Nas últimas semanas tivemos mais um episódio escandaloso na web, muita gritaria, flame wars, uma guerrilha viral como tantas outras, e cada lado com suas parcelas de razões e de enganos.
Foram muitas ações de marketing desastradas, concursos mal intencionados ou mal planejados, falsos virais, campanhas publicitárias travestidas de “concursos culturais”, etc, que invariavelmente explodem na web como napalms virtuais.
Grandes marcas se envolveram com este tipo de propaganda negativa, como Microsoft, HSBC, Puma, RedBull, AllStar só para citar as mais recentes, mas apenas duas tiveram uma atitude corajosa e nobre de escutar, entender e se importar com o problema, a ponto de chamar seus críticos para um debate franco e aberto, em uma mesa de reunião.
No ano passado a Livraria da Vila nos surpreendeu ao abrir suas portas para uma conversa, depois de ofertarem um “daqueles concursos”. Não se tratava neste caso se má intenção, apenas de mau planejamento, e depois de uma conversa razoável, eles concluíram que seguir adiante poderia ser um grande equívoco, além de danoso para os ilustradores, e abortaram o projeto.
Nesta semana algo parecido aconteceu com a Riachuelo, depois de uma tarde incendiária nas redes sociais.
Foram 3 episódios de imagens reproduzidas em estampas da rede, sem o devido licenciamento por parte dos artistas. A revolta foi geral, intensa e amarga, mas a surpresa maior foi a resposta quase imediata da Riachuelo, assinada pelo seu Presidente, Sr. Flávio Rocha.
Há quem diga que foi retórica, várias pessoas criticaram o teor da carta, mas eu fiquei impressionado positivamente com a postura da empresa e com o comprometimento do próprio Presidente em tomar a dianteira nestes casos de uso indevido de imagem protegida, oferecendo o próprio e-mail como canal de contato com os artistas.
Confesso que esta atitude me desarmou. Escrevi de volta imediatamente, em outro tom, e agradeci pela presteza da resposta, e em respeito ao posicionamento firme e claro da empresa, que assegurou o descadastramento dos terceirizados responsáveis por esta e pelas futuras situações similares.
Fui surpreendido novamente pelo convite de me reunir com o Presidente da Riachuelo, que se interessou em expor seus pontos de vista pessoalmente e demonstrou uma abertura no sentido de querer entender o nosso olhar sobre a questão.
Fomos eu e o Henrique Nardi até o escritório central da Riachuelo, e lá fomos recebidos pelo Presidente da rede, além das gerentes de Marketing e Jurídico, em uma conversa que durou cerca de duas horas.
Repassamos todo o ocorrido, ouvimos os argumentos da empresa, defendemos os nossos próprios, e chegamos a uma conclusão: houve o uso indevido, mas também houve a intenção de resolver e pagar aos artistas.
Isto me causou um choque, porque eu pensava que nós estávamos sendo lesados implacavelmente, quando na verdade os próprios artistas se mostraram imprevisíveis e fechados às propostas de negociação da Riachuelo.
A rede procurou entrar em contato com a artista americana, solicitando um número telefônico para um contato mais direto, mas foi tratada com desdém em uma mensagem cheia de caretinhas, linguinhas e emoticons, na qual a artista afirmava não ter tempo para ligações, e não demonstrou mais interesse em resolver a questão.
Um artista brasileiro que também teve uma imagem copiada e reproduzida foi orientado de maneira questionável e solicitou um ressarcimento em valores completamente fora da realidade, inviabilizando qualquer negociação.
Como ficamos numa situação destas?
Vendidos. Atados pelos nós que nossos próprios colegas trataram de amarrar.
Se os próprios artistas que defendemos agem de maneira descoordenada, como podemos exigir soluções?
Eu fiz o que pude, falei em nome dos profissionais de ilustração, o Henrique falou representando os designers gráficos e type designers, e demonstramos o quanto os criadores de imagem podem ser úteis no processo industrial, se contratados apropriadamente.
Houve uma boa receptividade por parte da Riachuelo em procurar entender o nosso mercado, como negociamos, como podemos ser úteis no processo industrial deles, e temos a esperança de termos semeado um novo tipo de prospecção no mercado têxtil, baseado em profissionalismo, funcionalidade e otimização de esforços.
Se eles querem ilustração, agora eles sabem que podem falar diretamente com os ilustradores. Por incrível que pareça, eles não sabiam como chegar até nós. E a culpa é nossa. Na imensa maioria das vezes nosso marketing pessoal é falho, nossa imagem é arranhada por amadores e maus profissionais, e nosso corporativismo praticamente não existe.
Nós estamos abertos a negociações, e prontos para produzir imagens de acordo com a necessidade deles.
É a nossa especialidade, somos profissionais, sérios e comprometidos com qualidade, prazos, adequação, etc.
Por outro lado, temos que passar pela vergonha de defender causas que os próprios artistas parecem desconhecer ou vê-los agir de forma inadequada, na contra-mão do profissionalismo.
Escrever para a Riachuelo com caretinhas e linguinhas, depois de TUDO o que fizemos em defesa da artista americana é absolutamente inaceitável. Eu gostaria de dizer algumas verdades para esta “artista”, mas ela nem tem um número de telefone. É patético e vergonhoso para todos que se envolveram tão furiosamente em sua defesa.
Chega desta imagem de malucos-beleza, de sociopatas vaidosos e inconsequentes que alguns artistas insistem em ostentar.
Nenhum ilustrador sério quer ser rotulado com esta pecha.
Como interceder por um artista nacional que teve uma imagem violada, quando sua solicitação é tão irreal que mesmo o melhor argumento se torna inconsistente, indefensável? A negociação e a expectativa de reparos financeiros não pode ser vista como uma oportunidade de ficar rico instantaneamente, ninguém ganhou na loteria, não é assim que se resolve a questão.
É preciso ser justo, coerente, razoável, e compreender o mercado em que se quer negociar.
Tem gente fazendo estampas para o mercado têxtil por 30 reais, o que é uma idiotice sem limites.
Eu negociaria uma imagem para este mercado por R$ 1500,00.
Cobrando muito bem cobrado, algo entre R$ 30.000 e R$ 50.000 por um litígio em imagens não licenciadas estaria em limites bastante razoáveis.
Mas chutar o pau da barraca pra lá de 300 mil reais é completamente irreal, ao menos neste tipo de negociação, neste mercado.
Ainda bem que a conversa foi muito além dos dois artistas, o nosso assunto com eles demonstrou a seriedade e confiança necessárias para estabelecer uma relação de confiança mútua, e a certeza que todos temos a ganhar com isto.
A Riachuelo tem interesse em valorizar e respeitar o artista, tanto os locais como os estrangeiros.
É preciso que os artistas ajam coletivamente, inteligentemente, com argumentos adultos em seus textos, plausíveis em seus valores, e entendam de fato a sua tarefa na cadeia produtiva.
Gostaria de ver partindo dos próprios artistas o respeito e a seriedade com seu mercado.
Eu busco este ideal desde que optei por esta carreira, e me sinto muito bem representado por muitos colegas que agem de maneira séria, respeitável, com virtuosismo artístico e empreendedorismo.















































































