Eu acredito que um artista só consegue evoluir no seu trabalho se tiver um pé (ou os dois) na obsessão.
Quanto mais viciado no processo, e quanto mais escravo do próprio vício, melhor será o artista.
Sempre foi assim, e sempre será.
Nestes últimos anos eu resolvi mergulhar de cabeça em um dos pontos mais falhos do meu trabalho, o desenho gestual, espontâneo, sem rascunhos a lápis ou refinamentos de finalização. Um desafio a ser encarado de frente, com persistência e uma certeza: o erro e a frustração são as únicas garantias no início do processo. O que vier, de bom e de mal é lucro. O erro é parte do aprendizado, e apesar de ser um fardo pesado para se carregar, é lucro também.
Com isto em mente, o passo seguinte é insistir pela quantidade. Se eu fizer 10 tentativas por mês posso ter uma ou outra mais ou menos legal, mas o mais provável é que nenhuma seja realmente boa. No entanto, se eu tentar 10 vezes por dia, é capaz que eu acerte algumas delas na mosca, e é quase certo que eu acabe eliminando os defeitos pela repetição, ou seja, esta é uma batalha a ser vencida pelo cansaço.
Pode parecer estranho para quem vê as artes prontas, mas nenhum artista está satisfeito com seu próprio trabalho. Parece uma corrida eterna contra um ideal de qualidade, sempre inatingível, sempre mais alto e mais rápido que a nossa natureza.
E eu vejo na inconformidade, na insatisfação com o próprio trabalho uma tremenda força motivadora que nos leva a sair da zona de conforto e fazer um esforço constante de melhora, na busca do que nos faz falta.
Eu encontrei um ambiente extremamente motivador, confortável, divertido e produtivo ao juntar os colegas no Sketchcrawl, e isto acabou se desdobrando em outros encontros temáticos, sempre com o mesmo propósito: desenhar em grupo.
Desenhar os músicos, ouvindo Jazz, foi uma experiência incrível, e quero ver se coloco isto no calendário dos ilustradores paulistas como uma prática constante, como o Bistecão Ilustrado, Pupunha Ink e as sessões de modelo vivo da Rosana Urbes.


Ainda quero juntar este pessoal para ir desenhar na Sala São Paulo, ao som de música clássica.
Esta tem sido a minha melhor balada. Não tem programa mais divertido que encontrar os amigos, jogar conversa fora, se divertir, trocar ideias e encher páginas e mais páginas do sketchbook.


Tenho feito isto compulsivamente, nas horas vagas, porque o meu trabalho atual no Estúdio Notan é totalmente digital, principalmente focado em concept design e 3D, usando Modo e ZBrush.
De encontros em Jazz bares à fuga da histeria coletiva da Copa do Mundo no SketchCopa, passando por almoços ilustrados com Marco Furtado e Alex Eschenbach, colegas da Vetor Zero, nossos vizinhos aqui no Itaim Bibi, eu tenho aproveitado cada instante livre para trabalhar minhas fraquezas técnicas, até mesmo nas reuniões de pauta do estúdio, desenhando os colegas em um breve Sketchcrawl solo.

Os resultados estão começando a aparecer, meu traço tem se tornado mais confiante, e cada vez mais os desenhos de improviso deixam de me parecer tão toscos, ou assustadores, como eu os via há alguns anos.
É uma busca constante, e não há atalhos.
Quem quiser melhorar o desenho tem que enfiar os dois pés na obsessão e sair desenhando até no banheiro, porque cada minuto rabiscando é um passo a mais em direção ao próprio estilo, aos temas que falam ao seu coração, e ao seu trabalho mais autoral.
Com ou sem companhia, não desperdice seu tempo livre. Desenhe, e divirta-se com cada descoberta.
Seu traço agradece.