Category Archives: Sketchbook

Jaco Pastorius, Milton Glaser, Pat Metheny e desenho

Outro dia eu postei dois videos muito inspiradores, do Milton Glaser, e um deles terminava com uma frase sensacional, que a nossa profissão permite que a gente se fascine e se inspire com o trabalho dos outros, sempre, não importa quanto tempo tenha de carreira, a admiração e a energia que ela contém nunca acaba.

É um grande privilégio trabalhar em uma profissão que mantém o frescor e a vitalidade de se deixar arrebatar, por anos e anos, sabendo que esta sensação maravilhosa não tem prazo de validade.

Eu vivo esta realidade todos os dias, e algumas vezes eu me deixo embriagar pela admiração que eu tenho por alguns artistas. Um deles é Pat Metheny, um guitarrista de um talento incrível, de composições que atravessam a alma, e contam longas estórias sem palavras.

Pode ser viagem minha, mas a música de Pat Metheny me inspira profundamente, e já me acompanhou em inúmeras noites viradas de ilustração e pintura, criando novas sinapses, falando a língua do inconsciente, calando o meu cérebro racional e liberando o cérebro criativo.

Outra noite eu estava assistindo o DVD More Travels, e a cada cena dava um pause eu pensava: “putz, que cena legal, preciso pintar isto…”, até que eu parei de assistir passivamente e resolvi estrear o Moleskine cravado na estante, novinho, impecável, que tanto me intimidava há meses. Espalhei algumas tintas acrílicas na mesa, e resolvi fazer algumas experiências que jamais faria em papéis importados ou em trabalhos com prazo de entrega. Afinal os sketchbooks são o território perfeito para mergulhar no desconhecido.

Grafite, solvente, pincéis grandes e pequenos, secador e tinta acrílica, tentando capturar das cenas do DVD o fascínio que a Arte de Pat Metheny sempre me causou.

Eu tive um certo receio em mostrar estas imagens, porque elas vão contra o que tenho falado e criado em meus sketchbooks, o desapego pelo trabalho primoroso, a necessidade de soltar a mão e não fazer imagens com “cara de portfolio”, mas esta foi de fato uma aventura, uma experiência nova e surpreendente, mesmo carregando um certo preciosismo.

Não há nada de novo, criativo ou autoral nestes trabalhos, mas o processo, a experimentação da técnica e a captura de um estado de espírito é o que me motivou neste caso.

Estes 3 estudos foram feitos em duas noites consecutivas, das 11:00hs as 02:00hs mais ou menos. Depois a rotina se incumbiu de matar a motivação para continuar neste ritmo por vários meses.

Preciso voltar a atacar o Moleskine com esta mesma energia, estas são as únicas imagens que fiz nele, até agora.

A energia criativa do fascínio é tão poderosa quanto volátil, se não for capturada e transformada imediatamente em algo material, palpável, ela te abandona com a mesma velocidade e intensidade que chegou, e em uma fração de segundo voltamos a viver a banalidade do mundo real, chato e monótono do dia-a-dia, sem nada que nos lembre daquela sensação poderosa, que alguns chamam de “inspiração”.

Eu não gosto, não confio e nem costumo usar este termo, eu prefiro acreditar no “fazer”, quando a vontade de realizar é maior que a preguiça, ou que os desvios de foco das nossas obrigações mundanas.

A vida fica nos testando a perseverança o tempo todo, nos brindando com o prazer intoxicante dos momentos criativos, mas nos atropelando com a realidade no instante seguinte. E dá-lhe contas para pagar, horários para cumprir, e coisas importantes para fazer.

Basta o som do telefone ou a lembrança de um compromisso qualquer para despedaçar a magia, arrancar a gente do estado de sonho desperto e nos derrubar de volta à realidade.

A gente tem mais é que roubar neste jogo mesmo, e levar o caderninho pra todo lado, desenhar no restaurante, na fila do banco, no farol vermelho e até no banheiro. Se não for assim, a vida nos rouba a magia de se deixar fascinar, e isto é uma perda imensa, irrecuperável.

Hoje eu tive mais um destes momentos mágicos, quase sem querer, enquanto meu filho brincava no computador e eu rabiscava à toa, ouvindo música no outro computador ao lado dele.

Pat Metheny novamente me ajudou a desligar o lado racional dos meus miolos, e eu deixei a música Jaco rolar em loop por algumas vezes, enquanto desenhava thumbnails com uma bic em papel jornal, e contava quem era Jaco Pastorius para meu filho. Resolvi procurar algumas fotos dele no Google, e acabei rabiscando algumas coisas interessantes, postadas aqui, afinal faz tempo que não coloco desenhos novos no blog.

Vou me permitir ao fascínio que cultivo aos meus ídolos mais vezes, e sempre que possível vou tentar traduzir estes momentos em desenhos, estudos, rascunhos e pinturas.

Sr. Milton Glaser, obrigado por confirmar o que eu sempre quis acreditar sobre a minha paixão pelo desenho: ela é constante, intensa e infinita.

Virada cultural 2009

Off topic logo na segunda-feira?

Nem tanto.

No dia da abertura da Virada Cultural acordei determinado a passar dois dias desenhando a cada oportunidade que aparecesse, e comecei no café da manhã. Mas ainda não estava acelerado o suficiente, eu tenho a tendência de esticar um rascunho por quase uma hora, um hábito que preciso combater com muito desenho, torrando folhas e mais folhas do sketchbook.

Chegando no evento eu me preparei para exercitar o desenho mais desencanado, acelerado, rascunhão mesmo.

E nem poderia ser diferente, por causa da dinâmica do ambiente. Ninguém ficava parado por mais de 30 segundos, e mesmo que ficasse, sempre aparecia alguém na frente, então tinha que ser rápido mesmo, e contar com a memória visual.

Mesmo a fila mais demorada que peguei, cerca de uma hora e cinquenta, andava, e isto me fazia desenhar em modo acelerado.

Conceitos que vou aplicar no workshop de técnicas de sketchbook que começam neste mês.

Para o meu desespero, os portões do Municipal fecharam com mais de 200 pessoas na fila à minha frente. Parti para o plano B, e peguei a primeira fila do telão, instalado na frente do teatro.

O som estava bom, e tive várias câmeras oferecendo diversos ângulos excelentes para desenhar, e a cada troca de cena eu começava um rascunho novo, em 3 sketches simultâneos.

Ficou tosco…

Que bom!

Eu experimentei um novo formato ao desenhar em um ambiente diferente, inusitado. Desenhar fora do estúdio, longe da sua área de conforto, à noite, com gente esbarrando no seu braço, e até mesmo andando, foi uma experiência nova, e estou certo que vai ser moleza voltar a desenhar em lugares mais adequados.

O evento foi fantástico, vi Egberto Gismonti, Cama de Gato, Zeca Baleiro, Francis Hime com orquestra e Central Scrutinizer (banda que faz cover impecável do Zappa), mas o Ike Willis não era cover, ele tocou e cantou com o “homi” por vários anos.

Estive na livraria HQ MIX do Gualberto Costa e sua esposa Daniela Baptista, e encontrei vários amigos por lá, entre eles Salvador Messina (em pé), na foto com o dono da casa.

Se você ainda não conhece a livraria, não sabe o que está perdendo, aquilo é o paraíso, a perdição, um templo de luxúria, lotado de objetos de desejo para quem gosta de quadrinhos e Arte em geral.

Dos livros e revistas que a gente gosta, a livraria HQ MIX tem tudo e mais um pouco.

E como lá se tornou um ponto de encontro de desenhistas, terminei a madruga de sábado entre amigos, desenhando um paper toy art do Grandpa Munster, o vovozinho da Família Monstro.

Ele tinha um restaurante no Greenwich Village em Nova Iorque chamado Grandpa’s, onde atendia os clientes pessoalmente, vestido e maquiado como nos filmes. Quando se candidatou a prefeito da cidade, ele disse: “Nós não herdamos o mundo dos nossos ancestrais, nós o tomamos emprestado de nossas crianças”.

Outros artistas fizeram suas contribuições, entre eles o Spacca com seu traço inconfundível.

Voltando ao off topic, as fotos que tirei na Virada Cultural estão no Flickr da Sketcheria, inclusive algumas da Estação da Luz, onde havia uma exposição de carros antigos e uma bucólica senhorinha tocando piano em um dos saguões da estação.

O espaço de música instrumental decepcionou, por ter sido confinado à rua Conselheiro Crispiniano, com um ar intoxicante devido aos geradores de energia movidos à diesel.

Suportei apenas o primeiro show com Daniel Daibem tocando samba-rock na banda Hammond Blues, batizada assim por ter um tecladista com um órgão legendário com este mesmo nome. Este instrumento ficou mais legendário ainda, depois de ter sido tocado por Jon Lord (Deep Purple) em um show que eu perdi naquele mesmo dia, infelizmente. Se eu soubesse, teria começado exatamente nesta apresentação.

Uma decepção que me fez ir passear lá longe (no começo da segunda música) foi o citarista Alberto Marsicano tocando músicas de Jimi Hendrix. Eu já tinha visto um recital de cítara em um centro de estudos indiano com ele, muito legal, mas desta vez ele pirou grandão.

Banda ruim, deprê, som monótono, chão colando, a ripaiada amontoada em coma na grama, e o som da cítara ecoando na praça feito pernilongossauro gigante, agonizando em uma looonga bad trip de Detefon com marofa.

Fui tomar café no outro lado da cidade, ouvindo piano na Praça dom José Gaspar.

4 milhões de pessoas no Centro de SP tornam a paisagem em algo quase surreal, é uma multidão mesmo, no sentido mais literal da palavra, e a cidade sofreu com isto. No final do domingo os amontoados de lixo tentavam minimizar o estrago, mas o chão colava no solado e a quantidade de gente caindo pelas tabelas mostravam o lado feio da festa.

Só mesmo o som de Frank Zappa para me fazer aguentar corajosamente esta maratona até o final, em que eu tive apenas duas horas de sono e um banho apressado entre o primeiro e o segundo dia.

Mas no ano que vem estarei lá novamente.

Sketchcrawl Brasil – Novo recorde mundial: 154 participantes em SP

Este foi meu único desenho inteiro do Sketchcrawl, outros dois ficaram inacabados, mas tudo bem, esta é a proposta mesmo, e não ter a obrigação de finalizar também é parte da magia do encontro.

Depois do Sketchcrawl tive duas semanas corridas com trabalho e um feriado dedicado à família e ao ócio criativo, portanto o blog ficou uma semana sem updates pela primeira vez, mas provavelmente pela última.

As atualizações voltam a acontecer pelo menos 2 ou 3 vezes por semana.

O ideal para este post seria detalhar o encontro, contando as maravilhas do Sketchcrawl em diversas partes do Brasil e do mundo, que batemos nosso recorde de participantes em SP pela segunda vez consecutiva (arriscando bater novamente no próximo, que acontecerá no centrão da cidade), que o Enrico Casarosa não foi para o encontro em San Francisco por causa de uma baita gripe, mas que ele publicou um livro de 40 páginas com seus desenhos feitos nos outros Sketchcrawls, enfim, assunto sempre tem, mas em tempos de comunicação em tempo real, duas semanas fazem um post ficar desinteressante, datado, quase velho. Quem diria.

O blog do Hiro e o website da Bullet postaram na semana seguinte ao evento, vale a pena conferir.

Então apenas para não passar batido pelo assunto, e dar alguma satisfação aos visitantes da Sketcheria, ávidos por imagens, cheios de paciência para ler meus textos, vou fazer um comentário econômico, redundante e totalmente previsível:

“Foi muuuito legal…”

Tá bom, foi exageradamente econômico, mas foi sincero. Eu realmente não consigo escrever pouco…

154 participantes compareceram em São Paulo, mesmo sendo um feriado de Páscoa, e todos se divertiram muito, trocando mais informações do que eu posso imaginar. É impossível conversar o suficiente com todos, mesmo em quase 12 horas de Sketchcrawl. Eu desenhei pouco, mas me diverti muito, indo de grupo em grupo, curtindo os papos e os desenhos de quantas pessoas eu pude me aproximar.

Tudo terminou em pizza, no Macedo, e dois colegas saíram antes desta foto, mas brindamos a todos, presentes e ausentes do Sketchcrawl.

Temos novas imagens no Flickr do Sketchcrawl Brasil, que já ultrapassou os 15.000 acessos desde que foi criado em janeiro!

Lá estão as minhas 250 fotos, meu único desenho, mas em compensação há trocentas novas imagens dos colegas que conseguiram se concentrar mais no sketchbook e render uma produção bem melhor que a minha.

Aqui podem ser vistas as fotos e imagens de São Paulo no fórum oficial do evento.

Estes foram os produtos doados por vários participantes do evento. Nem todos sabiam da doação para a Casa Maria Helena Paulina, um instituto assistencial que trata de crianças carentes com câncer.

Ainda há tempo de fazer sua doação. Basta enviar um e-mail para wwsc.brasil@gmail.com e combinar o envio.

Não deixe de conferir o Fórum Internacional do Worldwide Sketchcrawl, onde pessoas do mundo inteiro estão postando fotos, sketches e as estórias do dia do encontro. Conheça as cidades através do olhar dos outros artistas que foram às ruas no mesmo dia que nós!

Para ter suas fotos no Flickr do Sketchcrawl Brasil, as fotos devem ser enviadas no tamanho máximo de 1024 pixels para wwsc.brasil@gmail.com , e quem quiser se manter informado sobre os próximos encontros (Sketchcrawl mundial ou mini-encontros ocasionais) basta enviar mensagem em branco para Sketchcrawl_Brasil-subscribe@yahoogrupos.com.br , e assim estará inscrito automaticamente na lista YahooGroups do evento.

Há um post aqui na Sketcheria com todos os links sobre o evento, reportagens, fóruns, etc, e eu coloquei um link permanente que leva a este mesmo post no lado direito do blog, em Sketchcrawl Brasil – Todos os links do evento.

Lojinha da Sketcheria: folded pens e kits de furação

Aproveitando o tema de um post recente, caligrafia, muita gente me pergunta sobre a folded pen que eu fiz com latinha de atum, comentada aqui, sobre o workshop do Cláudio Gil.

Teve gente querendo mais fotos, como fazer a pena, workshops de pena, tutoriais, e alguns me perguntaram se eu não faria outra pena igual, que eles tinham interesse em comprar.

Com a folded pen artesanal fiz alguns estudos com Ecoline, que rendem longos assuntos com os amigos, nem tanto pela qualidade do trabalho, mas pelo interesse deles no modelo da pena, que permite algumas aventuras caligráficas bem legais.

Seria improdutivo fazer uma ou duas, e um tanto sacana vender apenas para os mais chegados, portanto eu decidi fazer uma pequena linha de montagem e vender as penas sob encomenda. As penas são cortadas e dobradas cuidadosamente, seguindo o mesmo gabarito desta da foto, lixadas e recebem acabamento com micro óleo M1.

E vem com o adaptador preto, super style!

Estou fazendo também um kit de furação para a confecção de sketchbooks.

Coisa fina: peroba rosada (calma, é madeira reutilizada de demolição), com grossas agulhas de aço.

A furação, encaixe e colagem das agulhas foi feita por mim. Nem um marceneiro teria tanto critério para as agulhas não sairem do alinhamento.

O padrão será de 10 furos, com 17 cm de comprimento, como nos cadernos do Bistecão Ilustrado, mas posso fazer outras medidas e padrões de furos customizados.

Quem fez o workshop Diário Gráfico com o Renato Alarcão já sabe o trabalho que dá furar cada um dos cadernos na mão, furo por furo. E o risco de ter um único furo teimoso, desalinhado, estragando a harmonia do caderno inteiro.

Com este kit você prende as folhas entre a guia e a peça triangular e passa as 10 agulhas de uma vez, sem erro, sem esforço, sempre com as mesmas exatas medidas.

Todos estes cadernos foram furados em menos de meia hora. Não teve nem graça. No método tradicional teria levado uma tarde inteira, e provavelmente um pedaço da noite.

Quem se interessar em adquirir estas peças e inaugurar a “lojinha da Sketcheria”, é só me mandar um e-mail, ok?

As penas ficarão em R$ 40,00 cada (completa, com adaptador), e o kit de furação por R$ 120,00 (mais despesas de Sedex).

Curso de Caligrafia com Andréa Branco

No ano passado fiz um workshop de caligrafia experimental com Cláudio Gil, no ateliê da Andréa Branco.

Há um post sobre esta aventura caligráfica aqui no blog, inclusive com um pequeno video com o mestre em ação.

Sei que muitos colegas se interessam por caligrafia, e ao invés de repassar o e-mail que recebi da Andréa apenas para alguns, achei mais interessante postar aqui e contar algumas novidades.

Andréa Branco é uma autoridade no assunto, e um doce de pessoa. Suas turmas se formam em torno do interesse pela Arte da Caligrafia e, por afinidade, grandes amizades se formam. Conheci gente muito legal lá, e imagino que os leitores da Sketcheria poderão encontrar técnica de alto nível e pessoas geniais neste curso.

Desenhando no Mercado Municipal

No sábado passado fui desenhar no mercadão do Centro de São Paulo, com Eduardo Bajzec e Luiz Rosso. A Sabrina Eras chegou a ligar, mas no meio da muvuca nos desencontramos.

Os vitrais do mercado são de uma beleza hipinotizante, e desenhá-los seria uma tarefa muito acima das minhas capacidades, então fiz um sketch mais centrado na luz ambiente, tentando não me perder na grandiosidade do local, um problema que o Bajzek certamente não enfrentou em seu desenho, feito no mesmo local, em uma mesa de restaurante no mezanino.

Preciso voltar lá mais vezes, o lugar é pitoresco, bonito, desenhável… e lotado pacas. Talvez eu me dê melhor com uma câmera, desenhando no estúdio depois.

Eu fiquei mais um pouco depois que os dois colegas foram embora, e desenhei esta imagem focando na composição entre as formas da coluna e do vitral. É incrível como uma paleta de cores reduzida pode dar mais resultado do que usar todas as canetas da mochila.

Um dia vou conseguir ser mais simples.

Caminhando e sketchando

O Sketchcrawl Brasil aconteceu em 10 de janeiro, e alguns, como eu, acham que esperar 3 meses até o próximo é tempo demais.

Aquecendo as canetas até abril, quando acontecerá o próximo evento mundial, mini-sketchcrawls estão sendo promovidos na lista Yahoo do Sketchcrawl Brasil, e no sábado passado a Renata Polydoro convocou a galera para se reunir no Fran’s da Praça Benedito Calixto.

O lugar é muito rico em temas, desde a igreja, em frente ao nosso ponto de encontro, até a feira de objetos “cult” da praça.

Eu continuei no mesmo ritmo no dia seguinte, cultivando o hábito de andar com os cadernos para todo lado, e fiz um desenho durante o café da manhã, na Livraria da Vila. E ainda sobrou um tempinho para um rascunho no shopping Villa-Lobos.

Uma parada no MuBe também mereceu uma página nova no sketchbook. Aliás, é um ótimo lugar para um próximo encontro de desenhistas, com uma arquitetura muito interessante, uma feirinha de antiguidades altamente desenhável, e bem ao lado do MIS – Museu da Imagem e do Som, também um excelente tema para desenho de locação.

O Mercado Municipal, no centro da cidade também é uma boa opção para estes pequenos encontros de fim-de-semana.

Caminhando em terreno inexplorado

Quando se descobre uma nova fonte de energia ou um território inexplorado, não se tem a noção exata do que se tem nas mãos, nem a dimensão da extensão ou a profundidade desta descoberta.

Eu ando me sentindo assim com os sketchbooks.

Eles me abriram “portas da percepção”, e ao contrário de Aldous Huxley, eu posso fazer minhas experiências livremente, legalmente e sem danos neurológicos.

Dos workshops do Renato Alarcão ao desengavetar papéis velhos e montar cadernos, e até mesmo na escolha temática deste blog, tenho caminhando em um território inexplorado, fascinante, e vejo agora que há muitos, como eu, interessados em descobrir onde isto tudo pode nos levar.

O retorno que estou tendo com o Sketchcrawl Brasil tem sido surpreendente, além do número recorde de participantes, tenho recebido todo tipo de feedback, de e-mails pessoais a entrevistas, além de inúmeros contatos com pessoas de diversas áreas, que desejam retomar o hábito de desenhar, por prazer ou por ambição profissional.

Eu mesmo tenho experimentado muitas possibilidades novas, técnicas diferentes, temas e abordagens que permitem tirar do trivial algo único, e o resultado deste meu novo hábito é que a mudança acontece não no papel, nem tanto no traço, mas no olhar.

Parece que ao fechar o caderno com um desenho novo nele, o olhar continua atento, o senso de observação fica mais aguçado e até certo ponto mais perceptivo a detalhes e sutilezas, que passam despercebidas quando se está fora deste ritmo constante de desenho.

A impressão que tenho é que estou enxergando melhor, percebendo mais e processando melhor tudo que acontece diante dos meus olhos.

Tudo parece mais “desenhável”, dos detalhes de porcas e parafusos no extintor de incêndio aos corredores e paredes, das dobras das roupas às características faciais das pessoas, gente bonita fica fascinante, gente feia fica interessante, enfim, é como se eu estivesse ligado no modo “draw”, mesmo quando não estou desenhando.

Acho que estou adquirindo a disciplina e a compulsão por desenhar que eu busquei a vida inteira.

Finalmente estou ficando doido o suficiente para querer desenhar o tempo todo, ou de desenhar com os olhos, mesmo quando não estou desenhando com as mãos…

A energia trocada com as pessoas interessadas nos sketchbooks, ver seus desenhos, sentir a motivação brilhar nos olhos, criar objetos de desejo em forma de cadernos, isto tudo me alimenta também, e me faz sentir que estamos abrindo picada em uma mata inexplorada, um terreno inédito no Brasil, que são
os sketchbooks, com seus desenhos sem cliente, feitos sem compromisso, criados pelo mais absoluto e puro prazer de desenhar.

Não sei onde isto vai nos levar, mas talvez tudo isto seja ao mesmo tempo o segredo, a pergunta e a resposta. É provável que o destino seja o próprio caminho trilhado.

Pousada na Barra, em Salvador. Vista da cama. Só geometria perfeita e cores lindas, não dá vontade de desenhar?

Sabe quando você passa em algum lugar, tem vontade de recortar aquela imagem do cenário e levar com você, mas sempre tem algo que te impede? Eu sinto isto o tempo todo em viagens, por isto eu fotografo tanto, enlouquecidamente, compulsivamente, pensando em desenhar ou pintar tudo aquilo um dia.

Detalhe do topo de uma porta no Pelourinho, em Salvador. Depois de muitas fotos familiares, sorrisos, caretas, etc, liguei o modo “draw” e despertei para riqueza dos detalhes e das cores em cada palmo ao nosso redor. Zoom no máximo, e fotos, muitas fotos.

Aos poucos estou encaixando peças importantes no meu quebra-cabeças interior, unindo este hábito antigo de fotografar pensando no desenho, com o novo prazer de carregar sketchbooks para todo lado.

Materializando um antigo projeto, desenhar sobre fotos, tiradas com este único propósito. Estes dois desenhos de Salvador foram feitos ontem, entre um gole e outro de um copão de Café Mocha, no Starbuck’s.

Evento de carros antigos no autódromo de Interlagos. Desenharia lá por uma semana inteira, mas tenho fotos suficientes para desenhar carros antigos, hot-rods, stock-cars, concept-cars, etc, por meses a fio.

Carrego minhas fotos preferidas no ipod, preso com elásticos no caderno, e tenho anos de imagens, viagens congeladas no tempo, memórias vívidas e significados pessoais, sempre disponíveis na página ao lado. Seja na fila do banco, ou enquanto aguardo minha vez no consultório do dentista, no sofá depois do jantar, enfim, valeu a pena fotografar tanto, e agora é só desenhar tudo.

Louco? Talvez.

Feliz? Com certeza.

Sketchbooks – na cola dos heróis

Algumas vezes parece que o lado criativo do cérebro sai de férias, mas aquela vontade atormentada de desenhar fica de plantão, disposta a virar a noite, e aí, como saciar esta sede?

Já aconteceu com você de querer desenhar e faltar assunto, faltar um tema, faltar aquela lampadinha brilhando em cima da cabeça, como nos quadrinhos?

Eu estive assim nestes dias. Com tempo, com vontade, e com a lâmpada apagada…

Quando isto acontece, eu apelo mesmo, sem o menor pudor, desenho na cola dos meus heróis, pra ver se pega no tranco, ladeira abaixo, na banguela.

Estava na Livraria da Vila e grudei em um livro do Hundertwasser, de quem sou fã há muitos anos, afundei nas almofadas e pirei em um dos seus quadros. Fui atrás dele, tentando aprender alguma coisa, absorver aquela magia toda por osmose, e fiz uma cópia descarada e um tanto tosca daquele trabalho, mas a idéia não era fazer uma réplica pra vender no mercado negro, e sim entender como ele pensou aquela obra.

O desenho da Mônica veio no dia seguinte, feriadão, tomando café da manhã com a família no Fran’s, a Mônica brincando no celular novo, paradinha… Ela gostou muito, eu achei que o desenho poderia ficar bem melhor.

Logo em seguida me veio a imagem do Hundertwasser na cabeça, como eu poderia misturar aquela maravilhosa confusão de cores e traços em uma paisagem urbana. Sketchcrawl chegando, eu pensei que seria legal entortar a cidade com aquele estilo, e misturando todas as canetas, canetinhas e canetões que eu carrego na mochila, saiu o desenho acima, quase abstrato, entre uma bocada de pão com manteiga e um gole de café com leite, enquanto a Mônica enviava a primeira mensagem de Twitter pelo celular.

E este fundo foi feito carimbando tinta a óleo usando aquelas réguas de normógrafo, lembra? Antes das fontes TrueType a gente marcava letras com equipamentos caríssimos, Kern, importados da Suíça. Eu comprei meia dúzia destas réguas outro dia a preço de banana em fim de feira. A tinta a óleo sela o papel contra as cores que vazam pelo outro lado do papel, e dá um efeito interessante.

Dias depois a lampadinha continuava apagada, mas os dedos estavam nervosos. Desenhar, desenhar… de blog em blog eu via artistas geniais arrebentando, centenas de desenhos que pareciam sair do nada, até que eu entuchei o pudor no lixo novamente, e usei um thumbnail a lápis de um artista que nem sei o nome, misturei as canetas como no estudo anterior, e a luz em cima da minha cabeça deu umas piscadas.

Rolou até um esquema de luz e sombra que não existia no desenho do cara, e no final eu me senti um pouco menos chupa-cabra, mas ainda comportado demais, eu quero entortar mais, quero linhas desencontradas, cores fora dos contornos.

Piscou mas não brilhou, e fiquei um tempão sobre alguns estudos abstratos de cor (descobri que as canetas Posca cinza funcionam bem em cima de cores intensas, chapadas). Boring, mas importante. A chatice faz parte, entender o processo, buscar uma técnica e reinventar a roda nunca foi um processo indolor. Mas algumas coisas interessantes começaram a sair no papel, como esta imagem, que escapou do lixo e veio parar no sketchbook.

O processo é longo, dias depois eu ainda estava na cola de alguns magos do desenho, como Mark Behm. Ele faz tudo parecer fácil, desenhar, pintar, criar personagens e universos. Eu desencanei e soltei o chupa-cabra nele também, mas usando esta minha técnica teimosa, pintando o fundo com marcadores daqueles antigos, que cheiram a Thinner, cobrindo com Posca cinza. Estou gostando muito desta combinação.

Flickr, Image Bank, milhares de fotos, e resolvi arriscar minhas canetadas caricaturando uma boca aqui, um nariz ali. Hmmm… legaus.

Boralá, fazer outra moçoila em um papel que estava pra lá de manchado, testando até onde posso ir com a cobertura das canetas Posca.

Ela não só cobre as outras cores, como deixa um tonzinho aparecendo por trás. Pode chutar o balde no “underpainting”, o processo fica horroroso na metade, mas no final tudo se encaixa. A mão parece bem mais solta agora, dá para arriscar mais, e descobri que neste mato tem coelho, vou fazer mais estudos combinando canetas diferentes.

Gostei do resultado, acho que estou encontrando aos poucos o fio da meada que estava procurando, dias atrás.

A lampadinha ligou novamente!

Workshop Diário Gráfico em SP (corrigindo as datas)

O ilustrador Renato Alarcão estará em São Paulo nos dias 16, 17 e 18 de janeiro, trazendo mais uma edição do workshop Diário Gráfico, onde são apresentadas diversas técnicas de desbloqueio criativo e encadernação de sketchbooks.

Eu fiz o workshop com ele duas vezes, e para não me estender muito em elogios e rasgação de seda (totalmente justificáveis), basta dizer que este blog não teria sido criado, nem meus cadernos ou a experimentação que tenho feito nos sketchbooks, se não fosse o impulso inicial do Renato Alarcão.

Costumo dizer a ele que a raquetada nos meus miolos foi tão grande, que meu cérebro está girando até hoje, quatro anos depois do primeiro workshop. Escrevi um post sobre este assunto aqui.

Entre em contato com ele por e-mail ou pelo telefone (21) 3602-3760, mas não demore, porque as vagas são poucas.

Enjoy!