Um assunto recorrente entre os ilustradores e artistas de forma geral, é sobre o tal “estilo pessoal”.
Alguns norteiam suas carreiras através dele, outros não estão nem aí para isto, e trabalham em função da necessidade do cliente.
Eu sempre tive orgulho de pertencer ao segundo time, um “tarefeiro”, um resolvedor de problemas, quase um bombeiro.
O apelido tarefeiro carrega um certo sarcasmo e até mesmo desprezo quando dito pelos artistas de uma linha mais autoral, mas na minha visão pessoal isto é apenas uma picuinha, um bairrismo tolo, vazio e inútil como todos os preconceitos.
Mas devo admitir que estou tentado a pender a balança da minha ilustração tarefeira para uma levada mais autoral, não porque eu tenha me afetado com o termo, pretendo continuar atendendo ao mercado como sempre fiz, afinal as contas vem antes do orgulho na minha escala de valores.
Só acho que chegou a hora.
Nos últimos dias eu ando bastante introspectivo, e tenho passado muitas horas de volta no meu estúdio, reconquistando um território que ficou bastante abandonado neste ano, por conta do novo projeto de trabalho no Estúdio Notan.
2010 foi um ano onde meu tempo foi canalizado para o trabalho em 3D, pós produção, hiperrealismo e tratamento fotográfico no Estúdio Notan. Aprendi muito com meus colegas, verdadeiros engenheiros da ilustração, mestres no estilo que dominam tão bem. Acho que a troca foi muito intensa e produtiva para todos, mas para mim este ciclo se encerrou. Eu senti muita falta das tintas, do desenho em papel, das mãos sujas e do processo artístico que eu estava acostumado há muitos anos.
Eu senti me distanciar de algo que persegui por uma vida inteira, e que iria se perder se eu não mudasse de rumo. O perigo maior seria não chegar ao domínio total do 3D, e em alguns anos eu estaria longe dos dois objetivos.
Eu não aguentava mais ver meu estúdio com nostalgia, notar a poeira acumulando nas mesas e só faltei levar flores para alguma coisa que estava morrendo ali. Era sutil, mas perturbador, até que chegou o ponto onde eu tive que escolher onde e como eu passaria os próximos anos.
Seria confortável para mim e compreensível para qualquer um se eu passasse os próximos anos com o pessoal do Notan, trabalhando com uma equipe fantástica, faturando bem, na linha de frente da ilustração publicitária… mas eu não estaria sendo sincero comigo mesmo, e isto iria intoxicar primeiro a mim, depois aos colegas, e eu resolvi abrir o jogo.
Eu optei por uma decisão arriscada, trocando a segurança do Estúdio Notan pelo retorno ao trabalho no meu próprio estúdio, como quem sai de uma banda que está fazendo sucesso para apostar em uma carreira solo.
Não posso recomendar esta fórmula para todo mundo, seria uma irresponsabilidade, mas tenho acompanhado o trabalho de muitos ilustradores, e todos aqueles que tem uma identidade visual marcante, reconhecível, e criaram uma reputação com um trabalho autoral tiveram que tomar esta decisão em algum momento de suas carreiras.
Eu sempre optei por trabalhar conforme a necessidade dos clientes, seguindo as orientações de cada job para dar forma e conteúdo às imagens, e bem poucas vezes consegui colocar uma característica minha, pessoal nas ilustrações. Era uma filosofia de trabalho, honesta e funcional, mas é uma fórmula que eu quero ver mais flexível, quero me reconhecer em cada traço, nos temas e nas cores do que faço.
Talvez eu tenha que reinventar a minha própria roda, e sinto que não seria possível fazer isto antes, e talvez não seja viável fazer depois.
Esta é uma janela de oportunidade, talvez única, de colocar a minha assinatura visual nos trabalhos futuros, seja nas telas, nos papéis ou no monitor. Quero produzir muito, mas também quero que o resultado seja a soma de tudo que eu venho acumulando em técnica e experiência nestes 26 anos de ilustração.
Conversando com o Marcus “Japs” Penna no Twitter, eu comentei que o tal do “estilo”, entre muitas aspas, é o conjunto de escolhas, soluções, técnicas e interpretação pessoal que o artista encontra para canalizar suas ideias. Tudo se resume a fluidez e continuidade, como na música, onde o artista estuda os fundamentos durante anos, para chegar no ponto onde ele não se preocupa mais com a teoria, todo o pensamento dele é a música.
Claro que tem o lance da memória muscular, da execução física da coisa, mas isto é assunto para outro post.
Eu venho buscando esta fluidez e continuidade aos poucos, quase timidamente, entre um trabalho e outro, nos encontros de ilustradores, no Sketchcrawl, SketchJazz, etc, mas a dedicação em doses homeopáticas não dá resultado.
As coisas só acontecem para quem enfia o pé na porta e mergulha de cabeça nas suas obsessões.
Por isto eu quis compartilhar o insight com os amigos que visitam a Sketcheria.
Seguem abaixo algumas imagens recentes deste processo, de telas finalizadas e pinturas digitais a estudos de anatomia, abstrações lambuzadas de tinta, lápis, carvão e tudo mais que estiver à minha volta na hora da procura pelo traço pessoal.
Ele está aí no meio, e eu sinto como se estivesse em uma pescaria, sentindo o peixe fisgar.
Fique a vontade para deixar um comentário se quiser, seria interessante ter este retorno, porque eu saberia como as pessoas reagem, do que elas gostam mais (ou menos) e ter uma visão externa desta linha de trabalho.




























