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Gastando como se não houvesse amanhã

Claro que não se trata de gastar dinheiro, gostaria muito de exercitar a liberdade de torrar grana impiedosamente, como tenho feito com meus materiais de desenho e pintura.

Não nesta vida.

Este processo começou em uma faxina do estúdio, quando me dei conta da quantidade de material que eu tinha primorosamente armazenado durante mais de 20 anos, usando tudo com uma economia de Tio Patinhas, quando a verdade me caiu na cabeça como um piano: “Eu pareço um dono de armazém, e não um artista”.

Foi um choque.

Por quê eu não usei tudo isto antes de secarem os tubos de guache, ecolines e canetas de ponta de feltro?

Ser muquirana com material de pintura é auto-sabotagem.

Eu tinha que fazer algo a respeito, e comecei tomando uma decisão: gastar material sem dó, como se não houvesse amanhã. Muito melhor do que manter aquele estoque de tintas seria ter usado tudo, até a última gota, e ter pilhas de desenhos do chão até o teto.

Tenho feito isto consistentemente, nos últimos 3 anos, e o resultado são os sketchbooks engordando como porquinhos a cada dia.

Detonando as poucas canetas Design que me restaram, fui visitar o Ricardo Antunes, que me deu um presente incrível: sua coleção de canetas e marcadores. Meu pai negaria se eu pedisse, um irmão mataria o outro por estas canetas, e ele me entregou um tesouro pessoal sem verter uma lágrima. Caba macho padaná!

Compulsivo que sou, quero mais. Estou disposto a comprar canetas Design, Copic, Prismacolor e Mecanorma de quem as tiver mofando na gaveta. Se quiser fazer negócio, me mande um e-mail, ok?

Outro dia comprei algumas réguas de normógrafo, que eram caríssimas há 10 anos, mas hoje são vendidas a granel nas estantes de liquidação da Casa do Artista. Eu uso como carimbo para criar padrões de fundo.

Ontem eu revirei (ok, eu e a Mônica reviramos) a casa atrás de meus Ecolines, alguns muuuito antigos.

O cheiro destas tintas antigas é uma máquina do tempo, por alguns segundos mergulho numa profunda regressão: estou com 12 anos de idade, indo para a escola. Pena que a viagem seja tão breve.

Guardo guaches em um baleiro, mas procuro um daqueles antigos, giratórios. Sonho de consumo besta, mas um dia vou encher um baleiro de 4 compartimentos, e esvaziar com gosto.

Encontrei por acaso minhas folhas de Letraset, algumas craquelando como papiros egípcios. Uma delas colou no papel, rachou, esfarelou, desgraceira total. Meu lado racional insistia em despregar os caquinhos para continuar, quando eu me dei conta da liberdade indescritível que aquilo representava.

Pela primeira vez em 25 anos usando Letraset, eu não tinha cliente, diretor de arte ou qualquer motivo para preciosismo. Poderia ficar assim, e contar com o imprevisto, deixar reinar o caos, poderia fazer o resultado ficar até melhor, com relevo, com personalidade, com estória pra contar.

Gostei tanto que resolvi fazer uma coisa impensável até este dia: Torrar as letras como nunca me permiti na vida. Com as regras e os protocolos tipográficos no lixo, me aventurei sem saber onde nem como iria terminar.

O ritual de transferir letras sempre foi quase sagrado, tudo era tão caro que cada letra perdida doía na alma, sabendo que qualquer “til” que me faltasse me empurraria a uma de duas alternativas: fazer na mão com cuidado cirúrgico, ou comprar outra folha.

Detonar Letraset ontem me rendeu um prazer que eu não conhecia, e por algum motivo lembrei do Al Pacino dirigindo uma Ferrari, cego, pelos becos de NY no filme Perfume de Mulher.

Alguma parte do meu cérebro ainda guardava pudores quase virginais quanto ao uso das letrinhas, e assistia horrorizado aquilo tudo, enquanto outra parte se acabava em uma orgia tipográfica desenfreada, sem regras, sem compromisso, sem camisinha.

Fui dormir às 4 da matina, cansado, feliz, renovado e sem culpa.

Tenho que admitir e reconhecer que esta idéia não é nova, nem minha. Vi o Kako usando Letraset nos seus cadernos, e sabia que não conseguiria evitar uma pontinha de plágio sua influência, nos meus.

Aliás, verdade seja dita, o Kako tem motivado uma legião de desenhistas a criar ou reconquistar o hábito do sketchbook através dos encontros do Bistecão Ilustrado, sem este impulso talvez não houvessem tantos desenhos em meus cadernos recentes, e provavelmente não haveria este blog, não com este contexto.

Kako, meu irmãozão: Obrigado, thanks, grazie, spaciba, merci, danke.

(head bow)

Domo arigato!

Hoje à noite tem mais suruba de letrinhas. Uhú!

Canetas de pescar sonhos

Por uma série de acasos, encontros e desencontros, moro hoje no mesmo bairro onde passei alguns bons anos da minha infância.

Meu filho estuda a poucos metros da lanchonete que foi dos meus pais, quando eu tinha 9 anos de idade, e o desenho abaixo, com ele brincando na areia, foi feito na pracinha onde eu andava de bicicleta com meus amigos.

Hoje mais um destes acasos me transportou no tempo, depois de almoçar com a família.

Ainda na mesa do BurDog da Av. Sto Amaro, estava terminando de desenhar os nomes das ruas do bairro no sketchbook, e cada uma me trazia lembranças dos amigos, das brincadeiras, enfim, estava revirando o álbum das memórias, você sabe como é.

Aí eu olhei pela vidraça, no outro lado da avenida, e uma cena absolutamente comum me trouxe os sons, os cheiros e as imagens tatuadas na minha mente aos 9 anos de idade, como uma máquina do tempo.

Uma revoada de pássaros no final da tarde, centenas de piados simultâneos formando um som contínuo como um mantra, exatamente como acontecia na frente da lanchonete do meu pai, onde do outro lado da rua haviam 3 árvores imensas, e que hoje só existem na minha memória. Foram arrancadas daquela calçada há poucos anos.

Um banana split para 3 desviava minha atenção, que estava mais para os pássaros no Brooklin dos anos 70, no quintal daquela lanchonete da minha infância, e que hoje é uma alfaiataria.

Abandonei minha parte da sobremesa, e com o sketchbook e canetas de pescar sonhos, mergulhei de cabeça na minha viagem ao passado, sabendo que uma câmera não seria capaz de capturar aquela sensação, seria muito literal, fria, sem o clima de sonho que eu estava vivendo.

Esta tarde me rendeu um peixão. Pode não ser grande coisa como desenho, mas eu vejo nele vários layers emocionais acumulados em algumas décadas.

E não é estória de pescador, é tudo verdade.

Letras vivas

Há muitos anos tenho feito, quase sem perceber, um tipo de letra que pede para ser trabalhada, desenvolvida, amadurecida. Como são poucas as oportunidades de desenvolver um trabalho de Typefont, eu dediquei pouco tempo para atender aos seus pedidos.

Mas ela é persistente, e quer entrar nas minhas páginas.

Quer existir.

Quando apareceu um projeto pessoal, a convite do Gualberto “HQMix” Costa, ela apareceu antes do desenho, e ganhou seu espaço no título da minha página, na estória em quadrinhos coletiva O Crime do Teishoku Preto. (© fotos: Mario Cau)

Duas semanas depois, outro projeto de liberdade criativa: este blog. Qual o nome ideal para um blog? Qual é o tema, a personalidade deste espaço? Que identidade visual ele vai ter?

Quando encontrei o fio da meada, pelo menos nos conceitos de conteúdo e visual, o quebra-cabeças ainda tinha duas peças por completar, o nome e o logo.

Minha esposa sugeriu o nome “Sketcharia”, que imediatamente fez clic, e agora restava só uma peça.

Eu troquei uma letra, e na manhã seguinte, antes que eu pensasse em um rascunho, a Typefont pulou no papel com vida própria, vestida de arte-final.

E me mostrou claramente a que veio, o papel em que ela fica melhor, suas canetas preferidas, adora uma moldura branca ou preta, e me fez entender sua importância no meu repertório visual.

Por fim demarcou seu território: os sketchbooks.

É óbvio, ela é uma Typefont de sketchbook, como eu não vi isto antes?

Muitos ilustradores tem seus personagens, habitantes vivos de seu mundo gráfico, reconhecíveis em qualquer técnica. O mesmo acontece com suas caligrafias, que tem a cara e a alma do autor.

Esta Typefont acaba de entrar na minha vida como um bicho de estimação, e só faltou abanar as serifas quando molhei as letras com aquarela.

Ela vai ter um leve sotaque de Uncial, principalmente nos As e Es, mas talvez se chame Garamonta, por influência da Garamond e suas serifas arredondadas, sua elegância comprida como as pernas da Gisele Bundchen. Também tem muito das garatujas, desenhos feitos nos cantos do papel, sem muito rigor, mas cheios de expressão e vitalidade. E tem meu apelido, o atalho do meu nome.

Quando a gente dá nome ao bichinho, não tem mais volta. Vira pet, vai pular no seu colo, dormir na sua cama, lamber sua cara, e vai trazer a coleira na boca, pedindo pra passear.

Neste caso, vai ser a caneta, e já sei que não vou conseguir negar os passeios no sketchbook.