Outro dia eu postei dois videos muito inspiradores, do Milton Glaser, e um deles terminava com uma frase sensacional, que a nossa profissão permite que a gente se fascine e se inspire com o trabalho dos outros, sempre, não importa quanto tempo tenha de carreira, a admiração e a energia que ela contém nunca acaba.
É um grande privilégio trabalhar em uma profissão que mantém o frescor e a vitalidade de se deixar arrebatar, por anos e anos, sabendo que esta sensação maravilhosa não tem prazo de validade.
Eu vivo esta realidade todos os dias, e algumas vezes eu me deixo embriagar pela admiração que eu tenho por alguns artistas. Um deles é Pat Metheny, um guitarrista de um talento incrível, de composições que atravessam a alma, e contam longas estórias sem palavras.
Pode ser viagem minha, mas a música de Pat Metheny me inspira profundamente, e já me acompanhou em inúmeras noites viradas de ilustração e pintura, criando novas sinapses, falando a língua do inconsciente, calando o meu cérebro racional e liberando o cérebro criativo.
Outra noite eu estava assistindo o DVD More Travels, e a cada cena dava um pause eu pensava: “putz, que cena legal, preciso pintar isto…”, até que eu parei de assistir passivamente e resolvi estrear o Moleskine cravado na estante, novinho, impecável, que tanto me intimidava há meses. Espalhei algumas tintas acrílicas na mesa, e resolvi fazer algumas experiências que jamais faria em papéis importados ou em trabalhos com prazo de entrega. Afinal os sketchbooks são o território perfeito para mergulhar no desconhecido.
Grafite, solvente, pincéis grandes e pequenos, secador e tinta acrílica, tentando capturar das cenas do DVD o fascínio que a Arte de Pat Metheny sempre me causou.
Eu tive um certo receio em mostrar estas imagens, porque elas vão contra o que tenho falado e criado em meus sketchbooks, o desapego pelo trabalho primoroso, a necessidade de soltar a mão e não fazer imagens com “cara de portfolio”, mas esta foi de fato uma aventura, uma experiência nova e surpreendente, mesmo carregando um certo preciosismo.
Não há nada de novo, criativo ou autoral nestes trabalhos, mas o processo, a experimentação da técnica e a captura de um estado de espírito é o que me motivou neste caso.
Estes 3 estudos foram feitos em duas noites consecutivas, das 11:00hs as 02:00hs mais ou menos. Depois a rotina se incumbiu de matar a motivação para continuar neste ritmo por vários meses.
Preciso voltar a atacar o Moleskine com esta mesma energia, estas são as únicas imagens que fiz nele, até agora.
A energia criativa do fascínio é tão poderosa quanto volátil, se não for capturada e transformada imediatamente em algo material, palpável, ela te abandona com a mesma velocidade e intensidade que chegou, e em uma fração de segundo voltamos a viver a banalidade do mundo real, chato e monótono do dia-a-dia, sem nada que nos lembre daquela sensação poderosa, que alguns chamam de “inspiração”.
Eu não gosto, não confio e nem costumo usar este termo, eu prefiro acreditar no “fazer”, quando a vontade de realizar é maior que a preguiça, ou que os desvios de foco das nossas obrigações mundanas.
A vida fica nos testando a perseverança o tempo todo, nos brindando com o prazer intoxicante dos momentos criativos, mas nos atropelando com a realidade no instante seguinte. E dá-lhe contas para pagar, horários para cumprir, e coisas importantes para fazer.
Basta o som do telefone ou a lembrança de um compromisso qualquer para despedaçar a magia, arrancar a gente do estado de sonho desperto e nos derrubar de volta à realidade.
A gente tem mais é que roubar neste jogo mesmo, e levar o caderninho pra todo lado, desenhar no restaurante, na fila do banco, no farol vermelho e até no banheiro. Se não for assim, a vida nos rouba a magia de se deixar fascinar, e isto é uma perda imensa, irrecuperável.
Hoje eu tive mais um destes momentos mágicos, quase sem querer, enquanto meu filho brincava no computador e eu rabiscava à toa, ouvindo música no outro computador ao lado dele.
Pat Metheny novamente me ajudou a desligar o lado racional dos meus miolos, e eu deixei a música Jaco rolar em loop por algumas vezes, enquanto desenhava thumbnails com uma bic em papel jornal, e contava quem era Jaco Pastorius para meu filho. Resolvi procurar algumas fotos dele no Google, e acabei rabiscando algumas coisas interessantes, postadas aqui, afinal faz tempo que não coloco desenhos novos no blog.
Vou me permitir ao fascínio que cultivo aos meus ídolos mais vezes, e sempre que possível vou tentar traduzir estes momentos em desenhos, estudos, rascunhos e pinturas.
Sr. Milton Glaser, obrigado por confirmar o que eu sempre quis acreditar sobre a minha paixão pelo desenho: ela é constante, intensa e infinita.






















































