desenhei os dois como pontinhos no caderno, do jeito que eu os via dali, e fui até eles, jogar frisbee, antes do café da manhã.

Por baixo um desenho tosco e um olhar insatisfeito. Por cima do desenho antigo, caneta Posca cinza e um novo desenho, não tão tosco.

Vila Galé tem uma prainha de uns 100m de comprimento, incrustrada entre formações rochosas e um conjunto residencial de luxo, escondida no final de uma viela, no meio da Barra, em Salvador. Um verdadeiro paraíso particular.

No pitoresco e belo “Solar do Unhão”, um pequeno café é também o guichê do cinema, onde passam filmes nacionais e estrangeiros, principalmente do circuito alternativo. um cine clube de primeira, com a trilha sonora mais autêntica possível: Novos Baianos. Logo ao lado, um museu impressionante, que pela História centenária do prédio onde está sediado, se tornou acervo dele mesmo.

Do Farol da Barra ao Jardim de Alá, como já cantou Pepeu Gomes. Aliás, o que tem de referência musical na Bahia é brincadeira. Itapoã, Lago do Abaeté, Vatapá, Caruru, ôi, mungunzá, praioiô…

Mas tá inacabado… no sketchbook tudo vale, tudo pode.

Desenho de locação: meia-noite no avião, indo para Lisboa, breu total. Só a minha poltrona com a luz acesa, e eu desenhando com caneta Posca preta, em papel preto. O que a ansiedade faz com as pessoas…

Duas da matina. Nada de sono. Pego uma foto da Mônica e continuo desenhando, na escuridão do avião.

Centro de Lisboa, uma tarde lindíssima, sem nuvens no céu. O que parece um selo é a aba de uma caixa de pastéis de Belém, consumidos vorazmente na véspera.

Fran’s Café, parquinho, revista, o cara esquisito da mesa ao lado… tem dias que dá vontade de desenhar qualquer coisa.

Sabadão, a esposa no cabeleireiro… eu aguardando no jardim… tédio? Não. Sketchbook!


Sketchbook vale-tudo

Tenho um sketchbook que começou meio tímido, comportado, até que eu decidi me aventurar nele de uma forma até então inédita. As páginas mais contidas do início vão dando lugar para um verdadeiro vale-tudo: rabiscos sem-noção, colagens, cores prensadas com restos de tinta a óleo que sobraram na mesa de vidro, pinceladas de tinta em pó “xadrez” misturada com cola branca, garranchos e desenhos colados uns por cima dos outros.

Criar imagens neste caderno tem sido um exercício de liberdade, a ordenação do caos, e a recompensa é uma surpresa que me dou a cada nova página realizada.

Os sketchbooks para mim hoje são mais do que cadernos de desenho, eles carregam um conceito, uma metodologia e uma motivação únicas. Tudo que eles representam, em forma e conteúdo, e a extensão praticamente infinita de suas possibilidades criativas me foram apresentadas como num ritual de passagem, depois de 20 anos de ilustração “comportada”, na falta de um termo melhor.

O Xamã que me trouxe a este novo estado de consciência é o colega Renato Alarcão, durante um de seus workshops/oficinas chamados de “Diário Gráfico”, e desde então a investigação e a procura do novo tem sido um prazer imenso, com a alegria de uma criança brincando descalça no quintal.

Imagens do filme “Buena Vista Social Club”, algumas à lápis e bic, outras com marcadores de ponta de feltro.

Estudo tonal com grafite, que serviu de base para pintura do tucano em pastel, para a Mangue Galeira de Paraty.

Fiz este desenho do Jeff Healey primeiro com caneta bic, meses depois fechei com cinza e branco, usando canetas Posca. Pouco tempo depois que terminei esta imagem, li em uma revista que o guitarrista canadense havia morrido. Ele sempre foi um dos meus músicos preferidos, e sua perda será muito sentida.

Aqui usei todo o meu vocabulário de russo, todas as 5 palavras que sei neste idioma. Agora só falta aprender a escrever direito, no alfabeto da ex-URSS.

Pescando desenhos com uma bic, sem referência alguma, olha só quem aparece no papel: o Renan!

Recém chegado de uma viagem à Bahia, algumas imagens sairam no papel quase sem querer. Na colagem, duas imagens da Monica, trabalhando no sofá da sala, no laptop.

Aqui já virou o samba-do-crioulo-doido, com colagens sobre desenhos antigos, desenhos novos sobre estampas pintadas com spray prateado, stencils feitos a partir de rendas cearenses, letterings pintados com penas artesanais, recortes de diversos lugares, inclusive o logo original aqui do blog, que já achou seu lugar no sketchbook vale-tudo.


Sketchbook 001

Desde os primeiros Bistecões Ilustrados (encontros mensais de ilustradores, iniciados em 2006) criou-se o hábito de levar cadernos de desenho para a mesa de jantar, e entre nacas suculentas de carne e goles de cerveja estupidamente gelada, os amigos passam horas e horas conversando e desenhando.

Durante mais de um ano, eu não levei sketchbooks, simplesmente porque não tinha um. Até que um dia revirei as gavetas da mapoteca, encontrei muitos desenhos e estudos recentes a antigos, e montei o meu primeiro sketchbook.

Estas são algumas das imagens deste caderno, que finalmente sairam das gavetas e foram para a estante, juntamente com outros tantos livros e sketchbooks que hoje povoam meu estúdio.

O desenho do caubói cavalgando um pincel foi usado pela primeira vez em um evento em Kansas, em 1998. Alguns anos depois pintei a mesma imagem em uma camiseta, que depois recortei, colei em um papel paraná, pintei com gel acrílico e tinta a óleo, e acabou virando a capa deste sketchbook.

Algumas vezes eu deixo o lápis ir aonde ele quiser, e espero ele me trazer um desenho novo. É como uma pescaria, algumas vezes vem peixe, outras vem uma bota velha, e tem dias que não vem nada.

Um dos primeiros estudos que fiz com lápis-pastel, uma técnica que acabei incorporando totalmente no meu dia-a-dia

Depois de algumas botas, o lápis de pescar me trouxe esta moça, que eu enfeitei com um restinho da aquarela que sobrou de outro trabalho.

Desenhar carros não é difícil. Nem as rodas. A encrenca é colocar tudo junto.

Eduardo Schaal desenhando durante um dos Bistecões

Eduardo Schaal desenhando durante um dos Bistecões

sketch de imagem congelada do filme Minority Report

Sketch de imagem congelada do filme Minority Report